Em meio à intensificação do bloqueio, Cuba amplia uso de fontes próprias de energia, afirma presidente
Segundo Díaz-Canel, Havana tem 'estratégia abrangente para transformação da matriz energética' que reduz dependência de exportações; entenda como funciona setor da ilha
O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel Bermúdez, declarou nesta quinta-feira (05/02) que a ilha socialista possui estratégias para ampliar o uso de suas próprias fontes de energia e reduzir a dependência de importações, em meio ao endurecimento do bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos.
Segundo o mandatário, o Conselho de Ministros do governo cubano aprovou diretrizes para um plano de contingência destinado a combater as tentativas estadunidenses de estrangular a economia de Havana. De acordo com sua declaração, “restrições temporárias ao consumo e maior conservação de energia serão necessárias”, mas não serão permanentes, e sim “ajustes às condições reais do país”.
Ele enfatizou que a resposta do Estado cubano se baseia em uma estratégia abrangente para a transformação da matriz energética, que inclui: a recuperação da capacidade de geração de eletricidade, o uso de suas próprias fontes, o aumento das capacidades de armazenamento afetadas após o acidente na base de superpetroleiros de Matanzas, o aumento da produção nacional de petróleo bruto, a geração de eletricidade a partir do gás natural associado ao petróleo e o desenvolvimento de sua própria frota de navios.
Em paralelo, Cuba iniciou a construção de parques fotovoltaicos, dos quais 49 foram concluídos em 2025, o que ajudou a reduzir o déficit de eletricidade durante o dia. Essa estrutura é responsável por 38% da produção de energia do país atualmente e auxiliou o défict em meio à escassez de combustível.
Díaz-canel também anunciou que sisteas fotovoltaicos estão sendo instalados em resiências, centros de atendimento prioritário (maternidades, lares de idosos, centros para a terceira idade, policlínicas, abrigos para crianças vulneráveis e agências bancárias) e em demais locais de educação e saúde no país.
Durante a coletiva de imprensa, o presidente cubano também revelou que novos investimentos estão sendo desenvolvidos em capacidade de geração de energia eólica e que testes para refinar o petróleo bruto cubano e obter derivados, bem como a aquisição de motores capazes de usar esse combustível foram bem-sucedidos.
O líder cubano enfatizou que nenhuma dessas ações, por si só, resolverá o problema imediatamente , mas ressaltou que a situação “não é mais grave graças aos avanços na mudança da matriz energética”.
Intensificação do bloqueio pelos EUA
A declarações de Díaz-Canel surgem em um contexto de crescente ofensiva diplomática de Cuba em fóruns internacionais, nos quais o país tem denunciado sistematicamente os impactos econômicos, sociais e humanitários do bloqueio imposto pelos EUA, em vigor há mais de seis décadas e descrito por Havana como uma “política de punição coletiva” contra seu povo.
Cuba também denunciou as medidas coercitivas unilaterais dos Estados Unidos como violações do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, caracterizando-as como formas de “guerra econômica” destinadas a provocar agitação social e desestabilizar a ordem constitucional do país. Essas denúncias foram acompanhadas por acusações de pressão e ameaças contra terceiros países para enfraquecer o consenso internacional contra o bloqueio.
Díaz-Canel lembrou que seu país “não recebe uma gota de combustível desde 3 de dezembro”, situação que tem um impacto diretamente a saúde pública, economia, transportes, geração de energia elétrica e sobrevivência diária do país. Apesar disso, garantiu que seu governo está trabalhando para minimizar os efeitos dessa agressão, afetando a população o mínimo possível e permitindo também a reativação da economia.

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Miguel Díaz-Canel Bermudez/X
O presidente cubano questionou as implicações humanas da política estadunidense: “o que significa impedir que o combustível chegue a um país?”, perguntou, antes de salientar que se trata de uma medida que afeta diretamente a vida de milhões de pessoas. No entanto, deixou claro que a rendição não é uma opção e que Cuba “não abrirá mão de seu direito soberano de receber combustível”.
“A intensificação da pressão da Casa Branca está gerando um impacto psicológico deliberado, com o objetivo de semear o medo como parte de uma estratégia de estrangulamento econômico”, declarou. Para o presidente, a intensificação do cerco dos EUA às compras de combustível “confirma a validade da estratégia adotada por Cuba para garantir a soberania energética”.
“Cuba não renunciará ao seu direito de receber combustível. É um direito soberano”, enfatizou Díaz-Canel, acrescentando que “a rendição não é uma opção” e deixando claro que os EUA “não têm o direito de impor sua política de guerra econômica a Cuba ou outros países”.
Como funciona o setor energético de Cuba?
Opera Mundi conversou com Aline Miglioli, e conomista e pesquisadora sobre o mercado imobiliário de Cuba, para entender o contexto em que a ilha socialista está inserida. Segundo la, “Cuba tem uma dependência energética do petróleo em uma situação em que não é fácil conseguir petróleo. Hoje, o país não só enfrenta o alto custo do petróleo, a dificuldade de encontrar parceiros comerciais, mas também a dificuldade de logística”.
Isso ocorre porque o bloqueio imposto pelos Estados Unidos à ilha tem “dimensões desconhecidas”, sendo uma delas justamente as questões logísticas. “Os navios que atracam em Cuba precisam ficar em quarentena por meses e não podem atracar nos Estados Unidos depois. Mas Cuba fica a 200 quilômetros da Flórida, nos EUA. Em que plano logístico faz sentido um navio que faz comércio estrangeiro passar por Cuba e não passar pelos Estados Unidos?”, explicou ela, apontando que o petróleo, além de caro e pesado de transportar, ainda enfrenta essa imposição logística do bloqueio para chegar até a ilha.
Diante da dificuldade com o petróleo, outras formas de produção de energia como em unsinas hidrelétricas, instalações para energia solar ou nuclear podem ser consideradas para Cuba. Contudo, o país não tem rios ou capacidade tecnológica e financeira suficiente para importar os insumos necessários para promover formas alternativas de energia.
Em relação à energia produzida por usinas nucleares, Miglioli explica que a União Soviética doou à Cuba em 1976 uma estação de energia nuclear, mas com a queda da URSS o projeto não foi finalizado. “Cuba não conseguiu de maneira autônoma reanimar esses investimentos e a estrutura foi se deteriorando de forma que hoje é muito mais custoso terminar essa obra”, afirmou.
Assim, mesmo com a dificuldade dos barris de petróleo chegarem a Cuba, o país ainda depende quase que exclusivamente deste tipo de energia, segundo a especialista.
Por fim, Miglioli explicou que o bloqueio que os EUA impõem a Cuba “é muito mais do que um bloqueio comercial”. “A gente às vezes acha que o bloqueio significa que os cubanos não podem comprar nada dos Estados Unidos, como ter Iphone. Mas não é bem isso. O bloqueio é muito extenso e determina que cubanos não podem comercializar com empresas norte-americanas. Mas não só isso, diz que os Estados Unidos não podem comercializar com nenhuma empresa estrangeira que também comercialize com Cuba”, ressaltou.
Assim, a pesquisadora avalia que todas as alternativas para solucionar a crise de energia na ilha socialista recaem em buscar outros parceiros internacionais. Um desses seria a China por “despontar com tecnologias de energia renovável e limpa”, no lugar do clássico petróleo utilizado pelo país.
(*) Com TeleSUR
























