28/02/2010 - 00:10 | Max Altman | São Paulo

Cuba, direitos humanos e hipocrisia

A greve de fome de pessoa que cumpre pena em presídio é uma arma de desobediência e um desafio às determinações do Estado que pode assumir caráter político ou de reivindicação por melhores condições carcerárias. Manifestação de vontade individual ou coletiva, deve ser respeitada e criteriosamente avaliada.

Ao tomar, conscientemente, a grave decisão de iniciar a greve de fome, o preso sabe - e é informado - que a consequência pode ser fatal. Alguns entregam sua vida por um ideal mais nobre. Esses contam com defensores de fora da prisão que pressionam as autoridades a fim de que o objetivo da greve de fome seja alcançado. Outros priorizam sua própria vida e ainda assim esperam ver acatadas suas exigências. Quando ocorre a morte, os verdadeiros humanistas se condoem.

Contudo, a reação que se leu, viu e ouviu nesses dias a respeito do caso do cubano Orlando Zapata Tamayo passa longe da natural comiseração. O cadáver de Zapata é agora exibido como um troféu coletivo. Os grandes meios de comunicação já vinham antecipando o desenlace com intenções pouco dissimuladas de utilização com premeditados fins políticos.

Zapata não fazia parte dos chamados dissidentes que foram julgados em março de 2003, não era um dos 75. Tinha um longo histórico delitivo comum, nada vinculado à política. Transformado depois de muitas idas e vindas à prisão em ativista político, era um homem prescindível para os opositores da Revolução. Cumpria uma sentença de privação de liberdade de 25 anos depois de ter sido inicialmente sentenciado em 2004 a três anos por desordem pública, desacato e resistência. Vinculou-se aos dissidentes após contactos com Oswaldo Payá e Marta Beatriz Roque. Declarou-se em greve de fome em 18 de dezembro.

Apesar de se negar a tanto, recebeu, de acordo com o que estabelece o Tratado de Malta, a assistência médica necessária, inclusive terapia intermédia e intensiva e alimentação voluntária por via parenteral endovenosa e enteral. Transferido para um hospital geral foi-lhe diagnosticado pneumonia, tratada com os procedimentos mais avançados. Ao ter comprometidos ambos os pulmões, foi assistido com respiração artificial até que ocorreu o óbito.

Greves de fome na grande imprensa
Vou à história, curioso em saber como a grande imprensa cobriu greves de fome de presos que terminaram ou não em morte e como selecionam os direitos humanos.

Ao assumir o governo inglês em 1979, Margareth Thatcher deflagrou uma ofensiva militar e política contra os movimentos pela libertação da Irlanda do Norte. A virulenta tentativa de criminalização do republicanismo irlandês passava pela supressão de qualquer diferença entre o tratamento dispensado, nos cárceres, aos soldados do Exército Republicano Irlandês (IRA) e do Exército de Libertação Nacional Irlandês (INLA) e a criminosos comuns. Em resposta, combatentes irlandeses encerrados nos blocos H da prisão de Maze deflagram em 1º de março de 1981 uma greve de fome.

Suas reivindicações: não usar uniformes de presidiário; não realizar trabalhos forçados; liberdade de associação e organização de atividades culturais e educativas; direito a uma carta, uma visita e um pacote por semana; e que os dias de protesto não fossem descontados quando do cômputo do cumprimento da pena. Recusando-se a ser tratados como criminosos, defendiam, a um só tempo, sua dignidade pessoal e a legitimidade da luta pela libertação de seu país.

A um custo inimaginavelmente alto - 11 homens morreram de inanição após longa agonia de 63 dias -, os grevistas conseguiram uma vitória moral, ao fazer com que os ingleses retrocedessem quanto ao regime carcerário poucos meses após o fim do movimento; e uma vitória política, ao frustrar os planos de Thatcher de expor os que lutavam pela liberdade da Irlanda como criminosos aos olhos do mundo. O funeral de Bobby Sands, o líder do movimento, foi assistido por mais de 100 mil pessoas.

Thatcher, insensível, fez ouvidos moucos aos apelos. Teriam o “Estadão”, a “Folha” ou o “Globo” ou “El País”, “The New York Times”, “Die Welt”, “Le Fígaro”, “Clarín” estampado uma manchete principal acusando Thatcher de homicida? Evidentemente, não!

Em meio século, nada mudou na Turquia, onde os presos políticos continuam fazendo greve de fome, não pela liberdade, como Nazim Hikmet, mas para recuperar a dignidade.
Nazim Hikmet, o grande poeta turco, a quem a escritora Charlotte Kan chamou de “o comunista romântico”, condenado a uma pena pesada, em um longo processo construído nos mínimos detalhes, estava preso em Bursa havia 12 anos quando começou uma greve de fome para recuperar a liberdade. E ainda teve forças suficientes para escrever o poema “O quinto dia de uma greve de fome”, dedicado a seus amigos franceses que lutavam por sua libertação.

Acaso os editoriais da nossa imprensa acusaram os governantes turcos de perpetradores de um crime continuado? Nem pensar.

