Faltam 10 dias para que a bola comece a rodar sobre o gramado do grande Estádio Desportivo do Complexo Olímpico Luzhniki, que durante a época comunista era o Estádio Central Lenin de Moscou. Oitenta mil torcedores e espectadores estarão presentes na inauguração do primeira Copa Mundial organizada por um país da Europa Oriental.

Federico E. Cavada Kuhlmann*

Deste a do México em 1970, as imagens do que ocorre nos gramados em que se disputa chegam a todo o planeta. Seguramente mais de um bilhão de pessoas estarão diante das televisões, nos mais recônditos rincões do mundo para ver o que muitos comentaristas desportivo chamam “O maior evento desportivo do universo”.

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Diante dessa realidade, cabe perguntar: O que é esse evento que transcorre a cada quatro anos desde 1930, com exceção dos anos de 1945 e 1946, que foi suspenso devido a Segunda Guerra Mundial?

Na verdade, é fácil defini-lo. É um acontecimento político e comercial.

O futebol profissional é um espetáculo de primeira grandeza que supera em audiência e torcedores qualquer outro, sejam musicais, teatrais ou de qualquer outra disciplina artística. Este espetáculo baseado em uma disciplina desportiva supera todos os demais em matéria de assistência e telespectadores.

É isso o que o converte no “maior evento político e comercial do universo”, e darei os argumentos para demonstrar. Começarmos com uma pequena amostra que não tem as dimensões “mundiais”, mas servirá para mostrar os dois aspectos.

Estádio Lujniki | Foto: Wikicommons

Não faz muitos anos, a notoriedade da Colômbia estava centrada na existência das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), a dura luta militar contra a guerrilha, os sequestros de políticos e militar e a produção de cocaína. Quem conhecia James Rodríguez? Os torcedores locais e os argentinos, pois tinha iniciado a carreira futebolística e deixado claramente estabelecido que seu nome é James, para que ninguém dissesse “Yeims”.

Então fizeram uma autêntica manobra político-comercial. O jogador foi vendido com grande estardalhaço a um importante clube europeu e o presidente desse clube obteve vultosos contratos para construir rodovias no país sul-americano.

 

História

 

O caminho político comercial desse campeonato foi traçado pelo francês Jules Rimet, a partir do Congresso da FIFA de 1928, quando foi realizado o Primeiro Campeonato e o francês foi partidário de que se realizasse na América do Sul e propôs o Uruguai, por causa de seus triunfos olímpicos e porque celebrava o Centenário de sua Constituição. Por isso, o estádio uruguaio mais importante se chama Centenário, e Rimet o qualificou como “templo do futebol”. Os europeus boicotaram essa Copa, compareceram somente França, Bélgica, Iugoslávia e România.

Essa Copa que hoje tem o nome do fundador da competição chega este ano a sua 21edição. O Brasil foi o que mais vezes conquistou a taça, com cinco vitórias; os italianos e os alemães ganham quatro vezes cada; Argentina e Uruguai duas vezes, enquanto que a Inglaterra, berço do futebol, França, onde nasceu Rimet, e Espanha, só a conquistaram uma vez.

Depois daquela primeira realizada no Uruguai, a segunda Copa do Mundo foi realizada na Itália, em 1930 e é, talvez, o exemplo máximo do seu objetivo político. O Uruguai e outros países sul-americanos não compareceram, atendendo ao boicote em atenção aos europeus. Só Argentina, Brasil e Estados Unidos foram para a Península Itálica.

 

Conveniência fascista

 

Eram momentos políticos de grandes expectativas internacionais. Os fascistas tinham conquistado a Itália e a Alemanha, e travavam uma feroz batalha por expandir-se mundialmente. Henry Ford, Charles Augustus Lindembergh nos Estados Unidos; o duque de Windsor (ex rei da Inglaterra) eram alguns dos personagens que apoiavam essas ideias.

Quando os italianos conseguiram que a Suécia retirasse sua postulação a sediar a Copa e foram proclamados como sede da Copa do Mundo, Il Duce, Benito Mussolini chamou o Giorgio Vaccaro, presidente da Federação Italiana de Futebol e dirigente do Comitê Olímpico e disse:

“Não sei como será, mas a Itália deve ganhar essa Copa”. O dirigente respondeu com máxima boa disposição, “Duce, faremos todo o possível”.

Mussolini, com cara séria respondeu: “General, o senhor não me entende bem, não me compreende. Itália deveganhar essa Copa. É uma ordem”.

A Itália tinha iniciado os trabalhos para ser campeão bem antes. Trouxeram os argentinos Luís Monti, Atílio Demaría, Enrique Guaita e Raimundo Orsi, os quais foram “naturalizados” convenientemente, e também o brasileiro Anfhiloquio Marqués Filho, que “naturalizaram” como Anfilogino Guarisi. Levaram o Monti, do Juventus, por cinco mil dólares mensais, uma casa e um automóvel, isso em 1930. Quanto pagariam hoje?

