Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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Desde sua publicação, em 17 de dezembro, o Decreto Supremo 5503 vem sendo denunciado por movimentos populares e organizações sindicais como o marco de uma reforma neoliberal na Bolívia.

Editado pelo governo de Rodrigo Paz sob o argumento de enfrentar a crise fiscal, o decreto elimina subsídios aos combustíveis, facilita a liberação dos controles ambientais e legais, e concentra no Executivo decisões estratégicas sobre exploração de recursos naturais, desrespeitando o papel do Legislativo. A medida provocou uma forte reação social e deflagrou uma greve geral por tempo indeterminado no país.

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Na semana do Natal, a Central Operária Boliviana (COB) passou a liderar uma série de mobilizações nacionais, com apoio de sindicatos do setor mineiro, professores e médicos. Os atos se intensificaram após a confirmação do aumento de 86% no preço da gasolina e de 160% no diesel.

Mesmo durante os feriados, os protestos se mantêm ativos, com greves de fome, marchas e ocupações. Os manifestantes afirmam que não se trata apenas de um “gasolinaço”, mas de um projeto de desmonte do Estado, que coloca os interesses do mercado acima dos direitos sociais e da soberania nacional.

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O conteúdo da norma vai além do fim da política de subsídios. Com 121 artigos, o decreto inaugura um regime jurídico extraordinário voltado à liberalização da economia, com a adoção de medidas como o silêncio administrativo positivo e a chamada via rápida (“fast track”) para aprovação de projetos de mineração, agroindústria, energia e infraestrutura, inclusive em territórios indígenas e áreas protegidas, num prazo de apenas 30 dias.

Na prática, trata-se de um pacote que diminui o papel do Estado como regulador e flexibiliza os mecanismos de proteção ambiental e de controle democrático.

Ao justificar a medida, o governo fala em romper com o chamado “Estado tranca”, termo usado para caracterizar a estrutura estatal como entrave à modernização e à atração de investimentos.

O decreto, porém, consolida uma nova ordem institucional que prioriza a segurança jurídica de empresas privadas, inclusive estrangeiras, em detrimento da função pública do Estado. Direitos coletivos e obrigações constitucionais passam a ser tratados como obstáculos ao crescimento, e não como pilares de uma democracia plurinacional.

Organizações sindicais mantêm onda de protestos na Bolívia desde 17 de dezembro
Central Operária Boliviana (COB)

A seguir, o Brasil de Fato apresenta um resumo em 19 pontos com os principais elementos do Decreto Supremo 5503 (leia na íntegra aqui):

O que diz o Decreto Supremo 5503, de Rodrigo Paz:

  1. O texto do decreto justifica sua edição ao enquadrar a conjuntura nacional como de crise econômica, financeira e social. Entre os argumentos, cita desabastecimento histórico de combustíveis, alta da inflação e denúncias de corrupção em estatais.
  2. Declara a existência de “emergência econômica, financeira, energética e social” em todo o território boliviano.
  3. Define como objetivo um pacote de medidas excepcionais voltadas à estabilização macroeconômica, reforço da liquidez e das reservas, garantia de abastecimento de combustíveis e energia, reativação da produção, do investimento e do emprego, além da “desburocratização” do Estado.
  4. Autoriza, de forma extraordinária, o Banco Central da Bolívia a operar instrumentos para estabilização do balanço de pagamentos – incluindo linhas de liquidez e swaps cambiais –, além de ajustar seus regulamentos internos para executar essas medidas.
  5. Cria o Regime Extraordinário de Proteção e Promoção de Investimentos, aplicável tanto a investidores nacionais quanto estrangeiros, com promessas de segurança jurídica e previsibilidade regulatória.
  6. Garante estabilidade jurídica e tributária por até 15 anos para os investimentos enquadrados no regime, cobrindo aspectos como tributos, tarifas, comércio exterior e regras cambiais (repatriação e uso de divisas).
  7. Autoriza a assinatura de Contratos de Investimento com força normativa, aprovados por decreto supremo e vinculantes entre as partes. Esses contratos devem conter cláusulas mínimas, como cronograma de execução, incentivos fiscais e mecanismos de resolução de controvérsias.
  8. Institui um procedimento de aprovação acelerada de projetos estratégicos, denominado fast track, com tramitação concentrada, prazos peremptórios e aplicação da regra de silêncio administrativo positivo.
  9. Estabelece prazo máximo de 30 dias para a aprovação técnica de projetos submetidos ao fast track e prevê responsabilização de autoridades que não cumprirem esse prazo.
  10. Cria a Ventanilla Única de Investimentos Estratégicos (VUIE), vinculada ao Ministério das Relações Exteriores, para articular e supervisionar políticas e processos de investimento.
  11. Abre um regime extraordinário, voluntário e temporário, de regularização e repatriação de capitais, com o objetivo de ampliar a base de ativos formalizados e reforçar a liquidez e as reservas do país.
  12. Estabelece que esse regime protegerá apenas os ativos de origem lícita, excluindo bens provenientes de crimes como narcotráfico, terrorismo, tráfico de pessoas e corrupção, conforme descrito no texto.
  13. Define incentivos tributários para os capitais regularizados: alíquota zero se os recursos permanecerem por 24 meses no sistema financeiro nacional ou forem destinados ao investimento produtivo; 5% de alíquota caso haja retirada antes desse prazo.
  14. Cria incentivo ao consumo de produtos nacionais, ampliando o abatimento do RC-IVA. A norma prevê que as compras desses produtos poderão gerar um crédito adicional de até 20% do IVA correspondente, com validade até 31 de dezembro de 2027.
  15. Institui o SIETE-RG, um regime simplificado de tributação para pequenos empreendedores em transição, que unifica impostos. O teto anual de receita é de até 250 mil bolivianos e a alíquota de 5% é aplicada sobre o faturamento bruto, com pagamento bimestral.
  16. Elimina a exigência de autorização prévia de importação, emitida pelo Serviço Nacional de Verificação de Exportações (Senavex), para determinadas categorias de produtos, com o argumento de agilizar o comércio exterior.
  17. Libera as exportações agropecuárias e agroindustriais ao extinguir a exigência do Certificado de Abastecimento Interno e Preço Justo como requisito prévio. O texto menciona produtos como milho, sorgo, açúcar e carne. O monitoramento do abastecimento interno permanece previsto.
  18. No setor de combustíveis e energia, fixa preços máximos de venda ao consumidor por um período transitório de seis meses: gasolina especial a 6,96 bolivianos por litro, diesel a 9,80, e gasolina premium a 11,00. Após esse prazo, os valores serão calculados com base em metodologia a ser definida por regulamento.
  19. No campo social, institui o pagamento do Bono Juancito Pinto em 2026, no valor de 300 bolivianos por estudante, com critérios de execução a serem regulamentados.