Reflexões sobre a vitória de Donald Trump e sua repercussão aqui e no mundo.

Paulo Cannabrava Filho*

Foto: Glória Fluguel
Foto: Glória Fluguel

Um dia desses, conversando com nossa equipe de jornalismo, riamos ao constatar que as notícias dominantes na mídia sobre Estados Unidos mais pareciam vir de uma república bananeira: as “Banana’s Republic”, Estados sem condições de estabilidade econômica e política devido à ingerência externa.

MundoDeTrumpPrimeiro sintoma: a unanimidade da mídia em torno de um candidato. Depois disso, questionaram a legitimidade da eleição e, inclusive, acusaram uma potência externa de ter se metido indevidamente no pleito. “Vai dar dor de cabeça por um ano, dois anos, coisa assim, enquanto esse governo estiver lá”, disse o ministro de relações exteriores de Obama, John Kerry, em Davos, sobre as fanfarronadas de Donald Trump. Paralelamente à demonização total do candidato que queriam que perdesse e que acabou vencedor, o povo nas ruas marchando pedindo sua cabeça. Se não bastasse, repressão, pancadaria, depredação.

E tudo isso estava previsto. Aqueles que disputaram e perderam as eleições, já durante a campanha tinham advertido que, se perdessem, fariam da vida do ganhador um inferno.

Oi, gente! quantas vezes vocês já assistiram esse filme?

A mídia tornou-se aética

Ajuda a entender o que está realmente ocorrendo ir atrás do dinheiro, desvendar o que e quem está por trás dos fatos…

Ao longo do tempo, deu para perceber que uma coisa são os Estados Unidos real, da população ingênua e mal formada, alienada por séculos; e, outra coisa, os EUA da propaganda, a imagem fabricada na guerra cultural, que utilizou e utiliza as mais sofisticadas técnicas de manipulação psicossocial: os EUA dos filmes e da mídia servil.

A atuação da mídia tem sido essencial nessa guerra cultural. Antes, conservadora, servia aos interesses das oligarquias e foi porta-voz do modelo de desenvolvimento predatório e excludente. Hoje, é submissa. Tornou-se porta-voz do pensamento único imposto pela ditadura do capital financeiro. Pensamento único que para desgraça nossa vem sendo imposto também nas universidades.

Dominada, a mídia se tornou aética, portanto, apátrida. O capital volátil não tem pátria, como não tem sentimento algum além do desejo desenfreado por lucro. Como que por osmose, a população vai se coisificando, meros consumidores em busca de vantagem para si, olhando o outro como coisa descartável. Em outras palavras, como dizia Guy Debord, “o habitante da sociedade de espetáculo é o espectador, ser que não vive, apenas contempla”.

O grande feito de Donald Trump foi derrotar a mídia

Em novembro, comentando a surpreendente vitória de Donald Trump, eu dizia que a primeira verdade que se destaca é que Donald Trump derrotou a grande mídia consensual. Ele disse reiteradas vezes durante a campanha: “não estou competindo contra Hillary, estou competindo contra os corruptos meios de comunicação[i]. A partir disso, o confronto com a mídia tende a acirrar-se.

Nessa mesma matéria eu informava que entre os maiores financiadores da campanha de Hillary estava o Move On,  cujo controlador é a Soros Open Society, ou seja, George Soros, o maior especulador do planeta. O Move On é um think tank parecido com o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais) — criado pelo Golbery nos anos 1950 para articular a captura do poder e que teve  papel fundamental na derrubada do governo de João Goulart. O Move On já sinalizara, mesmo antes da posse, que trataria de tornar a vida insuportável para Donald Trump, tal como fizeram aqui com a nossa presidenta Dilma Rousseff. A elite não aceita nem perdoa um adventício no poder.

Está claro o que estava por traz dos democratas: o liberalismo totalitário, como diria Noam Chomsky, ou a ditadura do capital financeiro, dizemos nós. Não se sabe ainda o que poderia estar por traz de Donald Trump. O certo é que ele provocou o verdadeiro “big-one”, o terremoto que deu a maior chacoalhada no cenário político e social dos EUA, com réplicas em todo o mundo. A partir daí, muita coisa pode acontecer, tanto para o bem, como pro mal, advertimos em novembro, logo após divulgarem o resultado.

