“Deixar que a dor flua… são milhares de projetos de vida arrebatados, destruídos… vítimas, familiares, organizações e também autoridades anunciaram que apelarão de uma sentença plena de contradições” (Martín Almada).

Segue a crônica da jornalista Nadia Angelucci, italiana especialista em América Latina:

Nadia Angelucci*

IMG_6938_canaleUma raiva contida, uma indignação feroz, uma incredulidade dolorida, o silêncio acompanhou a leitura da sentença dada pela presidenta da Terceira Corte de Asís de Roma, Evelina Canale, é o que se viu ao término do julgamento.

Nenhum grito, muito poucas lágrimas. Uma raiva contida, uma indignação feroz, uma dolorida incredulidade marcava as feições dos muitos uruguaios presentes. Mirtha Guianze, pálida, se esforçava para falar, mas as palavras quase que não lhe saiam; em voz baixíssima disse que não compreendia sentença e que esperava que tivesse possibilidade de apelar: “Foi absolvida a maior parte de uruguaios que no Uruguai foram condenados, e são casos sobre os quais se tem muitas provas”.

“Não compreendo”,  foi o único que conseguiu dizer, poucos segundos depois da leitura da sentença. O vice-presidente uruguaio Raúl Sendic, opaco, com a cara contraída, junto com o pessoal da embaixada do Uruguai em Roma, igualmente angustiado. Não quis dar declarações nos momentos seguintes e se encerrou com o advogado da República Oriental do Uruguai, Fabio Maria Galiani, numa sala contígua, para redigir uma declaração para numerosos jornalistas italianos e estrangeiros presentes neste última dia do julgamento.

Os promotores Giancarlo Capaldo e Tiziana Cugini sairam da sala mudos, sem emitir declarações. Francesco Guzzo, advogado do ex marinheiro prófugo na Itália, Jorge Néstor Tróccoli, guardava as folhas do expediente dentro de pasta visivelmente satisfeito: “Ainda não falei com meu clientes e, claramente, estamos contentes”, disse antes de sair.

Dos  33 imputados durante o julgamento da Operação Condor em Roma, seis dos quais morreram no transcurso do processo, só oito foram condenados: os chilenos Hernán Jerónimo Ramírez Ramírez e Rafael Ahumada Valderrama; os bolivianos Luis García Meza Tejada e Luis Arce Gómez; os peruanos Francisco Morales-Bermúdez Cerruti, Pedro Richter Prada y Germán Ruiz Figueroa; e o uruguaio Juan Carlos Blanco. Os outros, a maioria uruguaios, foram absolvidos.

É preciso recordar os nomes dessas pessoas que a Justiça italiana declarou inocentes: os chilenos Pedro Octavio Espinoza Bravo, Daniel Aguirre Mora, Carlos Luco Astroza, Orlando Moreno Vásquez, Manuel Abraham Vásquez Chauan; o peruano Martín Martínez Garay e, finalmente, os uruguaios José Ricardo Arab Fernández, José Horacio Nino Gavazzo Pereira, Juan Carlos Larcebeau Aguirregaray, Pedro Antonio Mato Narbondo, Luis Alfredo Maurente Mata, Ricardo José Medina Blanco, Ernesto Avelino Ramas Pereira, José Sande Lima, Jorge Alberto Silveira Quesada, Ernesto Soca, Jorge Néstor Tróccoli Fernández, Gilberto Vázquez Bissio e Ricardo Eliseo Chávez Domínguez.

Operação Condor LatuffAurora Meloni, esposa de Daniel Banfi, assassinado em Buenos Aires em 1974, não escondia por trás de sua emoção pela condenação de Juan Carlos Blanco, condenado pela morte de seu esposo, a dor e a incredulidade pelas muitas absolvições: “A condenação de Blanco foi justa e era o que se esperava depois de 42 anos, não só por Daniel, mas porque com ele perderam a vida outras duas pessoas que sempre estarão presentes: Gullermo Jabif e Luis Latronica. Esta sentença condenatória serve muito para minhas filhas que agora têm a justiça, porque não tiveram para seu pai. Porém, sobre a absolvição das demais pessoas estou muito emocionada e prefiro não falar”.

Enquanto a sala se esvaziava e os advogados intercambiavam opiniões e faziam as contas de condenados e absolvidos, Cristina Mihura, que há 40 anos luta para descobrir o paradeiro de Bernardo Arnone, seu marido, tratava de entender o que tinha ocorrido e que “falhas” podiam explicar esse resultado: “Me sinto mal, me sinto muito mal. Lutamos tanto e eles são culpados. Nós não pudemos levar elementos suficientes para provar as especificidades e as responsabilidades diretas. É como se a Corte tivesse reconhecido a existência da Operação Condor, e condenou só os que tinham responsabilidade. Creio que temos elementos para apelar e vamos fazer. Estou muito surpreendida pela decisão da Corte”.

Seu advogado, Paolo Sodani, disse que lhe parecia incrível que não se tivesse levado em conta as muitíssimas provas que havia contra Gavazzo e Arab.

Era tão forte e visível a dor e o desalento dos uruguaios presente –a maioria familiares e amigos das vítimas  que viajaram à Roma, alguns de muito longe- que os chilenos que obtiveram justiça não conseguiram festejar.

Maria Paz Venturelli –filha de Omar, desaparecido em 1973-, que seis anos antes teve que enfrentar a absolvição de Alfonso Podlech pelo homicídio de seu país, conseguiu que fosse reconhecida a culpa de Ramírez Ramíres, um dos seis imputados pela morte de Venturelli: “Estou contente porque pelo menos um deles foi condenado. Ramírez Ramírez era o general na província de Cautín.

O que ocorreu é que se reconheceu a responsabilidade dos chefes na cadeia de mando. Os demais imputados nesse caso são uns açougueiros que estão vivos e livres e não foram condenados porque não há uma relação direta com a hierarquia. Neste caso esta é a primeira condenação. Algo é algo. Mas ainda falta muito”.

No corredor entre as salas do Tribunal apareceu o vice presidente do Uruguai, Raúl Sendic para falar à imprensa: “O Estado uruguaio esteve ao lado dos familiares e das vítimas. As violações aos direitos humanos coordenadas entre os governos repressivos foram demonstradas em diferentes tribunais e julgamentos. Com relação à sentença de hoje, é evidente que esperávamos outra coisa e que nos sentimos defraudados, mas respeitamos a separação entre poderes. Esta era uma possibilidade e sabíamos que podia acontecer. Eu não julgo o tribunal por esta sentença; sou o vice-presidente do Uruguai e tenho responsabilidades institucionais. Nos resta a tranquilidade de ter feito tudo o que tínhamos que fazer: apresentar provas e testemunhas, ter apoiado as famílias. Entendo a dor dos familiares, uma dor acumulada ao longo dos anos. Conheço a situação porque a vivi, portanto, entendo a indignação”.

Em meio a sua declaração Sendic foi interrompido por Maria Victoria Moyano, filha de María Asunción Artigas e Freddy Moyano, que questionou a política de direitos humanos do Estado uruguaio e desatou toda sua raiva e decepção: “Tenho todo o direito de questionar o governo do Uruguai. Estamos aqui porque no Uruguai os julgamentos não existem. Me declararam cidadã ilustre por ser filha de desaparecidos e o mais perverso é que no Uruguai não posso iniciar um processo contra os assassinos de meus pais porque há a lei de impunidade. É uma vergonha”.

Os advogados recuperaram suas togas, arrumaram suas valises e começaram a sair, quase todos com as mesmas explicações diante de uma sentença desse tipo: “Não foi provada a responsabilidade com relação a fatos específicos, enquanto que sim foram condenadas as posições apicais, porque se reconheceu a existência da Operação Condor”, disse Alessia Liistro, que teve os processos de Stamponi (Argentina) e Gómez Rosano (Uruguai), enquanto que Arturo Salerni, que representava os casos de Recagno, Bellizzi, Río Casas, Moyano (Uruguai(, Montiglio e AFDD (Chile), Stamponi, Campiglia (Argentina) e Asofamd (Bolívia), expressou sua surpresa pela ausência de condenação contra Tróccoli: “Nesse caso havia muitas provas e, ademais, uma auto reivindicação dos fatos. Espero que os advogados decidam apelar e nós vamos acompanhar”.

O advogado Galiani, que representou a República Oriental do Uruguai e a parte civil Soledad Dossetti, mostrou, ao sair do Tribunal, toda sua indignação com uma sentença que considerou injusta: “Nestes nove anos fizemos de tudo para contribuir neste processo, e nosso contribuição foi decisiva. A do Estado uruguaio não foi uma participação formal; levamos provas e fatos. A sentença é fruto de uma gestão do julgamento que não foi eficaz. Várias vezes a presidenta da Corte disse e convidou os promotores a retomar o fio do processo e a levar provas. Em toda minha experiência nunca vi na Itália uma absolvição diante de um compêndio comprobatório como este. Com o vice presidente acordamos tomar um pouco mais de tempo para reflexão e não tomar decisões temerárias”.

Interrogado pela imprensa sobre a polêmica que surgiu durante o julgamento com a ex promotora uruguaia Guianze, Galiani disse que não falou com ela. Relatou que mesmo não tendo ainda falado com ela, acredita que apelarão contra Tróccoli.

Quando já quase todos tinham saído, Moyano, seu tio Dardo e outros poucos continuavam em frente ao Tribunal, entre o estacionamento e a avenida. Já a noite tinha caído sobre Roma e ela fixou seus olhos negros nos presentes e contou sua verdade e sua luta: “Me parece que a sentença não mostra a realidade. Ninguém pode dizer que isto não existiu. Eu nasci num centro clandestino, e dizer que Tróccoli não é responsável porque não ele diretamente quem apertou o gatilho é absurdo. Saio completamente indignada por fortalecerem a esse personagem. Uruguai tem um problema importante pela vigência das leis de impunidade. Isto não termina aqui, vamos seguir adiante enquanto nossos pais não tenham justiça e nossos irmãos não recuperem sua identidade. A indignação não se converte em derrota. Saio mais fortalecida”.

*De Roma, Itália – crônica disponível em aqui