Esta é uma historinha do tempo. Uma entre bilhões. No fundo todas as histórias, reais ou fictícias, falam dele. Fiel guardião do nascimento até a nossa morte, amém. O tempo é a grande pergunta e a melhor resposta.

Fernanda Pompeu*

Infância

timeaboutjpgQuando menino, o tempo acreditava que só existia o presente infinito. Os minutos se alargavam jubilosos em descobertas. O picolé Kibon, chupado às duas da tarde, tinha a duração emocional do beijo de boa noite dado por sua mãe, a eternidade. Passear por uma rua desconhecida da vizinhança se igualava a um novo país, aprendido na escola. Também as coisas ruins pareciam intermináveis. Uma humilhação sofrida doía com a intensidade de um prego enfiado na sola do pé. Por não conhecer o passado, o futuro era imagem imprecisa e difusa. A vida não tinha sido e nem seria. Simplesmente era. Aos domingos, o tempo filhote pulava da cama cedinho. Farejava a aventura que apenas começava.

Juventude

De tanto ouvir você tem a vida pela frente, o jovem tempo supôs que o futuro era o por vir. Ele e sua turma de rapazes e moças, vigorosos e brilhantes, não tinham paciência em anotar recados e muito menos em dar ouvidos ao realismo dos mais velhos. Donos do futuro, punham fé de que com eles tudo se daria de forma diferente (e muito melhor) do que havia se dado com as juventudes anteriores. Para o tempo jovem, o presente se projetava no futuro. Aos domingos, depois da madrugada de balada, ele acordava ao meio-dia. Virava para o lado e voltava a sonhar.

Maturidade

Nessa fase de vida, o tempo tinha como propósito produzir para acumular. Se desdobrava para alimentar, vestir e educar os tempinhos descendentes. Se preocupava com a saúde dos tampões ascendentes. Por conta dessa urgência, transformava poesia em relatórios. O tempo adulto era estratégico e pragmático. Contas e confortos a pagar. O passado ainda estava trancado no desconcertante arquivo da memória. O futuro dependia do que ele realizasse no presente. Ele se parecia cada vez mais com seu pai, Saturno. Também foi ficando careca e um tanto cínico. Aos domingos, dava-se ao luxo de acordar mais tarde. Mas não parava de pensar na iminência da segunda-feira.

Velhice

Ela não chegou de repente. Foi se instalando, vida adentro, com indiscrição e inabalável firmeza. Aos pouquinhos e a contragosto, o tempo percebeu que envelhecia. Quando se sentiu senhor de toda sua vida, teve certeza. O passado rompeu o cadeado e soltou-se. Lembrou-se menino, jovem e adulto. O presente tornou-se mais curto, a ponto dele exclamar, todos os anos, mas já estamos em novembro! Quem tomou chá de sumiço foi o futuro. Ou então ficou tão magrinho que teve de se apoiar nos ombros do presente. Aos domingos, o velho tempo acorda sem nenhuma pressa. Ele sabe que é possível lutar contra tudo. Exceto contra ele mesmo. Então sorri com olhinhos de criança.

Brinde: Vídeo Oração ao Tempo

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*Colaboradora de Diálogos do Sul