Guantánamo e Afeganistão

Na base militar de Guantanamo, aqueles que as autoridades norte-americanas chamam de “combatentes inimigos” fizeram, entre fevereiro de 2002 e fim de setembro de 2005, seis tentativas conhecidas - e talvez centenas ignoradas - de desafiar seus carcereiros do Pentágono com greves de fome. Alguém leu ou ouviu acusações a Obama de violador dos direitos humanos elementares por não ter cumprido a promessa de encerrar esse centro de tortura e humilhação?

Recentemente, a aviação norte-americana dizimou, no espaço de dias, famílias de cidadãos afegãos, a maioria mulheres e crianças. A mídia abriu espaço para o pedido de desculpas dos generais e nem um milímetro para acusá-los e a Washington de estar perpetrando uma política de terrorismo de Estado e de violação da Convenção de Genebra.

Passaportes britânicos de cidadãos israelenses de dupla nacionalidade foram utilizados pelo serviço secreto do Mossad para executar extrajudicialmente em Dubai o líder do Hamas, Mahmoud AL-Mabhouh. Por acaso a mídia abriu suas colunas para acusar o governo Netanyahu de criminoso e fora-de-lei?

Na confrontação de Estados Unidos e Cuba, ao largo de mais de meio século, milhares de cubanos foram vítimas de atos de terrorismo arquitetados em solo norte-americano com pleno conhecimento da Casa Branca, incluindo diplomatas assassinados no exterior. Quando Havana se dispôs a tomar medidas de inteligência para prevenir esses ataques, cinco de seus concidadãos foram presos e condenados, em processo totalmente viciado levado a cabo em Miami, a penas draconianas que chegaram a duas prisões perpétuas mais 15 anos para um deles. Jamais a mídia internacional e a nossa mídia trataram do assunto.

Os ataques virulentos a Cuba por parte da direita, das oligarquias, dos setores reacionários e dos segmentos conservadores e seus porta-vozes não são novidade. Não se conformam de a Revolução Cubana ter resistido sozinha, graças à firmeza de sua liderança e ao apoio valente de seu povo, à opressão e aos desígnios do Império.

Nenhum outro governo da região a apoiou. Hoje diversos governos da região a apoiam. A solidariedade, simpatia e defesa da gente simples e dos progressistas em todo o mundo nunca faltou.

Lula em Cuba

A visita de Lula a Havana coincidiu com a morte de Zapata. Nossa mídia rebaixou a assinatura de dez acordos de cooperação, entre os quais se destaca a modernização do porto de Mariel. No entanto, o criticou furiosamente pretendendo vinculá-lo ao desrespeito a direitos humanos. No fundo querem destruir sua imagem de grande líder nacional e internacional em proveito de seus interesses ideológicos permanentes e eleitorais de agora.

Lula soube se comportar como chefe de Estado. E pessoalmente foi leal àqueles que ao longo de décadas se constituíram numa referência de soberania, independência e autodeterminação, mas também de dignidade, heroismo e solidariedade. 

* Max Altman, jornalista e advogado, é membro da Secretaria Nacional de Relações Internacionais do Partido dos Trabalhadores

duvida

01/03/2010 - 16h09

eu não entendi, o fato da imprensa não ter se proclamado contra Thatcher e Obama, valida a atitude cubana em relação aos presos cubanos?
porque nada foi dito em represália anteriormente, não se pode falar nada agora?
tipo, meu irmão fez merda, ninguém falou nada, eu posso fazer também... hmm, acho q entendi

Punk

09/03/2010 - 20h18

Gostei da parte que fala que ele foi tratado com procedimentoa avançados. Entao Cuba tem raixo x agora? Qual é marca da empresa Cubana que faz? Prq Dilma e Lulla preferem o burgues Eistein? Como sabemos dos indices de saúde e educação Cubando se eles vivem uma ditadura, que é do bem pra vcs.... Defender que se possa prender pessoas por quesato ideologicas em 2010 é de doer...por isso que me arrependeo totalmente de ter votado no cara, a morte de Ceslso Daniel foi crime comum, o mensalao n está provado, Sarney ex Arena é bom, Delfim que assinou o AI-5 um heroi, Prouni é a privatização do ensino, e até hj nao vi 2 fotos das obras do PAC, ao inves de brigar com a imprensa nao dá pra fotogrfas as obras nao:??

Marta Leite

12/03/2010 - 20h10

Impressionante a tentativa de fundamentar sua argumentação fazendo referências a fatos ocorridos em 1979, ou pior, antes ainda: Nazim Hikmet morreu em 1963!!!! Como bem disse Beto Guedes “quem perdeu o trem da história por querer, saiu do juízo sem saber, foi mais um covarde a se esconder, diante de um novo mundo”. Acorda cidadão, “a fila andou”!
Tenho três filhos e sinto arrepios ao imaginar que possam um dia viver sob uma, de fato, oligarquia (“dicionário Aurélio da Língua Portuguesa: governo de poucas pessoas pertencentes ao mesmo partido, classe ou família”).
Você se refere ao “apoio valente do povo cubano”. Por que a esse povo são negados os direitos fundamentais de expressar-se e de ir e vir? Lembra-se do embarque da delegação cubana nos Jogos Pan-americanos do Rio (bem mais recente... 2007)?
Um governo que não respeita minimamente os direitos humanos fundamentais ( vide Declaração Universal dos Direitos Humanos) PRECISA SER BANIDO.

