Niko Schvarz*

Disolvieron-las-cámaras-en-UruguayNestes dias, em torno do sábado 27 de junho, recorda-se de várias maneiras o 42 aniversário do golpe de Estado num dia como este em 1973, quando as tropas comandadas pelo general Gregório “Goyo” Álvarez, hoje preso, irromperam no Palácio Legislativo, onde o Senado celebrava uma sessão que ficou para sempre na história nacional.

Por um lado, realizou-se um ato na sedo do IMPO onde se recordou o regresso ao país de Wilson Ferreira Aldunate, na última etapa do período ditatorial e sua prisão, depois de uma luta travada de mais de uma década contra a ditadura, na cabeça de seu setor político. Por outro lado, recordou-se essa última sessão do Senado, a intervenção do senador Enrique Rodríguez, realizada no mesmo momento em que se decretava a greve geral da classe operária, pela central PIT-CNT, que desde sua origem  cavou uma profunda foça entre a ditadura e todo o povo. Em terceiro lugar, organizações defensoras dos Direitos Humanos e dos familiares dos presos desaparecidos reiteraram com vigor nesta circunstância a esperança de que não se interrompa a luta pela descoberta das vítimas da ditadura e o castigo exemplar a todos os culpados, sem exceções. No lado oposto, não se detiveram os esforços, principalmente por parte do ex duplo presidente Julio Maria Sanguinetti, de apagar esses acontecimento da memória coletiva e reescrever a história, tanto do sistema ditatorial como de seu antecedente e progenitor, o regime de Pacheco Areco, que Sanguinetti elogia, entre outras coisas, para ocultar a responsabilidade que lhe toca nisso tudo, e logo pelo próprio regime ditatorial, como integrante dos respectivos gabinetes ministeriais.

Eu vivi estes fatos diretamente e me ficaram gravados na memória. Na noite de 26 de junho de 1973 eu estava no escritório do senador Enrique Rodríguez, ao lado do ambulatório do Senado, e chegou o senador batista Luis Hierro Gambardella, uma personalidade democrática cabal, que nos anunciou que já estava pronto o decreto de dissolução do Parlamento. Não lhe podíamos acreditar (eu pelo menos). Reiterou que tinha visto a cópia do decreto, com a firma de Juan María Bordaberry, o presidente constitucional, porém eleito em eleições fraudulentas roubadas de Wilson Ferreira Aldunate. Em meio a tudo isso prosseguia a sessão do Senado, presidida pelo senador Eduardo “Lalo” Paz Aguirre, porque o vice presidente Jorge Sapelli estava em outras atividades, foram do Palácio Legislativo, tratando de salvar a legalidade constitucional. Sucederam-se várias intervenções memoráveis, entre elas as de Enrique Rodríguez e de Francisco Rodríguez Camusso, do próprio Hierro Gambardella e de Amílcar Vasconcellos, de Wilson Ferreira Aldunate e Pedro Zabalza, entre outros. Depois de fazer uso da palavra, os senadores iam saindo para colocar-se em segurança. Paz Aguirre deixava que a sessão prosseguisse apesar de já não ter o número regimental, posto que os senadores partidários dos golpistas, tanto colorados como blancos, não ingressaram em plenário para não dar quorum. Não tardou muito em comprovar-se a veracidade do anunciado por Hierro Gambardella. Entraram no Palácio as tropas comandadas por “Goyo” e ocuparam o recinto já vazou. O golpe estava consumado. Por outro lado, a greve geral da classe operária tinha começado com a ocupação das fábricas e oficinas e logo se somou a greve geral estudantil decretada pela Federação de Estudantes Universitários do Uruguai (FEUU), com a ocupação de todas as faculdades e de alguns colégios.

