A Conferencia de Povos de Tiquipaya, foi convocada por Evo Morales, presidente boliviano, assim que o presidente de Estados Unidos, Donald Trump, materializou como política de Estado, a partir de janeiro de 2017, a expulsão de 10 milhões de migrantes e a renúncia recente ao Acordo de Paris.

A Conferencia de Povos de Tiquipaya, foi convocada por Evo Morales, presidente boliviano.
A Conferencia de Povos de Tiquipaya, foi convocada por Evo Morales, presidente boliviano.

Os ex presidentes da Espanha, José Luis Rodriguez Zapatero, da Colômbia, Ernesto Samper, do Equador, Rafael Correa e o presidente da Bolívia, Evo Morales, anfitrião da Conferencia, argumentaram contra a penalização da mobilidade humana e as políticas distantes ou contrárias aos empenhos da comunidade internacional por reduzir a temperatura global, ou as emanações de dióxido de carbono pelas potencias industriais.

O ministro boliviano de Educação, Roberto Aguilar, informou que a Conferencia dos Povos se desenvolveu em quatro momentos: o primeiro foi a inauguração, o segundo, de exposição dos representantes internacionais e o terceiro de debate nas mesas de trabalho e por última as conclusões.

Samper, que também é ex presidente da União de Nações Sul-americanas, advertiu sobre o perigo para a humanidades contido na política exterior do titular da Casa Branca. “O maior perigo neste momento na América Latina é o senhor Trump; já tivemos que aguentar várias “trumpadas” (golpes) do senhor Trump”.

Samper esclareceu que a primeira “trumpada” na América Latina foi ter declarado ilegal a mais de dez milhões de migrantes, que serão deportados em que se respeite seus direitos humanos.

A segunda “trumpada” foi a decisão de construir um muro na fronteira entre México e Estados Unidos para evitar a passagem de migrantes necessitados ao país.

Rafael Correa, por sua vez, depois da instalação da Conferencia, declarou que Trump “é um macaco com navalha” que se assanha contra a paz mundial e a segurança da humanidade. “Trump é uma desgraça, não sabe nada. No pouco tempo que está (como presidente) anuncia o muro para México, retira seu país do Acordo de Paris (…), retrocedo no que se tinha avançado para levantar esse bloqueio criminoso a Cuba. É um tipo absolutamente perigoso, é um macaco com navalha, um tipo não preparado e muito elementar que está dirigindo a maior potencia na história da humanidade”, disse em entrevista à radio estatal da Bolívia.

Evo Morales, anfitrião da conferência, sem mencionar o nome de Trump, criticou a decisão de ampliar o muro, lembrando que agora mesmo tem uma extensão de 1000 quilômetros. “São os mesmos que fecham as portas e constroem muros para impedir que as pessoas que fogem dessas guerras militares ou econômicas  salvem suas existências.

Rodriguez Zapatero, também na abertura do evento, advertiu que a recente decisão de Trump de abandonar o ecológico Acordo de Paris, não variará a história da humanidade nem o estado da natureza. “Claro, temos a angustia da mudança climática. Senhor Trump, dá na mesma que renuncie a Paris, da na mesma com os discursos xenófobos, de superioridade, de supremacia, de hierarquia, de domínio. A história não vai se deter nem por Trump nem por nenhum governante que despreze os direitos humanos”.

Mais tarde, o senador mexicano Alejandro Encinas advertiu que a proposta de construir um muro na fronteira de seu país com EUA é uma afronta a América Latina e ao mundo. “O muro que Estados Unidos quer construir é uma afronta a toda a região de América Latina e do Caribe e também ao mundo, mas também estou convencido de que nenhum muro deterá os processos migratórios que já se globalizaram”.

Dia Internacional do Refugiado

No momento em que 240 milhões de pessoas, 3,3% da população mundial, migrou a outros países, onde não só se estabeleceram mas também se converteram numa grande fonte de ingressos para essas regiões, o encontro de Tiquipaya, que nos corredores nominavam de “conferência anti Trump, dedicou um momento solene para celebrar o Dia Internacional do Refugiado.

O número global de pessoas que escaparam de conflitos armados, da fome ou desastres naturais alcançou no ano passado a cifra recorde de 65,6 milhões, de acordo com o último informe da agência de Nações Unidas para os Refugiados ACNUR, em seu  Informe Mundial de Tendências de deslocamento forçado que realiza anualmente.

Segundo estimativas da Organização Internacional para as Migrações OIM, em 2015 morreram 3.771 pessoas nas tentativas de cruzar o mar Mediterrâneo que conecta Europa, parte da Ária e África para escapar da guerra, ponde de manifesto uma das maiores crises migratórias depois da Segunda Guerra Mundial (1939-1945)

A isto se soma uma nova condição de migrantes – os migrantes climáticos, que se vêem obrigados a abandonar seus países pelos efeitos da mudança climática, degradação ambiental, secas e inundações.

Sempre sem mencionar as políticas de Washington, Morales enfatizou em seu discurso que o ser humano “tem direito à mobilidade humana e a escolher o território de sua residência”.

A Conferência de Tiquipaya recolheu “propostas para a construção de uma cidadania universal articuladora das identidades plurais dos povos e a soberania dos Estados”, e debateu, nas mesas temáticas, as causas estruturais e sistêmicas que provocam a mobilidade humana de um Estado a outro e o impacto da mudança climática, a crise econômica, as guerras e as políticas intervencionistas sobre os fluxos migratórios.

Também a contribuição dos migrantes ao desenvolvimento humano integral e inclusive dos povos assim como as estratégias conjuntas para la observância, proteção e ampliação dos direitos dos migrantes, refugiados e seus familiares.

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