Esquerda chilena vive crise após vitória de Kast, avaliam especialistas
Alta margem de diferença entre ultradireitista eleito e comunista Jaennette Jara é destaque em avaliações; segurança e migração mobilizaram eleitores
As análises sobre a vitória do ultradireitista José Antonio Kast no Chile, ocorrida neste domingo (14/12), convergem ao apontar que o resultado representa não apenas uma alternância eleitoral, mas uma crise profunda da esquerda chilena e um julgamento político direto do governo de Gabriel Boric, com desdobramentos ainda em aberto sobre a duração e o alcance dessa virada.
Em artigo publicado no site chileno La Tercera, a jornalista Paula Escobar Chavarría descreveu o resultado como pertencente “aos cálculos mais pessimistas” da esquerda e do centro-esquerda. Para ela, a derrota de Jeannette Jara, candidata pelo Partido Comunista chileno, configurou “o pior resultado desde o retorno à democracia” para esse campo político.
Escobar sustenta que a candidata fracassou ao tentar se apresentar como social-democrata, porque “o Partido Comunista não é um partido social-democrata”, afastando eleitores moderados que acabaram optando por Kast como “o mal menor”. Ainda assim, ressalta que a esquerda preservou posições institucionais no Congresso e no Senado, o que impõe limites ao novo governo.
Tentações expansionistas
A ampla vitória de Kast, fundador do Partido Republicano sobre Jara é vista como uma tentação ao futuro governo pelo cientista político Nicolás, professor da Universidade Católica de Valparaíso. Em entrevista à Página/12, ele afirmou que vitórias tão amplas costumam gerar tentações autoritárias ou expansionistas. “Muitas vezes, aqueles que obtêm uma distância tão superlativa do segundo lugar despertam a ambição de querer ir além do que declararam em seu próprio programa”, avaliou.
Segundo ele, isso pode levar a um governo de maior atrito, já que “a oposição, apesar de estar em seu ponto mais baixo histórico, continua tendo peso relevante, pelo menos no Senado”, de onde poderá barrar “qualquer avanço que Kast queira além do planejado”.
Freire também associa a derrota da esquerda a uma falha estratégica mais ampla, agravada durante o governo Boric. Para ele, a campanha foi dominada pelo medo, sobretudo em torno da segurança e da migração. “O medo tomou conta da campanha presidencial”, disse, apontando que Kast teve “um bom clique emocional”, enquanto Jara respondeu com racionalidade excessiva. “A racionalidade não é suficiente para combater o medo. É um instinto primal”, afirmou.

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@joseantoniokast
Alternância política ou escalada da extrema-direita?
Já o jornalista e escritor Ascanio Cavallo, também em artigo publicado no site La Tercera, sustenta que o triunfo de Kast pode ser visto a partir de duas interpretações. A primeira, como parte da alternância política observada nos últimos onze anos no país, o que significaria que “a esquerda só teria que sentar e esperar até 2029”. Nesse sentido estrito, a alternância implica “a fatalidade de que o vencedor de hoje seja o derrotado da próxima eleição”, afirmou.
A segunda interpretação, afirma Cavallo, “é que a mudança seja a consolidação de um novo clivagem que deixe para trás o Sim e o Não de 1988”, substituído por um eixo marcado por “ordem versus violência do 18 de outubro de 2019”.
Isso dependerá, destacou, da reação da esquerda. “A tese da mudança de clivagem dá às direitas uma oportunidade de prolongar sua conquista do governo, supondo que a esquerda mantenha a estratégia que foi derrotada ontem”, escreveu.
Governo Boric
Nesse ponto, a crítica ao governo Boric é direta: no discurso de derrota, Jara recorreu ao apelo da “unidade”, “cujo principal promotor tem sido o presidente Gabriel Boric; mas essa estratégia, assim como seus dois promotores, foi derrotada ontem”.
“Sem o descontentamento com a gestão atual — mais amplo do que em outros casos —, não há como entender a derrota em termos políticos”, escreveu. Em sua avaliação, o presidente Gabriel Boric, seus ministros e a Frente Ampla saem politicamente fragilizados.
Em sua avaliação, “a luta pela interpretação desses resultados será mais importante no seio da esquerda do que frente a seus adversários”, escreveu. Se o governo não for responsabilizado, restará a candidatura. “Jara será culpada por diversos setores da esquerda”, afirmou, apontando o papel ambíguo do Partido Comunista, que foi “ao mesmo tempo o melhor apoio e o pior peso” da campanha.























