Golpe em Guiné-Bissau ‘parece mudança de liderança interna sem ruptura ideológica’, afirma analista
Segundo professor João Raphael Ramos dos Santos, da UFRJ, militares que tomaram o poder no país africano foram nomeados pelo presidente deposto Sissoco Embaló e prometem seguir sua agenda de reformas, apesar de o manterem preso
A junta militar que tomou o poder em Guiné-Bissau anunciou na última quarta-feira (10/12) que pretende colocar em prática algumas reformas econômicas e sociais que o presidente deposto Sissoco Embaló (2020-2025) não realizou durante o seu mandato
A declaração é mais um indício de que o grupo encabeçado pelo general Horta Inta-A pretende se estabelecer como novo governo regular do país, e não como administração transitória para, posteriormente, entregar o poder a outro líder civil.
A junta militar bissau-guineense tomou o controle do Palácio de Governo do país em 26 de novembro, em meio à apuração das eleições presidenciais cuja jornada eleitoral tinha ocorrido três dias antes, em 23 de novembro.
A ação foi considerada como um golpe de Estado não só por partidários do presidente deposto – representante do Movimento de Alternância Democrática (Madem) – como também do candidato opositor Fernando Dias da Costa – líder do Partido Africano para Independência de Guiné-Bissau e Cabo Verde (PAIGC).
A oposição acusou os governistas pelo levante, afirmando que a ação seria uma tentativa de manter Embaló no poder. Um dos argumentos é o fato de que a tomada do Palácio aconteceu um dia antes da data estipulada pelas autoridades eleitorais para o anúncio do resultado final das eleições – vale lembrar que entre os dias 23 e 26 de novembro, tanto Embaló quanto Dias da Costa reivindicaram uma suposta vitória nas urnas.
O cientista político João Raphael Ramos dos Santos, mestre e doutorando em Educação pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com pós-graduação em História da África pelo Instituto Pretos Novos (IPN), afirmou que “não há certezas sobre o verdadeiro caráter dessa ação dos militares, também porque não há indícios claros de que houve alguma interferência estrangeira, ao menos até agora”.
“O quadro é extremamente problemático mais ainda em andamento, em um país com histórico de instabilidade, com instituições fracas, uma tradição de interferência armada, o que mina a democracia de um dos países mais pobres do mundo”, enfatizou o cientista político.
Para o acadêmico, o que acontece em Guiné-Bissau “parece mais uma mudança de liderança interna do que uma ruptura ideológica”.
“Embaló estava no poder desde 2020 e vinha encabeçando um governo marcado pela instabilidade, em um país que já tem divisões muito acirradas entre etnias e partidos políticos, por isso, o que acontece agora parece se tratar de uma reconfiguração promovida por setores dos altos círculos militares e não uma mudança de posição ideológica”, frisou o analista político, que também é criador de conteúdo conhecido nas redes sociais como Afroliterato.

General Horta Inta-A, com o braço direito levantado, é o líder da junta militar de Guiné-Bissau
Xinhua
Reações pós-golpe
Após a tomada do poder em Guiné-Bissau pela junta militar, Embaló deu declarações descrevendo os eventos como golpe de Estado. O então mandatário acabou sendo preso horas depois.
O PAIGC e seu candidato presidencial, Fernando Dias da Costa, também qualificaram a ação dos militares como um golpe de Estado e convocaram protestos em todo país para exigir a publicação dos resultados eleitorais e o reconhecimento de vitória do líder opositor.
Dias da Costa foi um dos poucos candidatos que conseguiu participar das eleições em Guiné-Bissau. Outros representantes opositores foram impedidos previamente pelas autoridades eleitorais.
Um dos exemplos é o de Domingos Simões Pereira, candidato original do PAIGC, que, após ser barrado, deu lugar à candidatura de Dias da Costa.
A ação dos militares também foi considerada como um golpe de Estado por organizações como a União Africana e Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) – esta última era responsável pela principal missão de observadores que acompanhou as eleições presidenciais no país.
A Organização das Nações Unidas (ONU) afirmou que não reconhece o governo da junta militar em Guiné-Bissau e instou os militares a restaurarem a ordem constitucional no país.
O professor Ramos dos Santos recorda que Guiné-Bissau tem quatro golpes de Estado bem sucedidos registrados em sua história, cuja independência foi declarada em setembro de 1973 e reconhecida por Portugal (país colonizador) em setembro de 1974. “Além de outras várias tentativas que não deram certo”, completou.
CEDEAO ou Aliança do Sahel?
O professor João Raphael Ramos do Santos descartou qualquer relação entre o golpe de Estado em Guiné-Bissau e os levantes militares em Burkina Faso, Mali e Níger, países que hoje conformam a chamada Aliança do Sahel.
“Há diferenças claras em motivação e contexto. Os levantes no Sahel são motivados por insatisfação com ocupação francesa insatisfação com ataques de grupos jihadistas em diversas regiões dos países, e mais importante: tinha apoio amplo da população, o que não ocorre agora em Guiné-Bissau, onde não vemos qualquer sinal de apoio popular ao movimento dos militares”, analisou Ramos dos Santos.
O analista político também ressaltou o caráter contracolonial dos governos da Aliança do Sahel, o que difere do caso da junta militar bissau-guineense, “que não parece ter apoio de países estrangeiros, mas que parece estar mais interessada nesse reconhecimento do Ocidente, ou de organizações como a CEDEAO, do que em uma aproximação com os países do Sahel”.
Com informações de Público.pt.























