Combate ao feminicídio exige consenso entre esquerda e direita, avalia historiadora
No programa 20 Minutos, Patricia Valim analisou histórico de violência associada ao gênero no Brasil e defendeu educação contra problema estrutural
A historiadora, professora e pesquisadora Patrícia Valim sustentou a necessidade de construir um consenso entre as mulheres da direita e da esquerda como passo fundamental para o combate à violência histórica perpetrada no sistema patriarcal. A posição se deu durante a entrevista concedida ao fundador de Opera Mundi, Breno Altman, nesta terça-feira (16/12) no programa 20 Minutos, voltada ao assunto da epidemia do feminicídio especificamente no Brasil.
De acordo com a especialista, “o caminho da esquerda é construir consenso entre mulheres”, assim como fizeram as ativistas na Constituinte de 1988, independentemente de espectro político. “Não há democracia possível, não há esquerda possível, futuro da esquerda. Ela passa por uma ideia de paridade. Não temos mais como falar sobre democracia sem considerar os grupos marginalizados. E não marginalizados porque são minoria, mas porque foram silenciados e apagados historicamente”, acrescentou.
Apesar de possuir uma das melhores legislações do mundo no combate a esse crime, Valim destacou que o país continua figurando entre os cinco que mais matam mulheres, em um contexto de “escala industrial” de violência. Para ela, a explicação reside em estruturas históricas profundas e em uma reação violenta – o fenômeno do “backlash” – aos avanços conquistados pelas mulheres.
De acordo com a historiadora, o Brasil tem uma lei de feminicídio considerada modelo, que tornou o crime autônomo e com penas mais severas, mas os assassinatos de mulheres não cessam. Além disso, apontou que os locais dos crimes também revelam a dimensão do problema: enquanto mulheres são mortas majoritariamente dentro de casa, pessoas trans são assassinadas nas ruas, vielas e periferias.
Reação contra a autonomia feminina
Na entrevista, Valim associou o conceito de “backlash” à manutenção dos altos índices de violência, tratando-se de uma reação organizada contra a autonomia feminina.
“O retrocesso está intimamente ligado aos direitos das mulheres”, destacou, explicando que à medida que as mulheres rompem com os papéis de gênero tradicionais – centrados no matrimônio e na maternidade – e conquistam espaço, uma reação violenta se articula. Esse movimento, por sua vez, ganha força e financiamento com os grupos “masculinistas” principalmente nas redes sociais, que “faturam muito” a partir do ódio fomentado contra as mulheres. Um exemplo é a tentativa de acabar com o aborto legal.

Pesquisadora e historiadora Patrícia Valim concede entrevista ao 20 Minutos
Reprodução/UFBA
Para entender a persistência do fenômeno, Valim recordou que no século XIX, a “legítima defesa da honra” e a “monomania” (loucura momentânea) eram dispositivos jurídicos que absolviam ou atenuavam penas de assassinos. Casos emblemáticos como o de Júlia Clara Pedral, assassinada em 1847 na Bahia, e o de Maria Luísa Hauser, morta em 1940 no Rio Grande do Sul, mostram, segundo a historiadora, como a defesa construía narrativas para culpar a vítima e inocentar o agressor.
Posteriormente, esses dois dispositivos do código penal foram retirados, porém, a especialista explicou que, ainda assim, a sua lógica perdura socialmente.
“O fato de ela deixar de existir juridicamente não significa que não seja mobilizada socialmente”, alertou, citando casos midiáticos mais recentes. Segundo ela, a versão atualizada é a construção da “excepcionalidade do feminicida”, ou seja, quando a defesa apresenta o assassino como um “bom trabalhador”, “pai de família” ou até “marxista” para tentar reduzi-lo à categoria de “não criminoso”.
Aposta na educação
Questionada sobre a eficácia de medidas contra a violência, Valim sustentou que o punitivismo não resolve o crime, associando-o à “gramática da extrema direita”.
“Nem a prisão perpétua vai resolver o feminicídio no Brasil”, disse, ao criticar medidas “politivistas” dos governos, como a distribuição de spray de pimenta para mulheres, que transferem para a vítima a responsabilidade pela autodefesa e esvaziam o papel do Estado sobre o assunto.
Por outro lado, defendeu a educação como ferramenta primordial para resolver o problema, que é estrutural.
“A educação demora, mas não há milagres. É preciso ensinar o que é violência. As pessoas não nascem sabendo”, afirmou, acrescentando a importância de “aprender a diagnosticar a violência antes que aconteça o feminicídio”, já que a sociedade atual naturaliza a violência cotidiana, presente dentro e fora de casa.
Assista à entrevista completa:























