jose-dirceuExclusivo – O ex chefe da Casa Civil de Lula respondeu a uma carta à Agência argentina (de notícias) Paco Urondo, em que analisou as razões que levaram ao golpe e deu orientações à militância: “As redes são importantes, mas são as ruas que decidem”.

Santiago Gómez*

Depois de quase três anos tentando sem conseguir contatar a José Zé Dirceu, que está preso no marco da operação Lava Jato, a Agência Paco Urondo conseguiu fazer chegar às suas mãos uma carta para transmitir nossa solidariedade e compartilhar analise da situação local e regional. Ele agradeceu e respondeu por escrito posto que sofre um regime restrito de visitas.

Em 8 de março, da Agência Paco Urondo, enviamos uma carta ao histórico dirigente do PT, a quem a maioria da militância o faz responsável pela chegada de Lula ao governo, graças à rede de alianças que possibilitou o triunfo.

Depois da campanha midiática batizada de “mensalão”, segundo a qual o governo repartia mensalmente recursos aos partidos aliados para que votassem as leis que o governo necessita, Zé Dirceu foi detido sem prova alguma ou com o simples argumento de que “não podia não saber o que ocorria”.

As denúncias e a posterior detenção foram um forte golpe à força moral do partido e as tendências mais à esquerda do PT, que se opunham por princípio às alianças que levaram Lula ao governo, não se ocuparam em realizar campanhas solicitando sua liberdade.

Zé Dirceu conseguiu a prisão domiciliar nesse processo, contudo, o juiz Sergio Moro, que dirige a operação Lava Jato, em agosto de 2015, mesmo mês da destituição de Dilma, decretou sua prisão preventiva.

Salvo o grupo Unidos Contra o Golpe, não se conhece muitos espaços militantes que reclamem publicamente sua libertação, a maioria prefere evitá-lo, tal qual a um leproso.

Zé Dirceu informou que está escrevendo suas memórias, em que “os aspectos que apontam com razão estão sendo analisados para que não se repita os mesmos erros”. Comunicou que já está no ano 2005, ano em que começou a campanha contra ele.

Perguntamos se compartilhava da análise realizada por Álvaro García Linera em “Derrotas e Vitórias” em que o vice presidente da Bolívia mostra a debilidade produzida pelos governos da região a mobilidade social ascendente sem a correspondente conscientização e os retrocessos econômicos, considerando que quando Dilma Rousseff colocou a Levy a cargo da economia, dinamitou a base de apoio da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e com a nomeação de Kátia Abreu, oriunda da Monsanto e dos agronegócios, afetou a aliança com o Movimento Sem Terra.

Também pedimos sua opinião sobre o fato de Lula ter dito aos petistas em 2013, que qualquer um com cara de delinquente os acusavam de ladrões e eles abaixavam a cabeço e não se defendiam, e também com relação ao fato de que nem os petistas defenderam Dilma nem subiram aos morros para conversar sobre política, já que a maioria acredita que fazer política é conversar nas redes sociais.

“O ano passado foi realmente como descreve e a orientação de Lula caiu no vazio. Sobre García Linera, tem razão, mas as causas são maiores, vocês conhecem e descrevem como foi o começo do segundo governo de Dilma”, respondeu. Acrescentou que tem escrito sobre quais são as tarefas atuais e futuras: “é hora de ação, de atuar para recuperar a democracia, derrotar os golpistas!. O PT é um capítulo à parte, difícil, mas sua militância está viva e sua base social e política é ampla”.

Consultamos sobre a fala de Lula no plenário prévio ao Congresso do partido, que transcorrerá em junho, em que enfatizou suas diferenças com os economistas do partido que consideram que o desenvolvimento econômico chegará como consequência do investimento privado e não como resultado da transferência de recursos do Estado aos setores populares, para aumentar a demanda de produtos e assim dinamizar a matriz econômica e produtiva.

“É necessário mudar a correlação de forças e fazer reformas estruturais, sem reforma tributária progressiva sobre a riqueza e a renda, sobre a herança, as doações, as grandes fortunas, sem liquidar com a expropriação da renda nacional pelo capital financeiro e rentista, não há como financiar o Estado social e investir”, respondeu.

A luta interna debilita

Acompanhamos a campanha presidencial de Dilma, a de Tarso Genro a governador e a última campanha aos legislativos municipais em Florianópolis. Vimos como as disputas internas entre as diferentes tendências dentro do PT debilitaram sua força. Cabe lembrar que dentro do PT as frações chamadas tendências estão institucionalizadas. Como no Brasil votam em candidatos não em partidos, ouvi em reiteradas oportunidades a militantes do PT dizer: “se não quiser votar na Dilma nem em Tarso, pode votar somente no candidato a deputado”. Se preocupavam só com conseguir um assento no legislativo. Indagamos a Zé Dirceu sobre isso.

“O PT do Rio Grande do Sul é um capítulo à parte, com suas virtudes e vícios, acertos e equívocos, vitórias e derrotas. Porém, a luta interna, as tendências, quase como partidos, a prevalência do institucional, realmente foi e é um problema grave. Por isso, hoje a prioridade é a luta social e política, cultural e ideológica. Concordo com o voto em lista, ou no mínimo como  voto distrital misto, sem coligação e com financiamento público”, disse

Acrescentou que é preciso regulamentar os meios de comunicação para acabar com “o monopólio, cartel, a cooptação dos organismos de fiscalização, há um pouco de tudo, inclusive dívidas previdenciárias milionárias. Isso não nos exime de reconhecer nossa incapacidade para construir nossos próprios meios de comunicação, apesar dos avanços nas redes. Precisamos lutar, atuar, as redes são importantes, mas são as ruas as que decidem… Unidade, frentes, alianças, para derrotar o impostor e os golpistas”, enfatizou.

Finalizando Zé Dirceu dedicou algumas palavras de agradecimento a todas as pessoas que através das redes sociais ou correio eletrônico lhe transmitem solidariedade.

*Agência Paco Urondo – de Florianópolis