Todos esses fatos foram vividos intensamente na primeira linha no diário El Popular. Assim foi lembrado nas páginas do atual semanário, em edições especiais dedicadas ao aniversário do golpe de Estado. Nosso diário estava em primeiro lugar na lista dos muitos órgãos de imprensa  dos setores de oposição que tinham sido fechados várias vezes durante o regime de Pacheco Areco, el pachecato. No El Popular de 22 de junho publicaram uma relação bem ilustrativa. Nosso local, na época na rua 18 de julho com Rio Branco (hoje Wilson Ferreira Aldunate), esteve no epicentro da grandiosa manifestação popular de 9 de julho, em meio à greve geral e e repúdio ao golpe de estado, que derivou na prisão do general Líber Seregni e de vários milhares de democratas. Todo o pessoal do jornal, depois de um simulacro de fuzilamento, foi levado para o comando da polícia e logo ao Cilindro Municipal, convertido em prisão coletiva. Depois de libertados continuamos a fazer um jornal oral, visitando as fábricas e outros locais de trabalho ocupados, testemunhando a maravilhosa solidariedade da população para com os trabalhadores em greve, a ajuda para preparar as cozinhas coletivas para alimentar os grevistas e outras demonstrações de apoio quando eram desalojados pelas forças militares, e depois, em seguida, voltavam a ocupar seus lugares de trabalho. Pouco depois me tocou ir a Santiago de Chile e ser testemunho do 11 de setembro, do bombardeio ao Palácio La Moneda e do posterior assassinato do presidente Salvador Allende. Depois sobreveio o fechamento definitivo do jornal bem como de outros veículos da oposição e a clausura da central operária PIT.CNT, que passou a atuar na clandestinidade e com seus representantes no exílio, o mesmo que ocorreu com os setores políticos opositores, que criaram seus instrumentos de ação unificada, em particular a Convergência Democrática Uruguaia.

O regresso de Wilson Ferreira

Em ato realizado dia 25 de junho, no IMPO, em frente a Prefeitura, com a presença de Juan Raúl Ferreira e outros, recordou-se a comoção provocada no país pelo regresso de Wilson Ferreira Aldunate do exílio, em novembro de 1984. Foi um grande ato d unidades nacional contra a ditadura, com participação dos setores políticos de oposição, particularmente da Frente Ampla, junto com o setor wilsonista do Partido Nacional. Na tela estava a imagem de Wilson com os dois braços erguidos e os dedos em V da vitória, no momento em que era conduzido pelos militares para a prisão no interior do país. Juan Raúl Ferreira lembrou com detalhes esses acontecimentos, seguidos da participação destacada de Wilson e seus seguidores no movimento unitário da Convergência Democrática no exílio, no qual deixou sua marca em muitos países do mundo, em uma campanha de solidariedade incomparável. Com resultados muito concretos e que impactaram diretamente na situação do país, colocando em cheque à ditadura. A campanha se desencadeou nos Estados Unidos tendo chegado a ter intervenções no Congresso, a muitos países da América Latina e também da Europa, com ativa participação coadjuvante dos representantes da CNT no exterior, sob a direção do dirigente portuário Félix Díaz.

Além disso, Raúl Ferreira acaba de publicar um artigo com dados muito precisos sobre as atividades desenvolvidas por seu país, em contato com Héctor Gutiérrez Ruiz (o presidente da Câmara de Deputados assassinado em Buenos Aires junto com Zelmar Michelini) nos dias anteriores ao golpe, quando a ameaça nublava o horizonte imediato. Alí se revelam dados pouco divulgados sobre essas atividades realizadas no fim de semana de 24 e 25 de junho de 1973, em particular no departamento de Maldonado, as quais constituíram atos de massa de considerável magnitude, alertando à cidadania sobre o golpe de Estado iminente e enfrentando as manobras dos grupos de choque fascistas da Juventude Uruguaia de Pé (JUP). Tais atividades culminaram com a chagada de Wilson Ferreira ao Parlamento na noite de 26 de junho e sua participação relevante no debate do Senado. Também inclui as ações empreendidas junto a Gutiérrez Ruiz e as tentativas de salvaguardar a integridade do senador Enrique Erro, sobre quem se concentravam as manobras dos golpistas. Menciona em particular a frase final do discurso de Wilson: “Os setores senadores me permitirão que, apesar de que a hora exige empreender a restauração democrática republicana como uma tarefa nacional, faça uma invocação que resulta iniludível à emoção mais intensa que dentro de nossa alma e me permitirão que antes de me retirar deste Plenário, lance aos autores deste atentado o nome de seu mais radical e irreconciliável inimigo que será, não tenham dúvida, o vingador da República. Viva o Partido Nacional!”.

Enrique Rodriguez: Confiança na classe operária e a greve geral

Nessa sessão fez uso da palavra o senador Enrique Rodríguez, em nome da Frente Esquerda de Libertação ( Fidel, lista 1001) e o Partido Comunista, no momento em que a direção da central operária PIT CNT, com José Pepe D’Elía no comando, reunia-se na madrugada no local da Federação operária do Vidro, na rua Laureles, em La Teja, e resolvia entrar na greve geral, com ocupação de fábricas e serviços. Enrique Rodríguez denunciou o caráter de classe do golpe, destacou a resistência operária e popular e o papel que desempenharia os trabalhadores na defesa da democracia e da liberdade. O discurso foi publicado colocando como título sua frase final: “A classe operária não falhará!”.

