“Mesmo que eu morra, cada vida salva terá valido a pena”. Com essas pallavras, o ativista Udekwe Kennedy Obinna descreve o trabalho da organização nigeriana Migrants Lives Matter (Vidas de Migrantes Importam), da qual é fundador, que se dedica à conscientização sobre os riscos e formas de aliciamento das redes de tráfico humano no continente africano.
Vítima de uma dessas organizações criminosas, Obinna transformou o trauma de cinco meses de prisão na Líbia em ativismo e ação política, em um continente onde, como ele mesmo descreve, “o desemprego, a pobreza, a insegurança e a má governança vêm alimentando poderosas redes de tráfico de pessoas”.
“As gangues usam a vulnerabilidade das populações para capturar as pessoas”, avalia, ao apontar os altos índices de desocupação e o desejo legítimo de uma vida melhor como fatores que incrementam a migração massiva em muitos países africanos, e que acabam favorecendo as redes de tráfico humano.
Em entrevista a Opera Mundi, Obinna relata que o tráfico humano é uma atividade altamente organizada. “Existem diferentes funções nessas redes criminosas, que contam com recrutadores, financiadores e toda uma logística, em diferentes departamentos, abrangendo contrabandistas, vendedores de órgãos e toda sorte de crimes”, detalha.
Segundo ele, as redes sociais são um terreno fértil para o aliciamento da juventude africana. “Os recrutadores postam fotos e vídeos de uma vida extravagante, carros grandes e casas bonitas, com a promessa de uma vida melhor na Europa, Estados Unidos, América do Sul e Ásia”, aponta.
“Eles pintam um quadro cor-de-rosa do Ocidente e isso é uma tentação para aqueles que vivem em bairros ruins, sem eletricidade ou água encanada. Eles passam a acreditar que, se mudarem de país, terão aquilo e seus problemas serão resolvidos”, acrescenta.
Obinna fala por experiência própria. Em 2013, após terminar a universidade, ele se viu desempregado. Na época, um primo que vivia na Itália o convenceu a tentar a sorte no país europeu, garantindo-lhe que conseguiria uma vida melhor. Ele passou três anos planejando a viagem.
Os caminhos legais, no entanto, estavam fechados. Obinna tentou tirar um visto para entrar no país, mas sofreu um golpe de um falso agente de visto. Segundo ele, “esses agentes falsos são um problema na Nigéria e em outros países africanos, porque pegam o dinheiro, mas não emitem as autorizações, estimulando as pessoas a tentarem vias ilegais de emigração”.
Foi justamente isso que Obinna fez há época. Ele optou pela rota da Líbia, cujos intermediadores cobravam muito menos do que o valor que já havia despendido na tentativa frustrada de obtenção do visto. Em 2016, após pagar 150 mil nairas nigerianas (cerca de R$ 580) aos intermediários – que, na realidade, eram traficantes –, ele chegou a Sabha, onde descobriu que havia caído nas mãos do crime organizado.
“Éramos 21 pessoas viajando em um veículo e, ao chegarmos a Sabha, eles disseram que nós tínhamos sido vendidos. A princípio, eu não acreditei e comecei a rir. ‘Como alguém é vendido em pleno século XXI? Isso é impossível’, pensei”. A realidade então se impôs, com agressões físicas. “Eles começaram a nos bater e a usar as armas para nos ameaçar”, relata.
Obinna e os demais sequestrados foram obrigados a ligar para suas famílias, pedindo dinheiro para o resgate. “Foram três meses naquele lugar até que minha família conseguisse juntar 2 mil dinares líbios (R$ 1.600) para que eu pudesse ser solto”, recorda o ativista.
Ao longo de todo esse período, ele tentou desesperadamente se comunicar com o primo na Itália, em vão. “Até hoje, acho difícil acreditar que ele faça parte da rede de tráfico, mas, pelas atitudes dele, tudo aponta nessa direção. Ele poderia ter me ajudado quando liguei dizendo que havia sido sequestrado, mas nem tentou”, lamenta.
Em sua avaliação, qualquer quantia que o primo enviasse teria lhe ajudado a pagar o resgate. “Nunca mais falei com ele, por isso não posso afirmar que ele recebeu dinheiro dos contrabandistas, mas, durante todo o sofrimento, eu ligava, minha mãe e familiares ligavam e ele não atendia”, reitera.
