Terça-feira, 6 de outubro de 2026
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O vice-ministro das Relações Exteriores de Cuba, Carlos Fernández de Cossío, afirmou que o governo cubano não considera mais a Venezuela um país aliado. A declaração foi dada ao jornalista David Gura, da Bloomberg, em entrevista divulgada nesta sexta-feira (25/09), durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York.

Questionado se Caracas ainda era considerada uma aliada de Havana, Cossío respondeu que a Venezuela continua sendo um país “amigo”, mas fez uma distinção em relação ao vínculo político que marcou as relações entre os dois governos nas últimas décadas. “Aliado é uma palavra forte demais”, afirmou o diplomata, evitando criticar diretamente o governo interino de Delcy Rodríguez, mas indicou uma importante mudança no histórico relacionamento entre os países.

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O comentário foi realizado após o entrevistador mencionar a mudança na relação entre Caracas e Washington desde o sequestro de Nicolás Maduro e sua esposa, Cilia Flores, em janeiro, e a aproximação da presidente interina venezuelana com o governo de Donald Trump. Desde então, Delcy passou a estreitar relações com a Casa Branca e a negociar questões econômicas, energéticas e políticas com a administração republicana.

Na esteira da 81ª sessão da ONU, Delcy se reuniu com Trump em Nova York e afirmou que os dois governos discutiram o fortalecimento das relações bilaterais e uma agenda de cooperação em áreas como energia, mineração e segurança. O encontro foi apresentado pela presidente interina como o início de uma nova etapa na relação entre os países.

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Relação construída por Chávez e Fidel

A aproximação entre Cuba e Venezuela ganhou dimensão estratégica a partir da chegada de Hugo Chávez à Presidência venezuelana, em 1999, e de sua aproximação com Fidel Castro. Os dois governos estabeleceram uma relação baseada em cooperação política, econômica e social.

Um dos principais acordos resultou na troca de petróleo venezuelano por serviços cubanos, especialmente na área da saúde. A Venezuela passou a fornecer petróleo e combustíveis a Cuba, enquanto milhares de profissionais cubanos trabalharam em programas sociais e de saúde no país sul-americano. Estudos sobre a relação entre os dois governos descrevem o acordo como uma das bases da aliança construída por Havana e Caracas.

A relação permaneceu durante o governo de Maduro e se tornou particularmente relevante para Cuba diante da crise econômica venezuelana e das dificuldades de Havana para garantir o abastecimento de combustível por conta de bloqueios e sanções dos EUA contra ambos os países.

Antes da captura de Maduro, a Venezuela ainda era o principal fornecedor de petróleo de Cuba. A mudança na relação entre os dois países começou a se tornar concreta após a chegada de Delcy Rodríguez ao governo interino. Em fevereiro, a Reuters informou que assessores de segurança e médicos cubanos estavam deixando a Venezuela em meio à pressão de Washington para que Caracas reduzisse os vínculos com Havana.

E, durante a invasão dos Estados Unidos a Caracas para sequestrar Maduro e Cilia, na madrugada de 3 de janeiro, o governo cubano aponta que 32 cidadãos cubanos foram mortos.

Sanções e as reformas econômicas

A declaração de Cossío sobre a Venezuela foi dada na mesma entrevista em que o diplomata criticou as sanções econômicas dos Estados Unidos contra Cuba. Segundo ele, a pressão de Washington dificulta as reformas econômicas conduzidas pelo governo cubano, incluindo mudanças destinadas a ampliar a participação privada na economia.

“Se os Estados Unidos reduzirem a pressão, essas transformações em Cuba podem avançar muito e se tornar verdadeiramente irreversíveis, que é nosso objetivo e, em teoria, o que os Estados Unidos querem que aconteça”, afirmou.

O vice-chanceler também disse que parte dos cubanos espera que uma mudança política em Washington possa aliviar a pressão sobre a ilha, mas classificou essa expectativa como “wishful thinking”, expressão que pode ser traduzida como “pensamento desejoso” ou “esperança sem base concreta”.

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