Em resumo, quem realmente perdeu a eleição foi George Soros, ou seja, a turma do capital financeiro que a partir dos anos 1990 dominou o sistema, conduziu o Estado.

Nacionalismo

Agora se vê muita gente assustada com o nacionalismo explícito manifestado por Donald Trump. Medo porque o nacionalismo também se sente fortalecido na Europa.

Por acaso, em algum momento de sua história, os Estados Unidos deixaram de ser nacionalista?

Gente… olhem um pouco para a história! E também para a história da Europa porque os que plasmaram a doutrina estadunidense se inspiraram na Europa.

A busca e a construção da hegemonia se fez e só podia fazer-se fundada num forte nacionalismo e na crença da superioridade da raça. Nacionalismo explícito nas doutrinas que fundamentam o Estado desde os fundadores da pátria até hoje, bem sintetizada por James Monroe: “a América para os americanos”, ou “Vamos fazer a América forte outra vez”, de Donald Trump.

Simón Bolívar, o libertador, diante disso, convocou as jovens nações das Américas para o Congresso Anfictiônico do Panamá pois sabia que isso significava estender seu território (ou hegemonia) até a Patagônia, urgia a união dos latino-americanos para barrar o monstro. Essa união ainda está por ser construída. Incrível!

É o forte nacionalismo e a crença na superioridade da raça que sustentam as guerras de conquistas ao longo da história dos Estados Unidos, assim como de outros imperialismos. Ou não foram guerras de conquistas que usurparam mais da metade do território mexicano, incorporaram Porto Rico, expandiram-se pelo Pacífico e recentemente invadiram o Iraque? Sejam democratas ou republicanos, seguem fielmente a doutrina…

Quantas bombas jogou o democrata Kennedy no Vietnã? E em Cuba? Quantas bombas jogou o democrata Obama no Afeganistão, na Síria? Quem foi que espionou a Presidência da República e a Petrobras para dar início a essa desestabilização que estamos sofrendo no Brasil?

Gente, o que menos importa para o sistema de poder nos EUA são os seres humanos e o discurso. O que vale é o sistema. E o sistema está programado para se expandir, não sobrevive se não se expandindo.

Por exemplo: o muro da vergonha na fronteira com o México já existe, vem sendo construído por democratas e republicanos há muitas décadas. Não é uma invenção de Donald Trump. Eles argumentam que é preciso ter um controle sobre o tráfico de drogas, armas e gentes. Ficam aflitos quando perdem o controle sobre os tráficos.

Diante disso, é de se perguntar: prescindirá as classes media e rica da mão-de-obra subalterna dos imigrantes latinos?

Modelo esgotado

A verdade é que ninguém aguenta mais viver sob a ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro. A chamada globalização levou a civilização a um mundo insuportável, fadado à autodestruição se nada for feito.

A riqueza do 1% mais rico superou a dos 99% da humanidade. Como é possível que oito (cada um com nome e sobrenome) pessoas tenham tanta riqueza como a que corresponde a mais da metade da humanidade? E que nessa metade dos habitantes da terra o que mais mata ainda seja a fome em todas as suas manifestações: desnutrição, deseducação, exclusão, precarização, exploração, escravidão…

Transformaram a educação em commodities aumentando ainda mais a massa de analfabetos funcionais e a servidão intelectual. Que futuro terão os povos em que as escolas devem dar lucros e não ensinar a pensar?

Até as epidemias de sífilis voltaram em países como Estados Unidos e Brasil, sendo que aqui até a febre amarela, erradicada há mais de 50 anos, voltou a ser epidêmica e compete com as epidemias de dengue, chikungunya, zika e fome.

Por toda parte já se começa a perceber que não dá mais para conviver com esse modelo. Até o G-20, esse seleto clube dos muito ricos (o que o Moro foi fazer lá?), reunido em Davos no Fórum Econômico Mundial reconhece, e está explicito no The Inclusive Growth Development Report.

