O significado de martírio é definido pelo dicionário de La Real Academia Española como morte, tormento, dor, sofrimento físico ou moral de alta intensidade, trabalho longo e penoso. O filme de Vincent Carelli nos mostra precisamente tudo isso materializado na aldeia Guarani Kaiowá, do modo que se encontram há décadas, para não dizer séculos, em pé de guerra para defender seu território devassado, sob a destruição sistemática de sua cultura nas mãos da República do Brasil, que, em nome da democracia e da lei, não tem problema algum em implementar ações invasivas e genocidas contra esse povo e tantos outros.

Marcelo Cordero*

Vincent Carelli
Vincent Carelli

Vincent em 1980 inicia a gravação em vídeo do movimento de resistência dos indígenas Guarani Kaiowá, seguindo-se por 10 anos. Retorna a gravar 20 anos mais tarde, face aos sucessivos massacres que estão ocorrendo contra este povo. Martírio é um documentário épico de grandes proporções, onde Carelli aborda minuciosamente aspectos sociológicos, culturais, políticos, antropológicos, étnicos e até mesmo policiais, entre outros, para tentar entender a origem da violência, denunciar, refletir e talvez guardar na memória colectiva um episódio dos mais vergonhosos da história, para evitar que se repita. Este filme é uma viagem onde a realidade é mais estranha do que qualquer ficção.

O diretor do filme responde algumas questões em ocasião da sua participação no VII Festival Internacional Pachamama, Cinema de Fronteira.

Martírio começa a nascer nos anos 80 e pelo o que você diz não sabia que com o tempo isso iria virar um filme. Você faz um extenso acompanhamento do movimento indígena, em que momento você percebe que tem um filme? O que te leva a fazer este filme?

Vincent Carelli: Estas filmagens aconteceram em dois momentos: 1988 a 1995, filmei pensando num filme para entender como se dá a luta pela terra, com um pensamento religioso em que a terra não pode ser apropriada, tem deus como dono e os Guarani como guardiões. Mas na época eu não tinha nem dinheiro nem bons tradutores para trabalhar. E ao mesmo tempo fizemos o contato com os isolados de Corumbiara e eu mergulhei naquele outro mundo.

Vincent Carelli e o martírio dos Guarani Kaiowá1No momento em que anunciam o assassinato do Nísio Gomes,  liderança do acampamento de retomada Guawiry, e o subsequente desaparecimento do seu corpo, em novembro de 2011, foi quando me decidi retomar esta história. Tornou-se insuportável para mim ficar alheio a esta tragédia, era preciso retomar contato com os Guarani Kaiowa e assumir a responsabilidade de fazer este filme, que o Jean Claude Bernadet chamou de cinema de urgência. Foi um desafio político, mas também afetivo para mim.

Você tem horas de material filmado e ainda muitas imagens de arquivo. Como consegue sistematizar tudo para chegar ao resultado de Martírio, considerando que não é uma obra dispersa nem se perde em sua densidade. Você consegue agrupar tudo de uma forma lúcida e unitária, complementar?

Vincent Carelli: A questão essencial e urgente era desconstruir o discurso ruralista dos índios invasores, do Paraguai, usurpando o direito de propriedade, o obstáculo ao progresso, e a conspiração internacional contra a produção agrícola nacional, numa aliança da Funai com o CIMI (Conselho Indigenista Missionário) e ONGs estrangeiras. Este foi o foco da construção da narrativa.

Voltei para trabalhar com as aldeias que eu já tinha documentado no passado para construir uma profundidade de tempo com certos personagens e iniciar uma pesquisa histórica, para que eu mesmo pudesse entender a origem deste processo de exclusão e expropriação.  E descobri que, se tratava de um caso raro no Brasil, amplamente documentado em documentos oficiais. Neste sentido uma narrativa que contemplasse também uma reconstituição deste processo histórico seria fundamental para esclarecer a legitimidade da reparação exigida pelos índios.

Martírio ilustra também uma das questões chaves da condição indígena neste momento do país, e põe em cena os dois pólos do conflito: os índios e a atual classe política brasileira, mais precisamente aquela que representa os ruralistas.

O filme é um documentário épico não apenas por sua duração mas pela diversidade dos temas que aborda. Martírio é um e muitos filmes de uma vez só, além de ser um documento crítico e reflexivo, quase um texto acadêmico. Você propôs isso desde o início ou foi algo que foi criando forma durante o processo?

Vincent Carelli: Fazer documentário é sempre para mim um processo de descoberta e aprendizagem em campo, filmando. Nada de pré produção, pré entrevista, nem pré roteiro. Uma questão para entender e esclarecer. Na linha do cinema direto, é fundamental o primeiro momento, o espontâneo, a primeira resposta, o imprevisto. Entendido  o processo atual, parti para uma pesquisa histórica para descobrir que os Guarani Kaiowa foram vítimas de um processo contínuo de negação de direitos por parte do estado brasileiros, do império à República.