O orador disse que estava ocorrendo “um crime contra a democracia, contra os direitos humanos e contra o modo de vida nacional”. Fustigou a “esse senhor que não se sabe se é blanco ou colorado ou rabanete, o senhor Bordaberry, delfim colocado por Pacheco Areco, o primeiro violador da Constituição da República no últimos cinco anos”, e disse que definitivamente se estava gestando “um duro golpe contra as instituições, um golpe de Estado contra a democracia em nosso país”. Fez uma defesa ardorosa das liberdades democráticas estampadas nessa Constituição. Temos defendido a liberdade do Parlamento e seu direito de opinar. Temos defendido o direito das minorias a interpelar, temos defendido a liberdade sindical, o direito de greve e todos os que estão amparados pela Constituição, que uma e mil vezes tem sido violados (…) Além disso, não fizemos isso só com discursos no Parlamento. As ruas deste país estão regadas com sangue de operários, de estudantes, de companheiros de nosso Partido, de homens dos partidos de esquerda, bem como de homens dos partidos tradicionais, que perderam grandes figuras, e homens anônimos na luta pela defesa das liberdades”, citando entre eles as figuras de Baltasar Brum, de Julio César Grauert e de líderes proeminentes do Partido Nacional. Elogiou a conduta da classe operária “uma classe trabalhadora consciente, unida, digna, que tem apoiado todas as causas justas, tanto no terreno internacional, desde a República Espanhola até a guerra de Vietname, como no terreno nacional nas lutas pelas liberdades autênticas e contra todo tipo de ditaduras”. Disse também que “nesse momento podemos e devemos nos unir todos neste problema fundamental. Quando outros tremerem, quando outros duvidarem, quando outros se entreverem nas alternativas tão azaradas que nos tocará viver no futuro, ninguém tenha dúvidas de que onde estiver a classe operária, onde estiverem os representantes das classes revolucionárias que se uniram para salvar o país definitivamente das garras do imperialismo e do latifúndio, essas forças não faltarão e sempre estarão ocupando seu lugar”.

A frase final do discurso de Enrique Rodríguez foi lembrada em várias circunstâncias: “Depois dessa jornada dramática, na rua, na dura luta, nos confrontos, no sangue que seguramente derramarão os que levaram o país a esta encruzilhada, além de tudo isto, surgirá um povo que não nasceu para ser escrevo e no centro desse povo – que ninguém duvide – estarão as forças que compõem o núcleo político por nos representados e dentro dele estará, digo com orgulho, com a bandeira em alto na sua mais alta galhardia, a classe trabalhadora do Uruguai, que nunca falhou às causas populares e que não falhará agora”.

Verdade, justiça e nunca mais

A esta altura, registre-se que o saldo de quase 12 anos de ditadura se expressa em mais de 200 assassinatos políticos, mais de 200 desaparecidos, dezenas de milhares de compatriotas obrigados ao exílio, além da perseguição a vários partidos políticos e seus dirigentes, a clausura  temporária e definitiva de vários meios de comunicação, a ilegalizado da central única de trabalhadores e da federação de Estudantes Universitários. E de recordar-se também, em contrapartida, as grandes jornadas de resistência e de defesa da democracia protagonizado pelo povo uruguaio e sua classe trabalhadora. Em particular o plebiscito de 1980, em que a maioria da cidadania rechaçou a tentativa da ditadura de se perpetuar no poder através de uma reforma constitucional. Outro tanto cabe dizer das eleições internas nos partidos políticos realizadas em 1982, em que os setores democráticos e anti ditatoriais dos partidos tradicionais alcançaram um amplo apoio e também se registrou uma significativa votação em branco, que de fato implicou em apoio ao Frente Amplo que, estando proscrito, não podia participar com seus candidatos.

Estes fatos foram lembrados recentemente pelos movimentos de defesa dos direitos humanos e os que agrupam os familiares de presos e desaparecidos, como Crysol, que apelam a que não se detenha a luta pela verdade e justiça, para não encerrar a busca dos desaparecidos e na condenação aos responsáveis. Nos últimos dias o governo de Tabaré Vázquez implementou novas medidas para que dêem seguimento as investigações nesse sentido. Também se renovou, por outro lado, as tentativas de lavar a cara da ditadura fascista e ao regime repressivo de Pacheco Areco, uma vez mais pelo ex presidente Julio María Sanguinetti, que foi ministro em ambos os governos e pretende agora ocultar sua própria responsabilidade nesses atentados contra a democracia.

*Colaborador de Diálogos do Sul, de Montevidéu, Uruuai