O Procurador-Geral da Bolívia, Roger Mariaca, condenou nesta segunda-feira (28/09) a revogação de seu visto pelos Estados Unidos e denunciou interferência estrangeira, atribuindo a decisão às investigações conduzidas pelo Ministério Público boliviano sobre temas sensíveis, como o caso do ex-conselheiro presidencial argentino Fernando Cerimedo e o caso conhecido como “Gasolina Lixo”.
De Sucre, na sede do Ministério Público, Mariaca afirmou, acompanhado por funcionários da instituição, que as decisões adotadas por Washington pegaram as autoridades locais de surpresa. Eles exigiram respeito à soberania da Bolívia e ao princípio da não interferência.
Mariaca argumentou que o trabalho do Ministério Público gera desconforto nos setores políticos, tanto a nível nacional como internacional, mas sublinhou que nenhuma pressão impedirá a investigação dos fatos que devem ser esclarecidos.
Referindo-se especificamente a Fernando Cerimedo, investigado por tentativa de feminicídio e lavagem de dinheiro, o chefe do Ministério Público indicou que o caso gerou preocupação em vários setores, mas reafirmou que ele não recuará “nem um centímetro”.
Ele lembrou precedentes históricos de atritos diplomáticos, como a suspensão do visto do ex-presidente Jaime Paz Zamora e a expulsão de um embaixador dos Estados Unidos durante o governo de Evo Morales, observando que esses episódios demonstram que a soberania deve estar acima da situação política.
Em resposta às sanções anunciadas nesta segunda-feira (28/09) pelo governo de Donald Trump, a Assembleia Legislativa da Bolívia reagiu solicitando a intervenção do Ministério das Relações Exteriores. Os Estados Unidos revogaram vistos de 13 autoridades bolivianas, atuais e antigas, além da permissão de um empresário, sob acusações de corrupção e de minar governos democraticamente eleitos,
O presidente do Senado, Diego Ávila, e o presidente da Câmara dos Deputados, Roberto Castro, anunciaram um pedido formal ao Ministério das Relações Exteriores para que solicite informações oficiais disponíveis sobre as alegações junto ao Departamento de Estado norte-americano.
Ávila argumentou que a gravidade das acusações exige uma resposta séria e responsável, lembrando que “uma acusação não é uma sentença e nenhum cidadão pode ser condenado sem provas”. Ele solicitou ao vice-presidente e presidente da Assembleia Legislativa, Edmand Lara, a convocação de uma sessão parlamentar urgente para tratar do assunto.

O senador do partido governista também sugeriu que o Procurador-Geral se afastasse temporariamente de suas funções enquanto as acusações fossem esclarecidas, para salvaguardar as instituições democráticas e a transparência das investigações.
Segundo o presidente da Câmara dos Deputados, assim que chegarem, as informações de Washington serão encaminhadas às autoridades competentes para que sejam adotadas as medidas legais e parlamentares cabíveis.
Castro enfatizou que, se os crimes forem comprovados, as responsabilidades e as sanções deverão ser estabelecidas por lei, enquanto que, se as alegações forem infundadas, será necessário esclarecer a questão perante o país.
A medida anunciada pelo Departamento de Estado dos EUA restringe a entrada de cidadãos afetados e seus familiares imediatos, citando a seção 212 da Lei de Imigração e Nacionalidade e a Lei de Dotações para Segurança Nacional.
Segundo o comunicado oficial de Washington, as ações dos indivíduos mencionados colocariam em risco os esforços de combate ao narcoterrorismo e minariam as instituições democráticas que o Estado boliviano busca fortalecer por meio de sua participação no Escudo das Américas.