Em novembro de 2016, Obinna saiu de Sabha e chegou a Trípoli, em mais uma tentativa de chegar ao país europeu, agora pela travessia marítima. “Tivemos problemas no mar. A água entrou no motor e o carburador estragou. Não conseguimos consertá-lo e ficamos à deriva. Depois, o barco se rompeu”, lembra.
“Éramos 156 pessoas naquele barco, na verdade, um bote inflável de borracha, feito de lona, completamente inapropriado para navegar no mar. Naquela noite, nós perdemos muitas pessoas. Apenas 87 pessoas sobreviveram. Eu tive muita sorte”, afirma.
Depois dessa experiência traumática, Obinna retornou a Trípoli. Ali, começou a trabalhar para economizar dinheiro e tentar uma nova travessia. Ela aconteceu em abril de 2018, mas, dessa vez, a embarcação foi interceptada pela Guarda Costeira da Líbia, em Zuwarah, e ele acabou sendo preso.
Levado a Zliten, foram mais dois meses de detenção. “As condições naquele lugar eram terríveis, eu não aguentava mais”, relata. “Então, a Organização Internacional para as Migrações (OIM) chegou e nos propôs um retorno voluntário. Eu agarrei aquela chance e decidi voltar, antes que morresse naquele lugar. Foi realmente terrível, eu não teria sobrevivido”, conta.
“Em 5 de junho de 2018, graças à OIM das Nações Unidas, eu desembarquei na Nigéria”, relata o ativista. Segundo ele, a experiência durante a rota migratória mudou completamente a sua vida. “Quando voltei, por causa de todas as coisas terríveis que vivi na estrada, eu me comprometi a alertar meus irmãos, minha família, meus amigos e até as pessoas que não conheço sobre o que está acontecendo”, afirma.
Desde então, ele vem usando todas as redes sociais às quais tem acesso, em particular o Facebook, para conscientizar as pessoas sobre os perigos do tráfico humano.
A Migrants Lives Matter surgiu desse esforço. Além do trabalho nas redes, a organização cumpre uma intensa agenda em escolas secundárias e outros espaços, como igrejas e mercados, para explicar à população como as pessoas podem ser aliciadas e se tornar vítimas.
Segundo o ativista, uma das principais dificuldades é a percepção equivocada de que os traficantes são pessoas desconhecidas. “Muita gente não sabe o que é tráfico humano e pensa que os traficantes são estranhos. Isso não é verdade, eles estão por todas as partes, pode ser um irmão, um primo”, alerta Obinna, com base em sua própria experiência.
“Nós alertamos as pessoas de que nem toda oportunidade de viajar para o exterior ou patrocínio de vistos é legítima, que essas falsas oportunidades, apresentadas de forma atraente, podem terminar em tráfico de órgãos, escravidão sexual e trabalho forçado”, enfatiza.
Durante esse processo, ele encontrou vários sobreviventes que, como ele, realizavam ações semelhantes em seus países. Juntos, eles estabeleceram uma rede de colaboração em torno de agendas conjuntas.
Recentemente, a Migrants Lives Matter se associou à NRdede de Pessoas com Experiência de Migração (NePMEX, pela sigla em inglês de Network of People with Mgration Experience). Com patrocínio da Alemanha, a rede engloba várias associações fundadas por sobreviventes que atuam na luta contra o tráfico humano e, em particular, contra crimes envolvendo crianças e adolescentes.
Segundo o mais recente relatório global sobre tráfico de pessoas, publicado em 2024 pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), as crianças representam 61% das vítimas na África Subsaariana: 42% são meninas e 19%, meninos menores de idade.
Entre os adultos traficados, 29% são mulheres e 10%, homens. O trabalho forçado é a principal modalidade de exploração identificada, correspondendo a 65% das vítimas, enquanto 21% são submetidas à exploração sexual.
Apesar de os números estarem aquém da dimensão real do problema, uma vez que se baseiam nos casos detectados pelas autoridades nacionais, os dados permitem acompanhar a evolução do tráfico. Na África Subsaariana, o número de vítimas identificadas aumentou 98% entre 2019 e 2022, considerando os 20 países que forneceram informações durante todo o período.