Marta Leite

12/03/2010 - 20h24

Em tempo: Lula não se comportou como "chefe de Estado", inclusive porque não dispõe de fundamentos para tanto. Como você bem disse "foi leal" aos "companheiros", pouco se importando com o povo cubano!

João Henrique Francalino

05/04/2010 - 18h44

Meus caros. Concordo com parte dos comentários quando afirmam que um ou dois erros não produzem um acerto, mas o que me incomoda e acredito que é a base da argumentação do autor do artigo é o fato de a mídia, de forma geral, utilizar dois pesos e duas medidas para questões de mesmo fundamento. Para não utilizarmos exemplos longínquos vejamos o caso de países como a Arábia Saudita (uma monarquia absolutista ditatorial) que é uma superaliada dos Estados Unidos e que praticamente é mencionada pela imprensa. O outro caso é a China que é campeã de desrespeito aos direitos humanos mas não sofre nenhuma sanção ou crítica mais contundente pelo simples fato de ser um importante parceiro comercial para praticamente todas as nações do mundo, principalmente dos EUA. Os próprios Estados Unidos cansaram de desrespeitar os direitos humanos (e ainda o fazem) ao longo da sua História e não vejo a mesma indignação por parte dos meios de comunicação e da dita "opinião pública". Menos hipocrisia!!!

Amauri

30/04/2010 - 13h54

Qualquer tipo de ditadura é ruim, mas a de esquerda é "bem" pior e se fosse implantada no Brasil "haja paredão" pra matar tanta gente. Assim como já morreram milhões em Cuba, China, Korea, Russia e etc... e chamam isto de Democracia - Temos que ter muito cuidado pois já existem muitas armadilhas sileciosas no Brasil, tais como bolsas famílias, escola, MST e etc.... e permitidas pelo Governo atual - a única arma ainda é o VOTO....

Bayardo Brizolla

02/05/2010 - 13h34

Novas investidas são feitas pela imprensa internacional contra o governo e o povo de Cuba, utilizando-se de depoimentos de algumas poucas pessoas, descredenciadas, e politicamente engajadas na luta contra-revolucionária, e sendo assim, suspeitas para esclarecerem a opinião pública, sobre a realidade cubana, suas conquistas e suas necessidades. Em todos os lugares, em todas as épocas, os atos daqueles que agiram contra seu país a serviço de uma potência estrangeira sempre foram considerados terrivelmente graves. “Ninguém pode mencionar ou provar em Cuba um único caso de tortura, de assassinato, de ‘desaparecimento’, algo tão comum e corrente na América Latina”. Quanto ao fato de se você chamar de liberdade de imprensa o direito de contra-revolucionários e dos inimigos de Cuba de falar e escrever livremente contra o socialismo e contra a Revolução, eu diria que não estamos a favor dessa 'liberdade'. Enquanto Cuba for um país bloqueado pelo império, atacado permanentemente, vítima de l

Daniel

03/05/2010 - 21h29

O autor se esquece da luta que o mundo empreendeu para fechar a base de Guantanamo. Lula deveria ter ficado de boca fechada, se não sabia o que dizer.
Conheço cubanos e dizem que aquilo é uma ditadura e que todos são escravos dos irmãos Castro.

Felipe

26/07/2010 - 13h55

Eu achei muito bom o texto. E queria fazer um comentário, a respeito dos comentários. Gente, se vocês acham um monte de bobagem o que o autor escreveu, porque vocês vieram até aqui, só pra o criticar? Olha, vocês estão gastando o tempo de vocês muito mal, vamos otimizar o nosso tempo livre, fazer coisas que valham a pena. Se o que o Max Altman escreveu é ruim, por que se dar ao trabalho de ler tudo (acredito que vocês fizeram isso) isso? Seria melhor nem ler. Nem entrar nesse site. Parabéns pelo artigo!

MARCO TULIO

26/07/2010 - 17h45

O PT QUER IMPLANTAR UM REGIME DESTE NO BRASIL E AOS PUCOS ESTA TENDO EXITO, MUITAS VEZES POR CULPA DA PROPRIA IMPRENSA. COMO PODEMOS FALAR BEM DE UM PAIS SE ESTE NÃO TEM O MINIMO DE DIGNIDADE E LIBERDADE COM O SEU POVO.

Eden

07/08/2010 - 15h01

Tinha que ser advogado do PT, nada imparcial com nosso Queridinho presidente...

Antonio Elcio da Silva Pereira

07/08/2010 - 21h03

Porque não pode ler ou comentar,Felipe?Todos temos o direito de ler ou comentar o que quisermos,pois esse é um espaço livre em que é possivel também colocar o ponto de vista .Se o autor resolveu publicar aqui o seu artigo,ele ja sabia que teria comentários,favoraveis e contrarios,não existe unanimidade de pensamentos,concordando ou não,nós temos acesso ao que foi escrito,então porque não faze-lo?