Aliança entre grupos armados remodelam conflito no Mali, aponta jornal
Ataque conjunto de separatistas tuaregues e organização afiliada à Al-Qaeda matou 50 militares no sábado (18); Al Jazeera adverte sobre expansão da cooperação na região do Sahel
Pelo menos 50 soldados malianos foram mortos no último sábado (18/07), após uma emboscada de grupos armados atingir um comboio conjunto das Forças Armadas do Mali (FAMa) e do Afrika Korps da Rússia, em Anefis, no norte do país. Segundo reportagem da Al Jazeera, o ataque é um exemplo da crescente cooperação entre grupos separatistas tuaregues e organizações jihadistas, que pode se expandir para outros países na região do Sahel.
O ataque foi reivindicado conjuntamente pela Frente de Libertação de Azawad (FLA), coalizão separatista predominantemente tuaregues, e pela Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), afiliada à Al-Qaeda. Elas vêm atuando conjuntamente contra o governo do Mali, embora tenham objetivos distintos: a FLA defende a independência do norte do país, enquanto o JNIM busca estabelecer um governo baseado em sua interpretação da lei islâmica.
Segundo Héni Nsaibia, analista sênior para a África Ocidental do Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), essa cooperação vem multiplicando a força desses grupos, ao permitir o compartilhamento de recursos, de combatentes e do conhecimento sobre o terreno.
Em 26 de abril, o ministro da Defesa do país, Sadio Camara, foi vítima de um carro-bomba, também em ataque coordenado, na cidade militar de Kati. Os grupos rebeldes também tomaram o controle da cidade de Kidal no norte do Mali, a 1.500 km da capital, Bamako.

Forças Armadas do Mali (FAMa) contam com cooperação militar de Moscou
@DirpaFa / X
Remodelação do conflito
O conflito no Mali, afirma a reportagem, foi remodelado após a junta militar abandonar o Acordo de Paz de Argel, firmado em 2015, aprofundando a cooperação militar com Moscou. A decisão levou à retirada da Missão Multidimensional Integrada de Estabilização das Nações Unidas (MINUSMA), que fornecia apoio logístico, de monitoramento e de inteligência em grande parte do norte do país.
A Rússia, por sua vez, ampliou sua presença no conflito por meio do Afrika Korps, que substituiu o Grupo Wagner, como principal força de apoio militar ao governo do Mali, fornecendo apoio em combate, drones e aeronaves utilizados em missões de vigilância e de ataque.
Com a mudança, o Exército tornou-se mais eficaz em combates diretos, mas perdeu capacidade para “garantir a segurança de vastos territórios remotos” do norte do país, afirmam analistas ouvidos pela reportagem.
Na avaliação de Nimi Princewill, especializada em África Ocidental e Sahel, “a Rússia ajudou a fortalecer as Forças Armadas do Mali, que corriam o risco de serem derrotadas e dando mais apoio no campo de batalha”, porém “o apoio militar do Kremlin não alterou o panorama geral” do conflito, que “permanece profundamente enraizado, com dimensões geográficas e ideológicas difíceis de serem enfrentadas”.
Expansão do conflito
A reportagem destaca ainda que a aliança entre a FLA e o JNIM pode ultrapassar as fronteiras do Mali, uma vez que o grupo ligado à Al-Qaeda também atua em Burkina Faso e no Níger, enquanto a violência continua a se expandir pelo Sahel central.
“Quando o Mali sangra, o Níger sangra junto”, afirmou à Al Jazeera, sob condição de anonimato, um especialista em segurança baseado no Níger. Segundo ele, isso ocorre porque os grupos armados que atacam os comboios “não reconhecem a Aliança dos Estados do Sahel (AES), assim como não reconheciam a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO)”.
“Trocamos um conjunto de parceiros em que não confiávamos por outro, e a guerra continua avançando para o sul”, lamentou.