Durante os jogos, se via os “camisas negras”, a saudação fascista, em pleno campo, e os árbitros entregues à sorte dos organizadores. A competição tinha fase eliminatória com uma única partida, e prorrogação de 30 minutos e nova partida caso não desempatasse na prolongação.

Nas quartas de final, os donos de casa se enfrentaram com a Espanha e foi uma carniçaria, segundo contam os espanhóis. Tiveram que jogar de novo pelo desempate, e o inventor desse negócio, Jules Rimet, disse que “foi um encontro espetacular, dramático e jogado com uma intensidade poucas vezes vista”. O povo, porém, batizou de “a batalha de Florença”.

Contam que a Espanha começou ganhando com um gol aos 31 minutos, mas quando terminava o primeiro tempo, enquanto Schiavio agarrava o goleiro espanhol Zamora, o italiano Ferrari empatava o jogo e o gol foi validado pelo juiz belga Baert.

Como ninguém mais fez gol, no dia seguinte tiveram que jogar pelo desempate. Os espanhóis Zamora, com duas costelas quebradas, Ciriano, Lafuente, Iraragorri, Gorostiza e Lángara não podiam estar neste lance por lesões que sofreram fruto da violência italiano, não castigada pela arbitragem.

O jogo de desempate foi continuação da “batalha” e os espanhóis Bosh, Chacho, Regueiro e Quincoces tiveram lesões. Mas o maior nesse dia foi quando o árbitro suíço validou o gol de Giuseppe Meazza, quando Demaria impedia que o goleiro espanhol atuasse. Esse juiz, posteriormente foi expulso pelo resto da vida pela federação Suíça.

A final foi Itália e Checoslováquia. Com arbitragem já conhecida como a favor do time local, Angelo Schiavio, na prorrogação, marcou o gol que lhe deu a copa do mundo. O treinador da seleção, italiano Vittório Pozzo, recebera um telegrama antes da partida final em que se lia: “Vencer ou Morrer”.

Luís Felipe Monti, um dos “naturalizados”, ex jogador do San Lorenzo de Almagro, o time do papa Francisco, que no Mundial de 1930, em Montevidéu tinha marcado o primeiro gol argentino num desses campeonatos, disse, depois “Em 1930, no Uruguai, queriam me atar se ganhasse, e na Itália, quatro anos depois, me matariam se perdesse”.

Em 1938, a sede foi na França e com exceção do Brasil e
Cuba, não participaram as equipes americanas em protesto por ser de novo na Europa. A Itália de novo foi campeã com seus jogadores vestidos com as “Camicie Nere”, símbolo do fascismo.

 

Guerra Fria

 

Outro dado ilustrativo. Quando estávamos em plena Guerra Fria, em 1956, a sede escolhida foi o Chile, e para a sétima Copa, em 1962, foi a vez da Argentina. Os que encabeçaram o grupo chileno que trabalhou para conseguir esse objetivo, eram figuras estreitamente vinculadas à Democracia Cristã, considerada a “grande alternativa ao comunismo internacional” nesse período. Na Europa, a DC governava na Alemanha e estavam também no governo italiano enfrentados dramaticamente aos comunistas de Palmiro Togliatti.

Já passaram muitos anos e muitas Copas do Mundo. Este ano (2018), na Rússia, será a 21ª Copa e esse país, que nenhuma relevância tem no futebol internacional, será o país sede.

Para isso, selecionaram doze locais: Ekaterimburgo, Kaliningrado, Dazán, Moscou, Nizhni Nóvgorod, Rostov do Don, San Petersburgo, Samara, Saransk, sochi e Volvogrado. Neles, foram construídos dez estádios especialmente para o evento. Quase todas cidades europeias da Rússia, para facilitar os custos e os deslocamentos dos participante e do público. Só Ekaterimburgo está na Ásia.

O objetivo de Putin é claramente político. Necessita criar uma imagem internacional da Nova Rússia, do seu potencial e capacidade criadora que só é entendido em termos globais se utiliza esse veículo, a Copa do Mundo. Por isso, seus adversários cada vez advertem que podem boicotar o Mundial da Rússia.

Vladimir Putin já foi acusado pelo Reino Unido de ser mandante do atentado com agente químico contra o espião russoSergei Skripale sua filha Yulia, em Salisbury. A premier britânica, Theresa May, não duvidou um segundo para expulsar 23 diplomatas russos da Grã Bretanha e também ameaçou claramente boicotar a Copa, no que foi seguida por outros países seguidores dos ingleses. Já declararam enfaticamente que “nenhum representante da família real nem nenhum mandatário assistirá o Mundial de Futebol na Rússia.

A questão comercial é indiscutível. Imaginem quanto ganham as redes de televisão que transmitem os partidos para audiências de muitos milhões de telespectadores.

A alemã Adidas será mais uma vez um grande patrocinador. Provê a bola oficial da Copa e, além disso, patrocina 12 das seleções participantes. A Gazprom, empresa de gás russa, é outra grande patrocinadora do Mundial.

* diretor geral na Agência Informativa Cone Sul – AICOS. Artigo enviado pelo autor a Other News