Vincent Carelli e o martírio dos Guarani Kaiowá2Para filmar o inimigo e construir o contraponto deste conflito, descobri materiais fundamentais nas filmagens do Congresso Nacional, que é o palco das decisões que afetam diretamente os índios, o lobby político dos ruralistas, além da operação de guerrilha que foi filmar o Leilão da Resistência, uma autêntica conspiração anti indígena. Alí, como eles estavam “em família”, eles realmente soltaram o verbo, se expondo abertamente.

Era preciso portanto dar conta de muita coisa. Com mais de quarenta anos de indigenismo, passei a vida observando e refletindo sobre as questões da relação neocolonial do estado brasileiro com as populações indígenas. A alegada “proteção dos índios” é na verdade um mecanismo de controle e dominação dos índios. A construção do texto se dá na mesa de montagem, foi assim também com Corumbiara. Cada trecho é escrito e re-escrito  no momento da articulação das sequências. O final foi re-escrito muitas vezes, porque enquanto a gente finalizava o filme o Brasil passou por rápidas e profundas transformações, inclusive a tomada de poder pelos mais ferrenhos inimigos dos índios.

Quantas pessoas participaram da gestação de Martírio? O dinamismo do filme da a impressão que são muitas apesar de constantemente da a entender que o filme foi uma campanha de guerrilha. Conte-nos um pouco sobre isso.

Vincent Carelli: Existe na região, um conjunto de pessoas que acompanham de perto a luta dos Guarani Kaiowa. O  Ministério Público Federal de Dourados, nas pessoas do procurador Marco Antonio …. e Homero …, antropólogo do MPF, que têm uma atuação fundamental na região. Os antropólogos Levi Marques Perreira e Neymar Machado…., professores da FAIND, a faculdade indígena da Universidade Federal da Grande Dourados – UFGD, também foi fundamental. A pesquisa histórica foi baseada nos relatórios dos antropólogos que escreveram os laudos de demarcação na região, alguns deles Fábio Mura, Alexandra . Todos eles nos ajudaram a entender o estado atual das coisas além de nos dar apoio logístico e solidário numa região extremamente tensa.

Os índios tiveram alguma participação no processo de produção e criação, fora o óbvio? Se sim, como foi? Você o considera um filme de autor ou coletivo?

Vincent Carelli: Este filme é sem dúvida um filme de autor. Duas pessoas foram fundamentais para a sua realização: Ernesto de Carvalho, na câmera e nas discussões para a condução e o foco das filmagens, e Tita (Tatiana Almeida) na montagem desta intrincada narrativa de várias camadas, e por isso eles assinam a co-direção do filme. As pessoas chaves no processo de filmagens  foram Celso e Myriam , personagens do filmes, que me levaram ao MS em 1988 e com os quais trabalhei muitos anos. Voltar para a região com eles, que trabalharam 30 anos com os Guarani Kaiowa, era ter  mais do as portas abertas, mas compartilhar das relações de profunda confiança que eles haviam construído com os índios. Outras pessoas chave neste processo foram Tonico e Oriel Benites, ao acompanhar seu trabalho de apoio e interface com as áreas de retomadas. Com as câmeras que fornecemos aos índios, Oriel Benites filmou a sequência do embate com o delegado da polícia Federal em Yvt Katu e Márcio Solano Lopes filmou o tiroteio sobre Pyelito Kue, duas sequência importantes do documentário.

No filme, você faz um reflexão radical. Ainda que não diga literalmente, dá a entender constantemente que o Brasil é um país fundado sobre morte e dor. Que é uma ficção que existe no imaginário do vencedor, que no caso é o colonizador ocidental que não deixou de lado suas práticas coloniais. Estou equivocado ou é assim que pensa a respeito disso?

Vincent Carelli e o martírio dos Guarani Kaiowá3Vincent Carelli: Perfeitamente, o pistoleiro que atira nos índios repete o mesmo gesto dos Bandeirantes caçadores de escravos do passado. É de um cinismo sem par ouvir da boca de um magistrado da Corte Suprema do País, como o Gilmar Mendes, diante de reivindicações territoriais dos índios: “Então vamos ter que devolver Copacabana aos índios, voltar aos 1500. A minha resposta ao ministro é de que ele não precisa se preocupar com isso, pois os povos que sucumbiram ao holocausto brasileiro, já não estão mais aí para pedir a devolução de Copacabana. Mas aqueles que sobreviveram reclamam o que é de direito.

