Conta-se que um grupo de ocidentais estava em uma caminhonete, viajando por uma estrada de um país do Oriente Médio. A certa altura, avistaram um habitante local caminhando. Pararam imediatamente e perguntaram aonde ia o peregrino. Quando descobriram que o destino era o mesmo, ofereceram carona. Afinal, andando, o homem chegaria em dois dias, ao passo que se entrasse na caminhonete chegaria ainda antes do próximo entardecer. A resposta do homem foi precisa: "Chegar antes para quê?".
As diferenças culturais entre ocidente e oriente são um dos temas abordados no livro O Irã sob o Chador - duas brasileiras no país dos aiatolás, de Adriana Carranca e Márcia Camargos (Editora Globo, 248 págs., R$ 29,90), a ser lançado em São Paulo nesta segunda-feira (30/8). O livro contém relatos destas jornalistas brasileiras, que viajaram para o Irã por motivos diferentes, e contam suas experiências no país, atualmente foco de muitos questionamentos políticos e culturais. É um lugar que, apesar das tentativas do governo de proibir acesso a sites como Twitter e Facebook, reúne 1,4 milhão de usuários e 800 mil contas ativas nessas redes sociais.
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O livro é uma espécie de guia turístico e literário dividido entre as duas narrativas das autoras, que, em linguagens distintas, mostram um país acolhedor. “Achei que iria encontrar mulheres revoltadas, lutando contra a situação na qual se encontram, mas nāo. Foi muito diferente. Percebi que elas vivem aquele mundo e que sāo felizes daquele jeito. É preciso respeitar”, diz Márcia Camargos em entrevista ao Opera Mundi.
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Autora de 19 livros publicados e agraciada com diversos prêmios literários, Márcia já havia falado sobre o Irā. Seu livro A Travessia do Albatroz (Ediouro, 2007) é uma ficçāo baseada em uma história real, sobre um iraniano que refugiou-se no Brasil, no ano de 1982, em plena guerra Irã-Iraque. Em 2008, Márcia viajou a convite do Festival Cine Verdade, mas resolveu esticar o passeio e acabou conhecendo diversos lugares e visitando o personagem de seu livro anterior. Kurosh, nome fictício, vive atualmente no Irā, casado com uma mulher iraniana e aparentemente feliz, para certa frustração da autora, que não esperava encontrar um revolucionário assim apagado.
“É um certo egoísmo meu, mas vi aquele jovem que vivenciou de tudo aqui no Brasil, terra de costumes tão diferentes, levando uma vida da qual fugiu”, lamenta.
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Chador, burca e niqab são usados em diversos países do Oriente Médio, dentre eles o Irã, como forma de expressão
Não é difícil encontrar, também no Brasil, regras de bons costumes impondo comportamento às mulheres. A diferença é que, aqui, o julgamento é feito pela própria sociedade.
“A Dilma não teve que contratar um personal stylist porque achavam que era importante para a campanha?”, pergunta Márcia sobre a atual candidata do PT nas eleições presidenciais de 2010. “Aqui vale mais ser uma mulher gostosa do que inteligente. Primeiro te avaliam pelo objeto, depois, se você passar pelo crivo, pode ser que a sua inteligência conte”.
Medo e preconceito
Para as mulheres que vivem em alguns países do Oriente Médio, chador, burca e niqab são vestimentas obrigatórias. “Achei que poderia usar qualquer roupa por ser estrangeira, mas não funciona desse jeito. As próprias mulheres ao redor te avisam e ajudam a consertar quando algo está errado." O medo é grande, já que os policiais circulam pelas ruas e as consequências de um ato de desacato podem ser drásticas.
Na Espanha e na França, foram aprovadas recentemente leis polêmicas que proíbem o uso da burca em lugares públicos, medida defendida por Márcia. “Aí é outra história. Tem toda a questão da isonomia, das leis da Espanha e dos direitos iguais. Se aquela mulher pode, por exemplo, passar na Polícia Federal sem mostrar o rosto, eu também tenho que tenho de ter a mesma regalia”, enfatiza.
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O Mausoléu do poeta Hafez, em Shiraz, é um dos principais pontos turísticos do Irã
“Na fase que precedeu nossas respectivas viagens, perguntavam se teríamos coragem de enfrentar uma regiāo inóspita semeada de homens-bomba, minas terrestres e outros absurdos”, contam as autoras, que só se conheceram depois de voltar e tiveram vontade de transformar seus relatos de viagem em livro.
Ao ler um artigo de Adriana Carranca no jornal O Estado de S. Paulo, Márcia resolveu se apresentar. “Existe uma comunidade de brasileiros que já foram para o Irā e que se encontram para trocar experiências e dicas”, comenta Márcia.
Sensaçāo de dúvida
O resultado é instigante, e a leitura, despretensiosa. Na primeira parte, Márcia, doutora em história, situa o leitor com diversas informações sobre o contexto iraniano, levando-o em sua viagem: os cheiros, as impressões e os medos vêm misturados a dados sobre o país. Quem lê pode se preparar para encontrar mais histórias de pessoas acolhedoras do que hostis. A grande dificuldade é a língua. Como o alfabeto árabe, usado para escrever o persa, é extremamente diferente do latino, é fundamental a presença de um guia.
A experiência que mais assustou Márcia foi a viagem de ônibus que teve de fazer sozinha. “Ali foi o momento mais apreensivo porque fiquei na mão do cobrador e do motorista, mas eu estava como convidada oficial, eles não poderiam também fazer qualquer coisa sem algum bom motivo”, lembra.
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Placa indicando o caminho para as ruínas de Pasárgada,
cidade imortalizada no poema de Manuel Bandeira
A narrativa de Adriana, também em primeira pessoa, é mais jornalística do que literária. É um pouco mais fragmentada, por ser composta de uma série de artigos, mas complementa-se perfeitamente com a de sua co-autora. O livro ainda apresenta curiosidades como as ruínas históricas de Pasárgada, cidade localizada ao lado de Teerã e mencionada no famoso verso de Manuel Bandeira.
Ao final do livro as autoras colocaram dicas para quem pensa em visitar o país e também um mini-guia de palavras e expressões em persa. E o que fica, ao término da leitura, é uma sensaçāo de dúvida frente ao pré-julgamento que frequentemente fazemos ao lidarmos com uma cultura tão distante em quilômetros e significados.
(Renata Megale)
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SERVIÇO
Lançamento: 30/8/2010, 19h30. CineSesc (Rua Augusta, 2075, Jardins - São Paulo - SP). Exibição do filme Ask the Wind, ganhador do Urso de Cristal em Berlim 2010.
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