Terça-feira, 9 de dezembro de 2025
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Apesar de não estar no segundo turno das eleições presidenciais chilenas, que será realizado no dia 14 de dezembro, o economista Franco Parisi pode ser um dos fatores decisivos para a disputa eleitoral, que escolherá quem vai governar o Chile nos próximos quatro anos.

Terceiro colocado no primeiro turno com 19,71% dos votos válidos, o candidato do Partido da Gente (PDG, por sua sigla em espanhol) possui um grande número de seguidores nas redes sociais e dialoga especialmente com o público jovem, de onde tirou os votos que o tornaram a grande surpresa da disputa eleitoral – já que a maioria das pesquisas o colocavam em quinto lugar.

Defensor de propostas sobre flexibilização do trabalho e apoio ao empreendedorismo, Parisi tem seu apoio cobiçado tanto pela candidata Jeannette Jara, do Partido Comunista (PC), que venceu o primeiro turno com 26,85% dos votos, quanto por José Antonio Kast, do Partido Republicano (PR), representante da extrema direita, que teve cerca 23,92%.

Além de economista, Parisi é uma figura destacada em meios de comunicação há muitos anos. Começou como comentarista em programas na televisão aberta, mas se tornou, com o tempo, um comunicador mais ativo nas mídias digitais e plataformas de streaming, onde seus canais estão entre os mais populares do Chile, graças a um discurso anti establishment no qual insiste em que seu projeto “não é de direita nem de esquerda”, ao mesmo tempo que encontra ressonância entre os cidadãos que exigem firmeza em questões como segurança e imigração irregular.

Parisi já foi candidato presidencial outras duas vezes. Em 2013, concorrendo como independente, ficou em quarto lugar, com 10,11% dos votos.

A segunda vez foi em 2021, quando competiu pelo PDG, partido que ele mesmo fundou e que lidera até hoje. Na ocasião, ele ficou em terceiro, mesma posição que obteve este ano, mas com uma quantidade de votos bem menor, cerca de 12,80%.

Além disso, o PDG mostrou uma evolução em sua performance nas eleições parlamentares, ao eleger 14 cadeiras na Câmara dos Deputados, contra apenas seis no pleito anterior. No Senado, a sigla não conquistou nenhuma vaga, em nenhum dos dois processos eleitorais.

Ademais, os seis deputados eleitos pelo PDG em 2021 abandonaram a legenda entre 2022 e 2024, alguns alegando diferenças com Parisi e criticando sua forma de liderar.

‘Papito corazón’

Um dos temas polêmicos relacionados com Parisi tem a ver com questões familiares, mais precisamente com um processo na Justiça no qual sua ex-esposa reivindicou uma dívida de cerca de 200 milhões de pesos chilenos (cerca de R$ 1,1 milhão de reais) em pensões alimentícias dos seus dois filhos.

Franco Parisi foi o terceiro mais votado no primeiro turno das eleições chilenas
Partido de la Gente / X

O caso veio à tona em 2021, e afetou sua campanha naquele ano, já que ele estava nos Estados Unidos quando a disputa eleitoral começou e tinha planos para regressar ao Chile, mas acabou evitando fazê-lo, já que havia a possibilidade de ser preso se o fizesse.

A polêmica fez colar nele o apelido de “papito corazón”, um termo que é comum no Chile há alguns anos, usado especialmente por mulheres para se referir aos pais que dizem amar seus filhos, mas que não pagam a pensão.

Na campanha deste ano, o caso da pensão alimentícia teve menos relevância – ainda há pendência, mas ele já teria quitado a maior parte da dívida e o que falta estaria coberta por um cronograma de pagamentos aceito pela Justiça –, e acabou tendo menos influência em sua campanha eleitoral.

Para onde vão os votos?

Em um segundo turno no qual Jara chegou com 26,85% dos votos e Kast chegou com 23,92%, os 19,71% de Parisi podem ser decisivos, mas conquistá-los vai requerer um esforço por parte das duas candidaturas que seguem na disputa.

Segundo o analista político Nahuel Millahueique Pezoa, da Universidade Nacional de Córdoba, “Parisi é uma figura que soubre construir uma linguagem própria com base em sua presença nas redes sociais, que fala diretamente com as pessoas e sabe introduzir conceitos que ressoam fortemente em um público bastante”.

“Seu público é bem peculiar: são pessoas que estão cansadas e frustradas com o funcionamento do sistema político chileno desde os Anos 90. Não é o público que viveu a ditadura ou que era ativo na esquerda ou na direita durante esse período, é um perfil diferente. E Parisi se dirige a eles a partir de uma perspectiva que sugere que isso não tem mais nada a ver com direita ou esquerda, despolitizando ainda mais o que já está despolitizado, mas, ao mesmo tempo, repolitizando-o a partir de um ponto de vista completamente diferente”, acrescentou o acadêmico de origem mapuche – nação indígena que ainda habita as regiões ao sul do Chile e da Argentina.

Millahueique afirma que a tendência do eleitorado de Parisi é se dividir na disputa entre Jara e Kast, mas não necessariamente de forma igualitária, e quem poderia ficar com a maior parte do setor é uma questão que dependerá da posição oficial que ele mesmo manifeste durante a campanha do segundo turno.

“Creio que prevalecerá um voto emocional, não racional. No fim das contas, acho que eles seguirão a liderança de Franco Parisi, que ainda não se manifestou oficialmente. Entretanto, seu irmão já declarou que votará em Jara, isso pode ter uma influência significativa”, frisou o analista político.