05/06/2009 - 12:06 | Jacqueline Fowks | De Lima

Ataque policial a índios no Peru deixa ao menos 30 mortos

Um confronto deixou ao menos 20 índios, oito policiais, um estudante e um professor mortos hoje (5) no Peru, um dia após o Congresso adiar mais uma vez a votação sobre anulação de um decreto rejeitado desde o ano passado pelas organizações amazônicas do país. Estão em jogo o uso de bosques e territórios das comunidades nativas para exploração mineral e de hidrocarbonetos.


Líderes indígenas Servando Puerta Peña e Alberto Pizango dão entrevista coletiva; foto: EFE

Populações amazônicas iniciaram uma paralisação há 55 dias, exigindo a revogação de leis aprovadas em 2008 sem consulta às comunidades, como estabelece a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho). O decreto-lei 1090 modifica a legislação florestal anterior e, segundo organizações amazônicas, ameaça os territórios indígenas ao excluir do patrimônio da nação os recursos florestais.

O presidente Alan García acredita que por trás das mobilizações, há muita desinformação e ideologia extremista. “Há grande interesse de outros países para que o Peru não avance na mineração, para que o Chile siga tendo a liderança na exploração mineral. Rejeitar a extração do gás e do petróleo que o Peru precisa só interessa aos países petroleiros que querem manter os seus compradores”.

“Venezuela?”, perguntou um jornalista. “Não tenho provas disso, mas a gente tem que se perguntar quem tira proveito da não exploração da riqueza do nosso subsolo”, respondeu García, que promove ativamente o investimento estrangeiro em mineração e exploração de hidrocarbonetos.

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O presidente afirmou que os decretos vão respeitar 12 milhões de hectares de terra agrícola florestal e 15 milhões de hectares de santuários nacionais – cada hectare corresponde a um campo de futebol.

O sociólogo e analista político Alberto Adrianzén afirmou que o governo decidiu usar violência e não continuar as negociações no plano político com as organizações amazônicas. Ontem, o jornal Correos antecipou que a ministra do Interior, Mercedes Cabanillas, tinha sido advertida por não aplicar “linha dura” nas estradas bloqueadas há quase dois meses.

O Congresso do Peru deu faculdades legislativas ao Executivo no ano passado para adaptar a legislação aos requerimentos do Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos.

Depois de uma revolta em agosto 2008 em departamentos amazônicos contra as leis, o governo revogou uma delas e se comprometeu a revisar e modificar as outras. Devido à demora, teve início em 9 de abril uma nova “paralisação amazônica” exigindo do Congresso a revisão do pacote pendente.

O confronto

O conflito que causou ao menos 30 mortes teve início quando a polícia atacou mais de mil civis que bloqueavam uma estrada no norte de Peru. Os disparos começaram depois das 6h na zona conhecida como ‘Curva do Diabo’. Depois de um enfrentamento, manifestantes tomaram fuzis de quatro policiais mortos, segundos jornalistas do site Enlace Nacional – que veicula informações de rádios comunitárias – em Bagua, cidade localizada na região de Amazonas, e um enviado da Rádio Capital de Lima.

Três horas após o início do enfrentamento, o líder indígena Alberto Pizango relatou à imprensa estrangeira em Lima que os manifestantes só tinham flechas e não armas de fogo, e lamentou a morte de um dos líderes, Santiago Valera. Durante a entrevista coletiva, cresciam os registros de vítimas fatais.

Pizango, que representa as organizações amazônicas nas negociações com o primeiro- ministro Yehude Simon, responsabilizou pelas mortes o presidente do Congresso, Javier Velásquez, do partido governista Apra.

O chefe do Estado Maior da Polícia, Miguel Hidalgo, informou que 639 efetivos policiais participaram da operação, realizada com apoio do Exército.

Franco-atiradores em Bagua, no norte do Peru, local do confronto; foto: elmorsa.pe