Além de trabalhar em campanhas eleitorais da extrema direita latino-americana, o consultor argentino Fernando Cerimedo – preso na Bolívia por tentativa frustrada de feminicídio de sua namorada – também teria atuado na difusão de versões adaptadas da ideologia de Donald Trump e seu movimento Make America Great Again (MAGA) em países da região.
Uma investigação realizada pelo Observatório de Meios do site CubaDebate revelou uma rede transnacional de veículos de comunicação e operadores ligados ao ecossistema “Faça a América Grande Novamente” responsável por adaptar e amplificar na América Latina conceitos políticos originados nos Estados Unidos e reforçados justamente pela extrema direita.
Segundo a reportagem, a empresa Numen, criada e administrada por Cerimedo, e o site La Derecha Diario, do qual o consultor argentino é um dos sócios, formavam parte dessa estrutura, cuja tarefa na América Latina era adaptar conceitos defendidos pela extrema direita norte-americana, fazendo-as parecer expressões aparentemente únicas e adaptadas à realidade de cada país e transformá-las em elementos do debate interno desses mesmos países.
O levantamento do CubaDebate partiu de publicações em redes sociais, especialmente no Facebook, através de contas atribuídas à empresa Numen. Muitas dessas publicações eram acompanhadas de links para matérias do La Derecha Diario.
Na apuração, após a remoção de postagens duplicadas e outras ruídos gerados pelas plataformas, foram identificadas 5.286 publicações únicas, datadas entre 1º de janeiro de 2022 e 30 de agosto de 2026. Essas publicações geraram coletivamente 4.716.893 interações, entre comentários, reações e compartilhamentos, além de 38.956.924 visualizações.
Nas publicações, foram identificados elementos ideológicos associado à extrema direita, especialmente palavras-chave relacionadas à “defesa da liberdade” e “combate ao comunismo”. Entre os principais temas estão os questionamentos a processos eleitorais e grupos políticos tradicionais, vacinas, ao voto feminino, às mudanças climáticas e medidas para taxação dos super ricos.
Em investigação anterior, o Observatório de Meios do CubaDebate já havia demonstrado as ligações de Cerimedo com figuras próximas ao Departamento de Justiça dos Estados Unidos, e também ao presidente norte-americano Donald Trump.
Entre os anos de 2022 e 2023, através de outro empresário argentino, chamado Damián Merlo (e que vive em Miami), Cerimedo se aproximou de figuras como Gavin Wax, chefe de gabinete da subsecretária Sarah Rogers; Christopher Landau, subsecretário de Estado; Ana Quintana, do Planejamento Político; Viviana Bovo, ex-assessora de Marco Rubio; e Joseph Humire, identificado como chefe de Assuntos de Segurança para as Américas e diretor do Centro para uma Sociedade Livre e Segura, ligado à Fundação Heritage e com experiência em trabalhos na Venezuela, em Cuba e no Irã.
Outra figura importante nesse círculo é Brad Parscale, ex-gerente de campanhas de Trump. A investigação cubana afirma que Parscale participa, com alguma frequência, de reuniões na residência do republicano, em Mar-a-Lago, e que possui acesso rápido ao secretário de Estado, Marco Rubio, e à congressista republicana María Elvira Salazar.
Parscale é próximo da família Trump desde 2012 e foi um dos responsáveis pela estratégia digital da campanha presidencial de 2016, baseada em publicidade direcionada a diferentes públicos.
Em setembro de 2025, a empresa de Parscale, Clock Tower X, foi contratada pelo governo de Israel para realizar uma campanha destinada a melhorar a imagem do país, afetada pelo massacre de civis palestinos na Faixa de Gaza iniciado em outubro de 2023. O contrato, revelado pelo Wall Street Journal, previa o pagamento de US$ 50 milhões pelo envio de mensagens de texto geradas por inteligência artificial para celulares de cidadãos norte-americanos.

Articulista argentino é alvo de múltiplas denúncias na Bolívia
Reprodução
Para além do levantamento do Cubababete, Fernando Cerimedo acumulou mais uma denúncia, a quarta apresentada contra ele nos tribunais da Bolívia, desta vez apresentada pelo vice-presidente do país, Edmand Lara.
O processo aponta o consultor argentino e também a primeira-dama do país, María Elena Urquidi – esposa do presidente Rodrigo Paz –, como responsáveis por um esquema de tráfico de influências dentro do Executivo boliviano.
A denúncia está baseada em um áudio no qual se ouve as vozes de Cerimedo e Urquidi, em diálogo em que ambos estariam negociando mudanças de ministros e de um ex-comandante policial.
Vale lembrar que Cerimedo já enfrenta outras três denúncias judiciais na Bolívia: por suposta ordem para assassinar sua ex-namorada, a advogada Nadia Beller; por enriquecimento ilícito, contratos relacionados às suas fazendas de bots; e por possível ligação com grupos narcotraficantes bolivianos.
Atualmente, o consultor argentino está em prisão preventiva em uma penitenciária de Santa Cruz de la Sierra, no leste da Bolívia.