Um pouco de história ajuda a compreender o presente e a construir o futuro. Vejam se não é coisa de ofender jericos: o governo elegeu o transporte viário, ou seja, veículos que queimam combustíveis de origem fóssil, rodando sobre asfalto, também de origem fóssil.

Paulo Cannabrava*

Diante da greve dos caminhoneiros, que paralisou o país por dez dias, o país começou (ou deveria ter começado) um processo de reflexão sobre os porquês de termos chegado a este ponto. Como contribuição a isso, a revista virtual Diálogos do Sultenta, em uma série de artigos que publicaremos ao longo da semana, explicar os fenômenos que deixaram o país à beira do caos.

 

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Petróleo e crise política: Temer não caiu. Fortaleza dele ou fraqueza da oposição?
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Muito bem, se elegeram esse modelo viário, tinham que ter planejado a infraestrutura para viabilizá-lo.

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Um plano rodoviário que antecedesse a abertura de novas fronteiras agrícolas; planejamento para garantir o

suprimento de petróleo e gás natural; refinarias para produzir gasolina e diesel; oleodutos e gasodutos; usinas de asfalto; fábricas de cimento; frota e tudo o mais que a logística exige.

Rodovia transamazônica entre as cidades Rurópolis e Uruará, no Pará. Imagem de 2014 | Foto: Wikicommons

Esse modelo foi implantado no Brasil na época em que minguava o petróleo nacional e nem se sabia se um dia poderíamos ser autossuficiente. E como não se preocuparam em planejar a ocupação territorial e a expansão da fronteira agrícola, tiveram que correr atrás, sempre com atraso de muitos anos, para atender à demanda por estradas e demais infraestruturas.

Ainda hoje, em pleno apogeu do modelo rodoviário, a maioria das estradas são péssimas, mal cuidadas, e cobrando pedágios absurdos quando privatizadas.

 

Há muita opção

 

Quem conhece um pouco de história, gosta de ser brasileiro e procura estar informado, sabe ou poderá saber que nos primórdios de nossa história a marcha para o Oeste, que resultou na ocupação desse imenso território, foi feita basicamente por rios.

A incrível hidrografia do Brasil, única no mundo, em que os rios que nascem perto do litoral e correm para o interior. É possível ir de São Paulo a Cuiabá por rios, arrastando as canoas nos trechos a percorrer por terra. Hoje ficou mais fácil, você pode pegar um barco próximo a Piracicaba, no interior paulista, e navegar uns 500 quilômetros até o rio Paranazão e de lá seguir até Buenos Aires, capital argentina, para comer um bife de chorizo, ou se preferir, a Montevidéu, capital uruguaia, pra comer dulce de leche.

O problema, sempre há um inexplicável problema, é que os que construíram a hidrelétrica de Itaipu não fizeram as necessárias eclusas. Ficou complicado fazer baldeação no Paraguai, de trem ou caminhão, e chegar ao Mar del Plata e ao Oceano Atlântico.

Canal de Navegação da Eclusa de Nova Avanhandava da Hidrovia Tietê-Paraná, no interior de São Paulo | Foto: Governo do Estado de São Paulo – Flickr

Esses são os absurdos mais óbvios de uma ocupação burra e predatória. O Tietê, no trecho que corta os municípios da Grande São Paulo, capital, foi, até a década de 1940, limpo e navegável. Hoje é, talvez, o rio mais poluído do mundo. Suas águas mais parecem asfalto e fedem a esgoto.

Há que lembrar também, que até meados do século passado, o Brasil contava com uma malha ferroviária aceitável e a bem dizer, mais que satisfatória em São Paulo, onde os ramais ferroviários iam carregar café dentro das grandes fazendas, e, claro, transportavam gente. Era o principal meio de transporte para as cidades do interior. A Companhia Paulista era exemplar, complementada pela Mogiana, Araraquarence, Sorocabana, para só citar algumas que foram construídas por consórcios de fazendeiros e que completavam a malha estadual e a federal.

Bem diferente do que estão fazendo agora. As ferrovias construídas pelas mineradoras ou por empresas estatais chinesas não levam gente. Só levam o minério que está sendo saqueado num ritmo alucinante. Basta ver a fila de navios cargueiros de grande porte aguardando vez no porto de Itaqui, ao lado de São Luís, no Maranhão. Daí saíram, em 2017, 19,1 milhões de toneladas de minérios.

O negócio é tão promissor que a estatal chinesa de comunicação e transporte CCCC vai investir na construção de outro terminal multi-cargas em São Luís, com capacidade de escoar 15 milhões de toneladas, principalmente grãos.

Acredite se quiser. Sucatearam os trens, venderam os trilhos, tudo para favorecer o transporte rodoviário. Resultado:

• 75% da carga transportada no Brasil corre por rodovias;
• 9,2% da produção é transportado por via marítima;
• 5,8% por via aérea;
• 5,4% (ridículos) por ferrovias;
• 3% por cabotagem;
• 0,7 por hidrovias (mais ridículo ainda).

Gostam tanto dos Estados Unidos, por que não copiam as coisas que são boas, compatíveis e melhoráveis?

Nos EUA, as ferrovias transportam 43% da carga nacional, as rodovias 43%, e as hidrovias 17%. Comparativamente, pelas características geofísicas, melhor seria copiar a Rússia, já que não é mais o “demônio vermelho”. Lá, as ferrovias transportam 81%, as rodovias, 8% e as hidrovias, 11%.

Como nossas rodovias são ruins, exigem mais tempo para o percurso, exigem também mais gastos com manutenção, o que eleva barbaridade o custo do afretamento.

Este é o fato. Isso seria assim se houvesse planejamento e diálogo?

*Jornalista editor de Diálogos do Sul