Esse informe, feito para basilar o Fórum, chega à conclusão de que a globalização, pensada para “democratizar” o comércio, resultou em uma maior concentração: “ela não rendeu benefícios eficientes como esperado e tem sido associada com o crescimento da desigualdade… há pouca dúvida sobre a existência de riscos genuínos da abertura pra fluxos financeiros internacionais… tem ampliado a volatilidade econômica e a frequência de crises em muitos mercados emergentes e economias em desenvolvimento”…

Christine Lagarde, a diretora do FMI, também reconhece que o excesso de desigualdade é contraproducente para o crescimento sustentável ao qual os membros do G-20 aspiram (sic). O que é mesmo que aspiram os super-ricos membros do clube?

Por toda parte, vozes se levantam contra o modelo, mas nada acontece. O modelo não muda, parece intocável e indestrutível. O mundo parece ter adquirido consciência de que não se pode mais suportar esse modelo, mas, nada acontece.

A perplexidade geral é produto da falta de alternativas. Os discursos de Donald Trump e da direita europeia (e também brasileira, claro) reverberam nesse vazio. Esse é o busílis da questão.

O desafio para humanidade é mudar completamente os paradigmas. Parece que só uma revolução cultural impossível faria a transição para o novo. Os momentos de crise podem ser também o início de uma transição necessária.

Os desafios de Donald Trump

Donald Trump diz que vai “tirar o poder de Washington e dar o poder ao povo”. A verdadeira democracia… Faz-me rir! Para isso montou um time em que a única coisa que os une é o fato de serem empresários bem sucedidos. Alguns muito bem sucedidos, na lista dos bilionários, inclusive. Para observadores a equipe não tem experiência administrativa e é de uma direita fundamentalista.

Ele assume um país em crise. Escondida pela mídia, mas, crise em evolução que poderá realmente ser perigosa se não for revertida. Na verdade, a crise de 2008 que levou à quebradeira dos bancos ainda não foi solucionada. E há quem perceba as vibrações de um novo terremoto de proporções globais, como registrou em 15/01/16 a BBC, citando o financista George Soros.

E o mais grave: o parque industrial sucateado; uma gigante como a General Motors teve que ser socorrida para não quebrar. Dívida pública incontrolável superior a 60% do PIB. No Banco Central, US$ 4.5 trilhões de papel podre. O dólar sem lastro cada vez mais questionado como moeda de referência.

Desemprego em massa. 610 mil pessoas desabrigadas, mais de 60 mil só em Nova York. Proletarização da classe média e lumpenização do trabalhador. O salário médio anual, que em 1978 era de US$ 48 mil, hoje não chega a US$ 34 mil em termos de poder de compra. Cidades fantasmas com fábricas abandonadas. Milhões de trabalhadores mergulhados na miséria, vivendo com menos de dois dólares por dia. Três milhões de crianças em situação de desespero.

Donald Trump vai se dedicar a levantar a economia, dinamizar a indústria, tornar a “América forte outra vez”. Para isso, recorre a Franklin Delano Roosevelt, que governou os EUA de 1933 até sua morte em 1945, executor do New Deal, um pacto de unidade nacional que tirou o país de uma situação de crise e o elevou a grande potência. Mas aqui e lá os observadores só vêm o discurso e tipificam de populista.

O país sumido em crise moral precisava recuperar a auto estima. Há que lembrar que EUA só entrou (tardiamente em dezembro de 1941) na Segunda Guerra Mundial (1939-1945) depois de ter consolidado sua economia, ter o consenso nacional e ter posto a funcionar a todo vapor a indústria de guerra.

O que moveu essa sociedade não foi só uma exacerbação do nacionalismo. Foi também o macarthismo, a domesticação do movimento sindical, o controle da mídia e fortalecimento da comunicação estatal, a repressão brutal às dissidências.

Donald Trump, tal qual Roosevelt, sinaliza que priorizará o mercado interno e a indústria da construção e infraestrutura. Sabe que esta é a que mais movimenta a economia como um todo, pois além de ser a que ocupa maior número de mão-de-obra, afinal, para construir e ocupar uma casa movimenta-se desde a mineração até todo tipo de manufaturados. “Vamos produzir na América e consumir produtos americanos”... Com seu discurso, já conseguiu fazer com que a Ford cancelasse investimento de US$ 1,6 bilhões que faria no México,

O fato de Donald Trump se valer das ideias de Roosevelt é sinal de que sua turma está empenhada em busca de alternativas. Isso é positivo. É um grande desafio tentar fazer o sistema pensar em construir alternativas.

