“Eu temo que um dia não seremos mais bem aceitos nesse país”, diz brasileira que estuda em universidade da Virgínia

Por Isabella Marques e Juliana Martinelli (*), para o Diálogos do Sul

Apesar da fama de ser o país das oportunidades, os Estados Unidos têm, paulatinamente, perdido o status de “terra dos sonhos” desde que o presidente Donald Trump chegou ao poder, em 2017. Além dos imigrantes de origens muçulmana — principais alvos das ações anti-imigração do mandatário — e latina, outra categoria vem sendo diretamente afetada pelas políticas recentes: os jovens estudantes universitários.

A brasileira Nicole Benedito, de 20 anos, estudante de biologia e pré-medicina no estado da Virgínia resume o sentimento dos estrangeiros nos EUA: “eu temo que um dia não seremos mais bem aceitos nesse país”.

O recrudescimento com os estrangeiros, no entanto, também afeta os estadunidenses. Além de dispensar grandes talentos, as ações de Trump impactam também a mão de obra e o investimento que esses imigrantes fazem no país. O ensino dos EUA, por exemplo, se tornou cada vez mais dependente do dinheiro trazido pelos estrangeiros. Somente em 2015, os estudantes imigrantes desembolsaram cerca de US$ 30,5 bilhões para estudar.

Em se tratando do ensino universitário, o número de jovens interessados em ingressar nas faculdades estadunidenses é alto. Em 2015, o Brasil foi o 6° país que mais enviou intercambistas aos EUA: 23.765 estudantes. A China figura em primeiro lugar, tendo enviado mais de 300 mil alunos, seguida por Índia (132.800), Coreia do Sul (63.700), Arábia Saudita (59.900) e Canadá (27.240).

As ações do atual governo, no entanto, entram em divergência direta com esses números. De acordo com William Tierney, professor e codiretor da Universidade do Sul da Califórnia, “as políticas do presidente Trump são um desastre para as universidades”.

A visão dos alunos não é divergente: “Opiniões diferentes dão vida a novas teorias científicas, formas criativas de arte e projetos inovadores de arquitetura. A perda de imigrantes vai afetar diretamente diferentes áreas do conhecimento”, diz a aluna espanhola Paloma Sanchez, de 19 anos, estudante de gestão de negócios em Bluefield College, na Virgínia.

Diante do atual cenário, várias universidades estadunidenses se posicionaram sobre o assunto, como é o caso da Universidade da Pensilvânia que emitiu um comunicado afirmando permanecer de portas abertas ao mundo: “O campus é lar de mais de 5 mil estudantes internacionais, aos quais provê todo o suporte necessário, apesar dos recentes decretos presidenciais”.

O presidente da Universidade Duke, localizada na Carolina do Norte, Vincent Price, também se pronunciou. Ele publicou uma carta em nome da faculdade endereçada diretamente a Trump.

“Na [Universidade] Duke, todos os nossos alunos, incluindo aqueles que não são cidadãos, são inestimáveis para o ensino que fazemos na sala de aula, para a pesquisa que desenvolvemos no laboratório e para as descobertas que realizamos no centro médico”, diz a publicação.

A universidade pede ao presidente que não acabe com o programa DACA (sigla em inglês para Deferred Action for Childhood Arrivals, Ação diferida para chegados na infância, em tradução livre), cujo fim tramita no Congresso do país.

O programa, criado em 2012 durante a administração de Obama, tinha o objetivo de regularizar temporariamente a situação de imigrantes sem documentação que não tinham passagem pela polícia e que chegaram ao país ainda menores de idade, os chamados dreamers (sonhadores, em português).

O fim do DACA virou uma moeda de troca do presidente com o Congresso do país. Trump prometeu retirar a proposta caso a construção do muro na fronteira com o México seja aprovada.

A soma daqueles que antes eram contemplados pelo programa e hoje são diretamente prejudicados por seu fim gira em torno de 800 mil. Desses, cerca de 620 mil são mexicanos. Por chegarem tão novos aos EUA, muitos desses imigrantes sequer falam a língua do país de origem.

A Westfield State University se manifestou em suas redes sociais contra o fim do Daca
A Westfield State University se manifestou em suas redes sociais contra o fim do Daca

“Definitivamente não ficou mais fácil permanecer nos Estados Unidos agora que Trump é presidente”, diz o imigrante austríaco Kevin Stoffle, 20 anos.

Enquanto isso, alunos imigrantes estão evitando até mesmo assistência médica com medo das revistas policiais que podem causar deportação expressa.

O chanceler mexicano, Luis Videgaray, declarou que, mesmo tendo ciência do descontentamento dos dreamers com o possível regresso ao México, o país está se preparando para recebê-los. Os regressados voluntários ou deportados poderão contar, por exemplo, com uma oferta maior e específica de trabalhos correspondentes aos talentos conquistados em solo estadunidense.

“Falamos de jovens com uma excelente formação, talentosos, disciplinados, cumpridores da lei, mais de 30% têm carreiras universitárias. Para o México, seria uma sorte extraordinária recebê-los. O México sairia ganhando”, declarou Videgaray.

Edição: Vanessa Martina Silva

(*) Produzido para o Diálogos do Sul em parceria por alunos da U. P. Mackenzie