O número de vítimas identificadas também vem aumentando na Nigéria, segundo o relatório. Em 2020, foram 1.087 pessoas; no ano seguinte, 1.470 e, em 2022, 2.883. Segundo a Agência Nacional para a Proibição do Tráfico de Pessoas da Nigéria (NAPTIP, por sua sigla em inglês), entre 2022 e 2024, mais de 7 mil pessoas foram resgatadas. Em 2023, entre as 2.112 vítimas resgatadas, 77,6% eram mulheres e meninas.

Diante dos altos índices envolvendo jovens africanos, a ONG de Obinna vem realizando um intenso trabalho nas escolas para alertar os menores. “O público-alvo dessa campanha são meninas de 12 a 18 anos, principalmente alunas do ensino fundamental e médio que precisam de educação e de oportunidades. Vou às escolas e as informo sobre os riscos”, detalha o ativista.
A entidade também possui trabalhos dedicados aos meninos, direcionadas sobretudo a combater falsas oportunidades relacionadas ao futebol. “Eu vou aos campos de futebol para conversar com eles, porque muitos dos que são levados ilegalmente para a Europa e Estados Unidos acabam sendo atraídos por promessas para seguir carreira no futebol, e acabam virando vítimas do tráfico humano”, acrescenta Obinna.
Ele conta, ainda, que os recrutadores têm forte atuação nas instituições religiosas. “Nós vamos às mesquitas e igrejas, porque há traficantes atuando nesses espaços, inclusive com promessas de financiamento para peregrinações religiosas”, relata.
“Muitos deles dizem aos muçulmanos que estão patrocinando a peregrinação a Meca (Hajj) e o devoto, feliz com a oportunidade de servir ao seu Deus, é levado para Arábia Saudita, Omã, Bahrein e até o Catar, onde se torna vítima dessas redes”, adiciona.
Outro ponto mencionado por Obinna é como algumas das vítimas dessas redes acabam sendo forçadas à servidão doméstica e permanecem por dois anos trabalhando sob ameaça de terem seus passaportes confiscados. “É assim que acontece o tráfico humano religioso, as pessoas recebem promessas de viagens com todas as despesas pagas e terminam nessa situação”, salienta.
Obinna destaca que “tráfico humano não é praticado apenas por pessoas estranhas. Em muitos casos, essas promessas chegam através de irmãos de fé, do pastor da igreja, do imã da mesquita, qualquer um pode ser um traficante ou colaborador dessas redes”. No caso das instituições cristãs, os fiéis costumam ser sequestrados após falsas promessas de peregrinações a Jerusalém.
“Essas redes estão por todas as partes”, afirma, ao lamentar que está em busca de contatos com um jovem que, no ano passado, foi abandonado na Jordânia após uma promessa de peregrinação a Jerusalém. “Até agora, não sei onde ele está”, lamenta.
Uma década após sua prisão na Líbia, Obinna busca tirar do horror que viveu a motivação para seguir em frente. “Eu presenciei muitas mortes e, ao todo, fiquei cinco meses preso. Isso me ajuda a enfrentar os desafios, eu lembro sempre de cada uma dessas pessoas”, afirma.
“Cada pessoa que consigo resgatar é uma vitória. Essa motivação me mantém crescendo”, acrescenta, ao mencionar que para além da necessidade de recursos, o ativismo contra redes tão poderosas como as do tráfico humano envolve outros riscos. Questionado se recebe ameaças de morte, ele afirmou que sim: “me dizem ‘fique quieto ou desapareça‘’”.
“O tráfico de pessoas é um crime organizado.. Eles estão em todos os lugares e são pagos em dólares, recebendo altas quantias para que esses crimes continuem. É uma rede muito maior do que a das ONGs de resistência”, explica o ativista, que diz haver traficantes em posições de poder e dentro de governos de alguns países africanos.
“Há uma limitação no alcance do nosso trabalho, por isso, o melhor que podemos fazer é conscientizar as pessoas para que não se tornem vítimas”, avalia.
Obinna também destaca que a permanência do contexto de insegurança e de instabilidade nos países africanos, contribuiu com as redes do tráfico internacional. “A maior parte do Sahel africano está sofrendo com alguma forma de terrorismo e insegurança. Muitas pessoas estão sendo deslocadas neste momento. Inclusive na Nigéria, nós sofremos muita insegurança promovida pelo Boko Haram”, conta.