Guerra e diversionismo

Cuidado: há muito diversionismo na guerra que se está travando. Guerra cultural, guerra midiática, guerra psicossocial, guerra cibernética, guerra.

Quem comanda essa guerra? Resposta: a ditadura do capital financeiro.

É muito bom que as mulheres ocupem as ruas para protestar contra o machismo homofóbico de Donald Trump e seus aliados. Mas, enquanto isso ocorria, no domingo, 22/1, no oriente do Mediterrâneo, Benjamin Netanyahu ordenava a prefeitura de Jerusalém a concluir 556 casas em três bairros, verdadeiros enclaves coloniais em território palestino. Essa construção havia sido interrompida por pressão de Obama diante de reação da comunidade internacional. Segundo a France Presse, Netanyahu e Donald Trump conversaram por telefone, e segundo ambos, a conversa foi muito boa e versou sobre “o acordo sobre o tema nuclear com o Irã, o processo de paz com os palestinos e outros assuntos”.

É aí onde está o perigo.

A China e a nova ordem

Em fins do século XIX a China era o segundo maior PIB no mundo a desafiar a hegemonia do império britânico. O que fez a Inglaterra  para manter o equilíbrio em favor do Ocidente? Desestabilizou completamente a China impondo-lhe uma guerra de extermínio, a Guerra do Ópio (1839 a 1880). Já no século XX, o Ocidente se mobilizaria de novo, utilizando o Japão para invadir e desestabilizá-la. Livre dos invasores, a China protagoniza a maior revolução que a humanidade poderia conceber, se reconstrói e entra no século XX de novo como o segundo maior PIB do mundo.

Muita gente considera que a China já é a maior potência. Não tem porta-aviões, submarinos e frota aérea como dos Estados Unidos, porém, tem gente a não acabar e é a “fábrica do mundo”, domina as mais altas tecnologias, inclusive a nuclear e espacial e, com inteligência, sabedoria milenar, sedutora, se expande.

Enquanto a China se expande, o Ocidente declina perdido em suas próprias crises. Paradoxalmente, aí é que está o perigo.

A Rússia, recuperada dos traumas do desmantelamento da União Soviética e da completa desestabilização do poder, conseguida pelos países da OTAN, gradativamente se reencontra como russa, reconstrói seu poder e impõe sua voz no cenário internacional.

China e Rússia redescobrem que são economias complementares. A vastidão russa tem a energia e matérias primas que a China necessita e a China tem o mercado e o mar que a Rússia necessita. China e Índia são os países que mais crescem, em torno de 6 a 7%.

China, Rússia e Índia mudaram a geopolítica do mundo. Já não há mais um mundo unipolar com uma potência hegemônica. China, Rússia e Índia também são potências atômicas. Não é mais possível prosseguir com a estratégia do Império de cercar e sufocar a Rússia, isolar a China. Não tem cabida tratados como os transpacíficos e transatlânticos.

Entendendo a importância disso, o Brasil e logo a África do Sul integraram o BRICS. E o BRICS começou a construir uma Nova Ordem, com banco de desenvolvimento próprio, vendo como livrar-se da dependência do dólar, volátil, sem lastro. O BRICS é de fato e irreversivelmente a Nova Ordem.

Estados Unidos têm que rever toda sua doutrina, têm que se recompor para estarem em equilíbrio com essa Nova Ordem. Não será pela força. Não agora. É preciso, portanto, envidar todos os esforços para manter esse novo equilíbrio e fazer que seja promotor da paz. Paz derivada da incapacidade ou impossibilidade de que se perpetue a hegemonia.

*Paulo Cannabrava Filho é jornalista latino-americano radicado no Brasil, editor de Diálogos do Sul

[i] Leia Não será fácil para Donald Trump nem para os EUA – Paulo Cannabrava Filho – http://operamundi.uol.com.br/dialogosdosul/nao-sera-facil-para-Donald Trump-nem-para-os-eua/12112016/