América Latina e política internacional
Alinhada aos EUA, Colômbia reconhece soberania do Marrocos sobre Saara Ocidental
Contrariando entendimento da ONU, mudança ocorre horas após posse de Espriella e em paralelo a declarações semelhantes de Washington
O novo governo da Colômbia anunciou na última sexta-feira (07/08) que reconhece a soberania do Marrocos sobre o Saara Ocidental, em uma mudança significativa na política externa adotada pelo país nos últimos anos.
A decisão foi comunicada horas após a posse do presidente Abelardo de la Espriella, durante uma reunião entre autoridades colombianas e o chanceler marroquino, Naser Bourita.
O reconhecimento da soberania marroquina ocorre em meio a uma série de acontecimentos envolvendo o país norte-africano.
Entre eles, estão a construção de uma base militar marroquina em Gaza, em projeto liderado pelo genro de Trump; a crise migratória em Ceuta; e a tentativa de parlamentares dos EUA de classificar a Frente Polisário, que luta pela independência do território, como grupo terrorista.
O encontro reuniu o novo vice-presidente colombiano, José Manuel Restrepo, o ministro das Relações Exteriores, Omar Bula Escobar, e Bourita, que esteve em Cali para participar da cerimônia de posse.

A mudança de posição diplomática acontece apenas poucas horas após a posse do novo presidente colombiano.
Cacillería Colombia.
Segundo a chancelaria colombiana, a decisão pretende estabelecer uma nova etapa nas relações entre os dois países e ampliar a cooperação bilateral.
“Com esta decisão, a Colômbia busca revitalizar sua relação com o Marrocos sobre uma visão de longo prazo”, afirmou o Ministério das Relações Exteriores colombiano.
A mudança reverte a política adotada durante o governo de Gustavo Petro. Em 2022, no início de sua administração, a Colômbia restabeleceu relações diplomáticas com a República Árabe Saaraui Democrática, que haviam sido interrompidas em 2001.
O reconhecimento da soberania marroquina também aproxima Bogotá da posição defendida por Rabat e por Washington.
O vice-presidente Restrepo afirmou que os dois países pretendem iniciar uma nova etapa nas relações, com maior aproximação política e econômica, incluindo negociações para um possível Tratado de Livre Comércio (TLC) e a ampliação dos investimentos marroquinos na Colômbia.
O chanceler Bula classificou o reconhecimento da soberania marroquina sobre o Saara Ocidental como uma das principais decisões do processo de aproximação entre os dois governos.
Bourita, por sua vez, afirmou que a decisão colombiana representa um marco nas relações bilaterais. O governo marroquino considera o reconhecimento uma mudança histórica e espera que a medida impulsione a cooperação entre os dois países.
Luta anticolonial
Antiga colônia espanhola, o Saara Ocidental é disputado desde a retirada da Espanha, em 1975. Marrocos passou a controlar a maior parte do território, enquanto a Frente Polisário reivindica a independência da região.
Em 2007, Rabat apresentou às Nações Unidas uma proposta de autonomia para o Saara Ocidental sob soberania marroquina. A ONU, por sua vez, considera o território não autônomo e mantém a questão vinculada ao direito de autodeterminação de sua população.
A mudança colombiana retira Bogotá do grupo de países que mantêm relações com a República Árabe Saaraui Democrática e representa um novo alinhamento diplomático em uma das principais disputas territoriais do norte da África.
Frente Polisário como terrorista
A mudança colombiana ocorre em um momento de crescente aproximação dos Estados Unidos com a posição de Marrocos sobre o Saara Ocidental.
Nesta semana, os deputados norte-americanos Ronny Jackson, republicano, e Josh Gottheimer, democrata, apresentaram uma proposta para que o Departamento de Estado avalie a possibilidade de incluir a Frente Polisário na lista de organizações terroristas estrangeiras.
O movimento lidera a reivindicação pela independência do Saara Ocidental e contesta a soberania marroquina sobre o território.
Os parlamentares argumentam que a organização representa uma ameaça à segurança dos Estados Unidos e de seus aliados e mencionam supostos vínculos com a Guarda Revolucionária do Irã, acusação rejeitada pela Frente Polisário.
A proposta se soma a outras iniciativas apresentadas no Congresso norte-americano em favor da posição de Rabat. No início de agosto, o presidente Donald Trump também reafirmou o reconhecimento dos Estados Unidos da soberania marroquina sobre o território e defendeu o plano de autonomia apresentado por Rabat como solução para a disputa.
Base marroquina em Gaza
O Conselho da Paz de Donald Trump, órgão criado para coordenar a reconstrução de Gaza e liderado operacionalmente por seu genro, Jared Kushner, concedeu em 06 de agosto o primeiro contrato de construção no enclave. Trata-se de uma instalação militar para abrigar inicialmente cerca de 150 soldados marroquinos.
A iniciativa ocorre no âmbito do plano de reconstrução proposto por Trump para o território. Segundo dados da ONU, cerca de 85% dos edifícios e da infraestrutura do enclave foram danificados ou destruídos, enquanto pelo menos 1 milhão de pessoas ainda necessitam de moradia permanente.






















