As classes dirigentes vão novamente mobilizar as massas a se unirem contra um mal maior para, assim, controlar a indignação popular. Como o desejo de “pureza” que tocou a população alemã nos pródomos da Segunda Guerra Mundial, estamos mais uma vez submersos em uma situação que nos impele (de forma manipulada) a negar a liberdade em prol da segurança.

Por Raphael Silva Fagundes, no Le Monde Diplomatique

“A maioria dos especialistas deu pouca atenção para os efeitos homogeneizantes da guerra”,[1] escreve a bióloga Barbara Ehrenreich, em sua obra que pretende encontrar as origens da guerra. Não há um instinto agressivo que legitime a guerra, segundo a autora, mas uma questão cultural, especificamente masculina, que se desenvolveu ao longo da história.

A guerra acontece quando a política não deu mais certo? Talvez. Mas se a guerra for uma estratégia da própria política? Discordaríamos de Hannah Arendt, mas chegaríamos muito mais próximo da realidade brasileira.

Primeiro, temos que observar a importância da unidade para a política de qualquer nação. O ideal de unidade deve ser entendido como uma mitologia política agenciada por determinados grupos que buscam impor sua dominação. Desse modo, a concebemos como uma estratégia política de construção de um “mito” que desempenha um “papel de mobilização”, conforme os apontamentos de Raoul Girardet:

“O mito político é fabulação, deformação ou interpretação objetivamente recusável do real. Mas, narrativa legendária, é verdade que ele exerce também uma função explicativa, fornecendo certo número de chaves para a compreensão do presente, constituindo uma criptografia através da qual pode parecer ordenar-se o caos desconcertante dos fatos e dos acontecimentos”.[2]

Girardet assinala que um dos principais fenômenos que marca a história política ideológica é a oposição entre a autonomia individual com o sonho de uma sociedade homogênea. “Na unidade está a vida, fora da unidade a morte é certa”, declamava Jacques Bossuet, bispo e teólogo conhecido por ser um grande teórico do absolutismo francês. Aproximadamente duzentos anos depois, o político e historiador Michelet, um grande agente no combate ao comunismo e ao anarquismo, afirmava: “Sem unidade perecemos”.[3] O interesse de que o geral prevalecesse sobre o particular era o principal aspecto da política entre os séculos XVII e o XIX. Entretanto, os componentes retóricos para a divulgação e consolidação desse ideal sofreram alterações importantes.

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A questão divina e civilizacional da unidade permaneceu como topos no discurso político. Na França, Raoul Girardet salienta que os ideólogos se aproveitaram dos “termos do velho vocabulário cristão, dos símbolos da antiga liturgia, das palavras dogma, santidade, redenção, relíquia ou sacrifício”.[4] Michelet, por exemplo, apreende o sagrado no nacional: “santa unidade fraternal da nação”, dizia.

É evidente que a ideia de se privilegiar o geral em detrimento do individual se espatifou com a pós-modernidade, assim como a sacralidade da identidade nacional, no entanto, ainda há uma questão que mobiliza as pessoas em prol da unidade: o sentimento de insegurança.

Dessa maneira, defendemos a hipótese de que a intervenção federal no Rio de Janeiro, carregando a bandeira da guerra contra o tráfico e a criminalidade em geral, funciona como uma estratégia para unir a população que visivelmente vem se fragmentando desde o golpe. 83% das pessoas apoiam a intervenção civil-militar. O governo encontrou uma forma de integrar a população de modo a desviar a indignação popular que se agigantava em relação ao “pacote de maldades” adotado pelo governo.

Outro elemento irá reforçar essa unidade: a luta contra a Venezuela. Uma estratégia, por seu turno, muito mais tradicional. Em relação, especificamente, à história do Brasil, foi a Guerra do Paraguai que mobilizou voluntários de várias partes do Império, forjando, definitivamente, o sentimento nacional.[5] Foi a primeira vez que as diversas regiões do país se encontraram, ou melhor, fundiram-se.

Hoje, como naqueles sangrentos anos, a mídia faz o seu papel. Os veículos de comunicação nacionais, ligados às grandes corporações midiáticas internacionais, chamam os venezuelanos que migram para o Brasil de “refugiados”. Além disso, a similaridade com a Guerra do Paraguai não é apenas para uma questão explicativa. Argentina, Colômbia e Brasil têm tudo para adotarem o perfil de uma nova Tríplice Aliança, agora em prol do neoliberalismo, para combater o governo de Maduro. As veias da América Latina continuam abertas e expostas às sanguessugas famintas pelas riquezas da região.

As classes dirigentes vão novamente mobilizar as massas a se unirem contra um mal maior para, assim, controlar a indignação popular. Como o desejo de “pureza” que tocou a população alemã nos pródomos da Segunda Guerra Mundial, estamos mais uma vez submersos em uma situação que nos impele (de forma manipulada) a negar a liberdade em prol da segurança.

A situação se altera drasticamente, todavia, quando organização significa o desmantelamento da ordem existente e sua substituição por um novo modelo de pureza. Agora, manter a pureza não pode reduzir-se à manutenção da rotina diária; pior ainda, a própria rotina tem a terrível tendência a se converter em “sujeira”, que precisa ser esmagada em nome da nova pureza.[6]

Ou seja, muitos já condenam a liberdade, alguns até acreditam que existe liberdade demais, e que já está virando bagunça. Uma parte da sujeira interna é a corrupção, que muitos, principalmente os defensores do juiz Sérgio Moro, acreditam que está sendo combatida. A outra parte da sujeira é a criminalidade, vista como causa de tudo, jamais como consequência. A sujeira externa, por sua vez, é a Venezuela que, por adotar um projeto anti-imperialista, vem sendo depreciada pela mídia. A situação está perfeita para o governo conseguir respirar ao longo do ano de 2018 e quem sabe prolongar sua política entreguista por mais quatro anos.

Cabe lembrar que tudo isso é acompanhado de uma retórica inebriante. “A retórica é a negociação da distância entre os homens a propósito de uma questão, de um problema”.[7] O filósofo Michel Meyer destaca que “tudo o que opõe ou reúne os homens, ainda que apenas por um momento, participa desta distância que é o objeto último da retórica”.[8] A retórica negocia a distância e promove a unidade. É função da retórica unir pessoas, por isso a mídia e o governo não deixariam de investir nas fascinantes estratégias persuasivas paralelamente ao ataque a democracia.

(*) é doutorando do Programa de Pós-Graduação em História Política da Uerj e professor da rede municipal do Rio de Janeiro e de Itaguaí.

[1] EHRENREICH, Barbara. Ritos de sangue: um estudo sobre as origens da guerra. Rio de Janeiro: Record, 2000, p.141.

[2] GIRARDET, Raoul. Mitos e mitologias políticas. Trad: Maria Lpucia Machado. São Paulo: Cia das Letras, 1997, p.13.

[3] Ibidem. p.144.

[4] GIRARDET, 1997, p.165.

[5] IZECKSOHN, Vitor. A Guerra do Paraguai. In: KEILA, Grinberg, SALLES, Ricardo (org.). O Brasil imperial. 1831-1870. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2009, p.53-119. v.2.

[6] BAUMAN, Zygmunt. O mal-estar da pós-modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998, p.20.

[7] MEYER, Michel. Questões de retórica: linguagem, razão e seduçãoTrad: António Hall. Lisboa: Edições 70, 2007, p.27.

[8] Ibidem, p.31.