No dia 3 de setembro, o grupo armado promoveu uma emboscada contra um comboio em Borno, principal foco da insurgência, no nordeste do país, ligado ao candidato ao governo estadual pela legenda governista Congresso de Todos os Progressistas (APC). Não houve registro de mortos ou feridos.
Essas crises e toda a insegurança no Sahel, destaca o ativista, são problemas muito graves e impulsionadores de deslocamentos, aumentando a vulnerabilidade das populações e a busca pela emigração irregular. “Quando o país não é seguro, não há condições favoráveis para conseguir emprego”, lembra.
Em relação à Líbia, ele aponta as dificuldades de se fazer um trabalho de ativismo adequado. “Tivemos vários ativistas desaparecidos, sequestrados e mortos”, relata, ao contar o caso de um amigo sudanês que precisou sair do país, onde mantinha uma organização de direitos humanos, por questões de segurança.
Segundo o ativista, o governo nigeriano vem lutando contra o terrorismo desde 2011. “O terrorismo não está presente apenas na Nigéria, muitos vêm de países vizinhos e se escondem nos desertos e florestas”, aponta, ao relatar que o governo vem obtendo avanços graças ao apoio da sociedade civil.
“As pessoas estão se manifestando e, agora, quando encontram uma pessoa suspeita, elas denunciam. O combate ao terrorismo não é algo que o governo possa fazer sozinho. Isso depende também dos cidadãos. Quando vir algo suspeito, tem que denunciar”, afirma.
Obinna também destaca a importância da parceria entre governo e sociedade civil. “A NAPTIP, a Organização de Combate ao Tráfico de Pessoas (ATIP, por sua sigla em inglês), a Rede da Sociedade Civil para Migração e Desenvolvimento (CSO NetMADE) e muitas outras organizações atuam juntas em várias atividades, como workshops, seminários, campanhas televisivas”, aponta.
A Organização das Nações Unidas (ONU) também tem atuação, relata. “Nós somos trazidos de volta pelo trabalho feito através da OIM, do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e da Agência da ONU para Refugiados (ACNUR)”, frisa. Ele conta que essas organizações fornecem financiamento e promovem atividades, como treinamentos e seminários, dentro e fora da África. “Eu participei de muitos treinamentos da OIM sobre tráfico de pessoas, apoio psicossocial e saúde mental, prevenção da exploração e abuso sexual”, relata.
O Brasil também enfrenta as redes globais de tráfico humano. Entre 2025 e junho de 2026, o Ministério Público Federal (MPF) denunciou 79 pessoas, em casos que envolveram 299 vítimas identificadas no país. No mesmo período, outras 137 pessoas foram denunciadas por contrabando de migrantes, elevando para 216 o número de denunciados pelos dois crimes.
Assim como alerta a entidade nigeriana, o Relatório Nacional sobre Tráfico de Pessoas de 2025 também identificou o aliciamento de pessoas para trabalhar em esquemas de fraudes financeiras no Sudeste Asiático, na América do Sul e na África, além do recrutamento para trabalhar em países em guerra.
O Camboja é apontando como o principal destino dos brasileiros traficados, concentrando 52% dos casos, seguido por Israel, Itália, Bélgica e Albânia. A exploração sexual representa 43% dos casos, superando, pela primeira vez, o trabalho escravo como principal finalidade do tráfico humano.
Estimulado por estes números, Obinna também deixou uma mensagem aos brasileiros, em particular aos jovens, para que fujam da migração irregular como caminho para uma vida melhor. “A grama nem sempre é mais verde do outro lado, ela será sempre mais verde onde você a regar. Então, por mais humilde que seja sua casa, é a sua casa. Quando você torna sua casa muito confortável, você pode dormir muito bem nela”, afirma.
“Se você está pensando em ir para os Estados Unidos, talvez passando por Panamá e México, você não tem ideia do que esperar. No Brasil, você nunca será estrangeiro sendo brasileiro. Mas quando você vai para os Estados Unidos, você se torna estrangeiro”, acrescenta o ativista.
“Se você conseguir um emprego, mesmo que seja pouco, a constância lhe dará o sustento diário. A consistência te levará ao patamar que você deseja e você poderá tornar seu lar perfeito. Por mais rico que você seja na Europa ou na América do Norte, você nunca será estadunidense ou europeu, você continuará sendo brasileiro. Então, torne seu lar perfeito e você o desfrutará”, conclui.