2º turno no Chile: Jeannette Jara adota discurso moderado contra José Kast
Candidata do Partido Comunista tenta atrair apoio do centro, enquanto ultradireitista admirador declarado de Pinochet lidera pesquisas eleitorais
Em 14 de dezembro, os chilenos elegerão seu próximo presidente no segundo turno das presidenciais. Os candidatos apresentaram propostas muito diferentes para a governança do país andino e estão posicionados ideologicamente em extremos opostos do espectro. No primeiro turno, Jeanette Jara, membro do Partido Comunista do Chile (PCC) e parte da coalizão de centro-esquerda Unidad por Chile, obteve 26,86% dos votos. Por outro lado, José Antonio Kast, da extrema direita, obteve 23,93% dos votos válidos, não muito atrás de Jara.
Em terceiro lugar ficou o centrista Franco Parisi com 19,71%, seguido pelo libertário de direita Johannes Kaiser (13,94%) e pela conservadora Evelyn Matthei (12,47%).
Assim, ao entrar no segundo turno, muitos analistas previram que a direita conseguirá reunir um grande número de votos, ainda que de forma fragmentada. Mesmo assim, Jara, que construiu um discurso extremamente moderado, poderia atrair votos do centro político que resiste às visões ultraliberais e conservadoras de Kast. Tudo isso para dizer que a história ainda não foi escrita e ainda há espaço para surpresas.

Jeannette Jara e José Antonio Kast vão disputar segundo turno das presidenciais no Chile, em 14 de dezembro
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Propostas social-democratas de Jara
Jara declarou que continuará com alguns aspectos perseguidos pela coalizão de centro-esquerda e aprofundará outros. Sua proposta está enquadrada em um fortalecimento do Estado para aliviar e resolver alguns dos problemas dos mais necessitados do Chile, sem que isso signifique sacrificar a aliança que ela propõe ao setor privado.
Em termos econômicos, ela propõe um salário mínimo de 750.000 pesos (cerca de USD 800) por mês para os trabalhadores, garantindo assim uma renda fixa para seus domicílios. Ela também propôs o “Consumo Vital de Eletricidade” para oferecer tarifas reduzidas que melhorem a economia das famílias mais carentes. Também busca fortalecer a negociação coletiva sindical e sustentar o progresso feito na reforma da previdência que sua coalizão aprovou recentemente.
Em termos de política interna, ela propõe levantar o sigilo bancário em várias contas para combater a lavagem de dinheiro, um problema crescente no Chile. Ela também afirmou que vai endurecer o controle de armas para reduzir o poder que alguns grupos criminosos ligados ao tráfico de drogas conquistaram no Chile. Ao contrário de Kast, sua proposta de imigração não prevê a expulsão em massa de estrangeiros, mas sim o registro temporário de imigrantes por seis meses. No entanto, ela também afirmou que fortalecerá os controles nas fronteiras com a Polícia Federal e as Forças Armadas, se necessário.
No campo da diplomacia internacional, Jara adotou uma postura muito pragmática, prometendo melhorias nas relações comerciais com os Estados Unidos, mas também com a China, principal parceiro comercial do Chile. Além disso, após perguntas persistentes da imprensa chilena, ela afirmou considerar que não há democracia na Venezuela e em Cuba, o que agradou a vários atores do centro político, mas também deixou vários líderes de seu próprio partido, o PCC, desconfortáveis.
Propostas neoliberais de Kast
Por outro lado, Kast articulou sua campanha política em torno das críticas à atual administração Boric, chamando-a de ineficiente e corrupta, e em torno de um discurso nacionalista de direita anti-imigração.
Economicamente, Kast, um admirador declarado de Javier Milei, propõe uma redução drástica no tamanho do Estado. Ele prometeu uma redução recorde de USD 6 bilhões nos primeiros 18 meses de seu possível governo. A essa medida somada está a clássica equação neoliberal: reduzir a carga tributária sobre o grande capital de 27% para 23%. Além disso, ele propôs maiores benefícios fiscais para empresas que contratam trabalhadores que possam estar atuando na economia informal.
Quanto à sua política de segurança, Kast, também um admirador declarado da ditadura de Pinochet (1973-1900), propõe aumentar o número de policiais e seu financiamento, além de construir várias prisões de máxima segurança. Seu plano “Escudo de Fronteira” promete fechar as passagens de fronteira e deportar, em massa, os imigrantes indocumentados sem demora, uma medida que tem recebido muito apoio da direita chilena.
Essa última proposta tem sido vista por vários diplomatas chilenos e ex-ministros das Relações Exteriores como motivo de preocupação devido às tensões que pode gerar com países vizinhos como Peru e Bolívia, de onde vêm muitos migrantes. Além disso, com um discurso populista de direita severo, ele declarou sua rejeição e repúdio dos governos da Venezuela, Cuba e Nicarágua. Dessa forma, é esperada uma diplomacia abertamente alinhada com os interesses dos EUA.
O que dizem as pesquisas?
Embora a campanha eleitoral do segundo turno tenha começado formalmente há poucos dias, pesquisas divulgaram números iniciais que preveem o tom da próxima campanha.
O veículo de mídia RTVE apresentou uma média das pesquisas mais importantes e afirma que Kast teria cerca de 51,1% dos votos, enquanto Jara mal alcançaria 34,9% se as eleições fossem realizadas hoje.
Assim, Jara precisa lutar voto por voto para aumentar o apoio dos outros candidatos, enquanto Kast tem mais chances de ganhar força, especialmente por um voto claramente marcado por posições ideológicas (embora mais por rejeição e antipatia do que por identificação pessoal).
Ainda é cedo para fornecer números definitivos, mas analistas alertam que a campanha do segundo turno será feroz e cheia de ataques pessoais, sugerindo que propostas econômicas, políticas e diplomáticas podem ficar em segundo plano diante de uma campanha imersa em paixões pessoais e ódio.
