O documentário é uma aventura macabra, onde o perigo não está apenas nos registros mas também nos riscos que você e sua equipe correm. Você teve algum tipo de ameaça real contra sua vida? Se sim, o que significa fazer um filme nestas condições?

Dá para ter coragem porque estamos diante de covardes. Duvido que eles tivessem a coragem de atacar uma comunidade com o nosso carro estacionado na frente, deixando claro a presença de pessoas de fora. Eles atacam quando os índios estão sós, para que não haja testemunhas nem registros. Foi muito importante e estratégico para a nossa segurança correr no anonimato.

Qual a importância de um filme como Martírio em um mundo num contexto onde aparentemente as cartas do jogo estão sobre a mesa, onde está definido quem são os vencedores e quem são os perdedores da História?

Vincent Carelli: Os “ganhadores” da história são os ganhadores de uma causa perdida, rumo ao abismo. O  desastre ambiental sem precedentes e a crise civilizatória rumo à barbárie que estamos vivendo exige de nos que repensemos tudo, e os povos nativos do planeta são a referência e o contraponto necessário para esta reflexão. A desumanidade do genocídio Guarani Kaiowá revela a barbárie para a qual o capital nos conduz, e Martírio ajuda a juventude a entender isso. Hoje as novas gerações estão assumindo cada vez mais cedo um protagonismo político importante, vide as mil escolas ocupadas pelos secundaristas. O movimento de insurgência das novas gerações é planetária, temos que colocar novas cartas na mesa.

Em Martírio uma coisa que me chamou a atenção é que você se define como indigenista, conceito que para o indianismo – ao menos andino – é a continuação do paternalismo e da leitura do opressor. Em sua posição de homem branco, europeu, de educação cristã e positivista, como interpreta este conceito? Como você o entende o vive?

Vincent Carelli: Você toda razão, em toda a América Latina , este termo se refere ao indigenismo de estado, um paternalismo politicamente desmobilizador, um sistema de controle e opressão dos povos indígenas. Durante a ditadura trabalhei na FUNAI, mas mesmo nesta posição o trabalho era desconstruir a autoridade do órgão oficial, apoiando as lideranças que contestavam a sua ideologia assimilacionista. Saindo Funai fundamos uma ONG, o Centro de Trabalho Indigenista para atuar num indigenismo alternativo em oposição ao indigenismo de estado, que o taxou de indigenismo subversivo. A questão central era de que os índios pudessem ter seus próprios advogados nos conflitos de interesse com o estado,  voltassem a tomar em suas próprias mãos o seu destino.

Quais são suas expectativas sobre a participação de Martírio no Pachamama?

Vincent Carelli: Tenho muito carinho pelo Acre, pelos povos com os quais trabalho neste estado, e pelo Pachamama e todas as pessoas que estão levando esta nova onda adiante.  Estamos juntos nesta nova era de valorização dos povos indígenas, nesta escrita de um novo momento da história do Acre e dos países que participam deste festival transfronteiriço.

Que projetos novos estão a caminho?

Vincent Carelli: Agora é cuidar da distribuição de Martírio, que tem tido uma aceitação de público e crítica extraordinárias. Aproveitar esta abertura e levar o filme até onde for possível e inclusive em salas de cinema. Ampliar a consciência nacional em relação a este genocídio.

Em seguida temos que montar o filme “Antonio e Piti”, que é uma história de amor, de esperança. É sobre o casamento de um Ashaninka que migra do Peru e a filha de um soldado da borracha e que tem filhos e filhas, todos eles muitos especiais.

O passo seguinte é o terceiro filme desta trilogia, que representa para mim, uma reflexão sobre questões emblemáticas da realidade indígena brasileira nos quais estive implicado diretamente ao longo de anos como militante e parceiro dos índios. Corumbiara foi a respeito do genocídio de índios isolados, Martírio o genocídio contemporâneo de povos com quinhentos anos de contato, mas a cultura mais resistente que conheci em toda a minha vida. O terceiro filme, “Adeus Capitão” tratará de outro tema importante que é o avanço dos grandes projetos desenvolvimentistas do país avançando sobre os territórios indígenas, lançando mão de grandes investimentos para quebrar a resistência indígenas por um lado. E por outro as consequências do ingresso de sociedades igualitárias no sistema capitalista. Uma questão delicada e sensível que exigirá muita habilidade para não sermos mal compreendido, e ao mesmo tempo para que sirva de referência para uma reflexão das populações indígenas implicadas nestes processos. Esta trilogia é o legado da minha vida de militante. O mundo indígena e sua complexidade é completamente desconhecido da grande maioria dos brasileiros.

* Marcelo Cordero é cineclubista e organizador do Festival Pachamama

Assista ao trailer oficial: