Ex-presidente democrata-cristão apoia candidato pinochetista no Chile
Eduardo Frei Ruiz-Tagle anunciou apoio a José Kast no segundo turno; seu pai, antecessor de Allende, apoiou golpe em 1973, mas morreu envenenado anos depois
Em comunicado publicado nesta terça-feira (25/11), o ex-presidente chileno Eduardo Frei Ruiz-Tagle (1994-2000), ligado ao partido de centro-direita Democracia Cristã, manifestou seu apoio ao candidato de extrema direita José Antonio Kast, do Partido Republicano, no segundo turno das eleições presidenciais do país andino.
A declaração ocorreu minutos após uma reunião entre ambos e foi acompanhada de comentários do ex-mandatário dizendo que eles abordaram “ideias importantes sobre o futuro do Chile”.
“Tivemos uma conversa franca e profunda sobre os graves problemas que afetam o país e a urgência em gerar ações que resolvam essas necessidades, e o mais importante é que encontramos concordâncias nos temas essenciais”, frisou o político democrata cristão.
O apoio causa polêmica porque contraria a postura do seu partido, a Democracia Cristã, que se posicionou oficialmente a favor da candidata de centro-esquerda Jeannette Jara, do Partido Comunista, adversária de Kast no segundo turno.
Mas o fator mais importante desse episódio é fato de Kast ser um defensor assumido da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990), período no qual muitos opositores ao regime foram assassinados, incluindo o pai de Eduardo Frei Ruiz-Tagle, o também ex-presidente Eduardo Frei Montalva (1964-1970).
Kast disputará o segundo turno das eleições presidenciais no Chile contra Jara, em votação marcada para o dia 14 de dezembro. No primeiro turno, a comunista venceu com 26,9% dos votos válidos, contra 23,9% do ultraconservador.
De apoiador a vítima do golpe
Porém, há uma controvérsia ainda maior a respeito da relação entre a família Frei e a última ditadura chilena que incidem sobre essa nova aliança com a extrema direita.
Eduardo Frei Montalva foi o presidente do Chile que antecedeu o governo socialista de Salvador Allende (1970-1973).
Apesar de ser o iniciador da reforma agrária no país, nos anos 60, seu governo terminou sendo questionado tanto pelas elites rurais quanto pelos trabalhadores do campo, que o acusaram de ser titubeante ao enfrentar os interesses dos grandes proprietários.
Essas e outras críticas foram decisivas nas eleições de 1970, na qual boa parte das camadas progressistas que votou na Democracia Cristã no pleito anterior – pela promessa de reforma agrária – preferiu a candidatura de Allende, seu projeto de Unidade Popular e o “socialismo pela via democrática”, e não a de Radomiro Tomic, indicado por Frei como seu sucessor.
Apesar do governo de Allende ter aprofundado e acelerado a reforma agrária iniciada em seu governo, Eduardo Frei Montalva foi um ferrenho opositor do governo socialista.

Ex-presidente democrata cristão Eduardo Frei Ruiz-Tagle, após reunião com candidato presidencial de extrema direita José Kast
Instagram / Partido Republicano do Chile
Meses antes do golpe de Estado de 11 de setembro de 1973, ele chegou a publicar uma carta aberta às Forças Armadas que ficou marcada pela frase “vocês têm as baionetas, mas não as usam”, defendendo a intervenção militar para derrubar o então presidente.
O político chegou a justificar o golpe dias depois de consumado, mas se tornou um opositor ao regime quando a Junta Militar se instalou no poder e revelou que implementaria um projeto de longo prazo – Frei Montalva defendia uma transição curta após a morte de Allende e a realização de novas eleições dentro de poucos meses, algo que não aconteceu.
Durante os anos seguintes, o líder democrata cristão encabeçou uma oposição branda ao regime, que aparentemente não era crítica o suficiente para incomodar os aparatos de perseguição a opositores que funcionaram durante a ditadura pinochetista, tanto que ele continuou vivendo no Chile e não precisou deixar o país.
Tudo mudou em dezembro de 1981, quando ele foi internado na Clínica Santa María para retirada de uma hérnia de hiato, cirurgia considerada simples, mas que, semanas depois, derivou no que os médicos da época descreveram como “um quadro grave de peritonite”, que o levou à morte, em janeiro de 1982.
Décadas depois, uma exumação dos restos mortais revelou traços de um produto químico que indicava a possibilidade de ele ter sido envenenado por agentes da ditadura enquanto estava internado.
Mesma morte de Neruda
O caso de Frei Montalva possui paralelos importantes com o do poeta Pablo Neruda, outra figura pública que se considerava vítima de morte por problemas médicos, mas que se descobriu, anos depois, que teria sido envenenada.
Um dos detalhes importante é o fato de que Neruda foi faleceu, em 1973, na Clínica Santa María, a mesma onde morreu Frei Montalva, nove anos depois.
A outra coincidência foi observada após as exumações feitas aos dois corpos, que encontraram, em seus restos mortais, traços da mesma substância que sustenta a tese de envenenamento por obra de agentes da ditadura.
Além disso, os inquéritos realizados pela Justiça chilena, a partir dos anos 2010, revelaram documentos que comprovam a cumplicidade de diretores da Clínica Santa María com os aparatos repressivos da ditadura de Pinochet.
Também há documentos relativos às investigações sobre a Operação Condor que levantam a suspeita de um possível envolvimento do Instituto Butantan na trama, já que, na época em que Brasil e Chile viviam ditaduras simultâneas, a entidade enviava produtos ao país andino através de malotes diplomáticos.
Com informações de Rádio Bío-Bío.























