Após cinquenta anos de ditadura militar, Argentina vive ‘era da pós-democracia’, diz especialista
Segundo Mario Santucho, governo de Javier Milei ‘se esforça em negar’ violações aos direitos humanos e revive ideias do regime ‘especialmente na economia’
Nesta terça-feira (24/03), a Argentina recorda 50 anos do dia em que ocorreu o seu mais recente golpe de Estado cívico-militar, que instalou no poder a ditadura liderada pela junta militar presidida pelo general Jorge Rafael Videla.
Segundo o jornal El Destape, o governo do presidente de extrema direita Javier Milei tentará se aproveitar da data, conhecida no país como Dia da Memória, para insistir na sua narrativa da “Teoria dos Dois Demônios”, na qual justifica as violações aos direitos humanos cometidas durante o regime e repudia as organizações que resistiram à ditadura, que o mandatário e muitos dos seus aliados chamam de “terroristas” – enquanto evitam usar o termo “terrorismo de Estado” para qualificar as torturas e o extermínio de opositores.
A narrativa se concentra na consigna de “memória completa” defendida por Milei, que critica as manifestações das organizações sociais chamando-as de “versão dos esquerdistas”. Tal retórica satisfaz setores próximos ao mandatário que defendem o regime militar.
Essa contradição na qual o atual governo argentino se move quando trata das violações aos direitos humanos também serve para justificar os abusos cometidos na sua própria gestão, marcada por forte repressão a organizações que se manifestam contra os projetos impulsionados pela Casa Rosada.
Segundo o jornalista Mario Santucho, diretor da revista Crisis, “a Argentina está passando por um retrocesso sem precedentes em termos de direitos humanos, pelo menos desde o retorno da democracia em 1983”.
“O governo da extrema direita reprime protestos com um nível de violência nunca vista desde a ditadura, nega completamente o direito de protestar e considera a justiça social uma abominação. Acho que rompeu completamente os laços com o próprio conceito de direitos humanos, que já não reconhece”, agrega Santucho.
O jornalista enfatiza que a lógica “completamente mercantil” com a qual o governo age abandonou premissas baseadas nos direitos dos cidadãos e adotou uma postura baseada na ideia de que aqueles que se opõem às iniciativas do governo “devem ser tratados como inimigos e, portanto, sujeitos à violência estatal”.
“É por isso que chamamos o regime sob o qual vivemos de ‘pós-democracia’, que é precisamente a suspensão dos direitos humanos”, definiu Santucho.
Revivendo projeto econômico
Segundo o jornalista, outro fator que relaciona o atual governo de Javier Milei com o período da última ditadura argentina é sua similaridade no que diz respeito ao projeto econômico.
“Milei está claramente revivendo ideias daquela época, especialmente as ideias econômicas: neoliberalismo, centralidade do mercado e submissão aos poderes econômicos e ao imperialismo”, enfatizou.
Santucho analisa como um país como a Argentina, que teve governos progressistas que “impulsionaram uma forte inclusão social e significativa redistribuição de renda”, terminaram apoiando “uma proposta negacionista e que simpatiza com o modelo econômico e a ideologia da ditadura”.
Para ele, esse cenário não é contraditório: “o voto em Milei tem fundamento, porque o modelo kirchnerista foi se deteriorando gradualmente, gerando raiva e descontentamento que foram capitalizados pela extrema direita”.
“A ascensão do governo libertário deve-se precisamente a esse alinhamento com o descontentamento social que surgiu contra os governos progressistas, que mantiveram estruturas injustas e deixaram muitas pessoas para trás”, analisa.

Movimentos sociais preparam atos para recordar os 50 anos do golpe de Estado na Argentina
Telefe
Esquerda em recomposição
Diante desse quadro, Santucho considera que o desafio da esquerda para se reerguer da derrota para Milei passa por trilhar um caminho que “vai além da clássica escolha entre pessimismo e otimismo”.
“O progressismo sofreu uma derrota política cuja magnitude ainda não compreendemos totalmente. Sabemos que não se trata de uma mera derrota eleitoral que possa ser revertida com uma eventual vitória nas urnas no futuro. Há uma derrota política mais fundamental, que afeta o repertório de narrativas, as formas de governo e os programas simbólicos. A questão que permanece em aberto é se estamos diante de uma derrota de natureza histórica”, observa.
Segundo o jornalista, o processo de reconstrução da força social dos setores progressistas requer, entre outras coisas, “novos atores capazes de enfrentar o desafio de governar sob a extrema direita, que possam politizar as expectativas que estão sendo representadas, ou pelo menos sintonizadas, pela extrema direita”.
“Esses possíveis novos atores devem começar percebendo que vem surgindo uma forte insarisfação com este governo de Milei, que não resolve os problemas senão que os agrava, observar como essa insatisfação cresce, se transforma em raiva, e ver se ela pode ser canalizada de alguma forma, catalisada e expressada politicamente por novas manifestações da esquerda”, completou.
Sobre os atos programados para esta terça-feira, Santucho acredita que devem reproduzir a mesma massividade observada em anos anteriores, mas que “a questão é saber se pode ser um ponto de inflexão, não para iniciar uma solução progressista para a situação atual, porque isso não será tão fácil de reverter, mas pelo menos que comece a gerar uma recomposição dos setores de esquerda, algo que depois terá que amadurecer”.
Por outro lado, o jornalista considera que o governo de Milei chega a esse aniversário do golpe “com índices de desaprovação crescentes e uma crise econômica que começa a ser sentida de forma muito mais concreta pela população”.
Com informações de El Destape.























