Sexta-feira, 14 de agosto de 2026
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Em toda a América Latina, a pauta da criminalidade ocupa o mesmo nível de relevância. Para a socióloga Mariana Chies Santos, a medida tem seu ponto fraco na questão do orçamento. Grande parte dos países da região apresentam problemas econômicos e o custo operacional anual de uma mega prisão é de $150 milhões (cerca de R$ 770 milhões).

A militarização da segurança pública no Equador não extinguiu a economia ilícita, apenas mudou seus operadores. Detentos relatam que soldados passaram a vender celulares por valores entre 500 e 1.500 dólares (entre R$ 2,6 mil a R$ 8 mil), enquanto as facções mantêm o controle da alimentação, extorquindo famílias para que seus parentes não morram de fome.

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A especialista também observa que não há perspectiva de que esses presos voltem ao regime aberto ressocializados. “Os responsáveis pelo modelo não estão preocupados com isso. Os presos não têm nenhum tipo de garantia constitucional”.

“O custo é alto apenas para manter a vitrine da redução dos homicídios”, enfatiza a acadêmica, que, ao analisar o problema do alto investimento junto ao da falta de perspectiva de reintegração dos presos, faz um alerta: “a hipótese é de que essa conta não vai fechar, mas só veremos as consequências disso em dez ou 15 anos”.

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A jornalista Karol Noroña criticou a comunidade internacional, especificamente União Europeia e Embaixada do Canadá. Segundo ela, essas instituições mantêm linhas de cooperação que acabam por avalizar a política de segurança de Noboa, ignorando as evidências de graves violações cometidas por militares. Procuradas por Opera Mundi, nenhuma das embaixadas se pronunciou até o fechamento desta reportagem.

A gravidade das denúncias já mobiliza instâncias jurídicas fora do Equador. Em 5 de junho de 2026, o Comitê Permanente pela Defesa dos Direitos Humanos (CDH) de Guayaquil apresentou formalmente os achados da investigação em uma reunião de trabalho com a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH).

O encontro reuniu também o Coletivo de Mulheres Buscadoras, que investiga desaparecimentos forçados cometidos por militares e familiares de detentos. O objetivo é de dar visibilidade ao extermínio e reforçar as demandas por medidas cautelares, algumas das quais já foram emitidas pelo órgão internacional em resposta à crise.

presos em penitenciária no equador

Governo Noboa acata ‘Modelo Bukele’ como política de segurança no Equador
Reprodução / @DanielNoboaOk

Jornalismo de exceção

Reportar essa realidade no país tornou-se uma atividade de risco extremo. Noroña descreve um Equador onde jornalistas e familiares são perseguidos frontalmente e sofrem represálias. Alguns profissionais, incluindo a própria autora do estudo, tiveram que deixar o país temporariamente por razões de segurança.

Em cidades como Durán, considerada uma das mais perigosas do país, a gestão dos cemitérios foi suplantada pela autoridade das facções, tornando o trabalho de campo ainda mais arriscado. Para documentar a existência de valas comuns e o descarte de corpos, a equipe de reportagem precisou negociar diretamente com grupos armados. Foi preciso esclarecer que o foco da apuração era a negligência do Estado e não as atividades ilícitas da gangue local.

Em um dos episódios, a jornalista recebeu um ultimato de um membro de facção: “vocês têm dez minutos para fazer o que for e caiam fora daqui”. Em certas regiões, como na cidade de Quevedo, o risco foi proibitivo ao ponto de os próprios administradores do cemitério alertarem que a vida da jornalista não poderia ser assegurada caso ela entrasse no local.

Para as famílias, que não são notificadas oficialmente sobre os óbitos, esse controle dos cemitérios por parte de quadrilhas representa a barreira final do direito ao luto. O resultado é uma busca desesperada por restos mortais que, muitas vezes, são enterrados em lotes coletivos antes mesmo de serem identificados pelos parentes.

A política de sigilo e o monitoramento de dados sob o governo de Daniel Noboa são apontados como pilares fundamentais da estratégia de ocultamento da crise carcerária no Equador. O órgão de administração penitenciária (Serviço Nacional de Atendimento Integral a Adultos Privados de Liberdade e Adolescentes Infratores, SNAI) tem se recusado sistematicamente a entregar informações oficiais sobre a mortalidade nas prisões, alegando que está em um processo de “depuração de suas bases de dados”, que só será concluída em 2029.

Para contornar o apagão de dados imposto pelo SNAI, a investigação fundamentou-se em uma triangulação de fontes extraoficiais. A equipe obteve acesso a cerca de 30 relatórios institucionais reservados e listas filtradas por fontes que permitiram dimensionar a mortalidade real em cada unidade carcerária.

O levantamento foi cruzado com a análise de centenas de processos judiciais de habeas corpus e laudos forenses. Além das entrevistas com mais de 50 fontes, o trabalho de campo em necrotérios e o acesso ao arquivo de fotografias e vídeos clandestinos foram essenciais para dar rosto e prova documental ao extermínio que o governo tenta invisibilizar.

O Portal de Transparência, ferramenta que poderia ser utilizada para solicitar formalmente o acesso a dados oficiais, exige o fornecimento de dados pessoais detalhados, incluindo nome completo, número da cédula de identidade e o endereço residencial do solicitante.

Segundo Noroña, essa exigência é vista como mais uma forma deliberada de monitoramento, permitindo que o Estado saiba exatamente onde vivem aqueles que o investigam.

A reportagem de Opera Mundi entrou em contato com o SNAI para saber se o órgão gostaria de comentar o assunto. Até a publicação, não houve resposta.