Fórum América Latina-Rússia defende cooperação e ‘diplomacia pública’ em mundo multipolar
Encontro em SP lançou estudo que identifica ‘lacunas históricas’ entre regiões e propõe iniciativa para evitar que mudanças políticas interrompam trocas internacionais
No âmbito da transição do mundo para uma ordem multipolar, o 1º Fórum de Cooperação Estratégica entre Rússia e América Latina (CORAL) lançou nesta segunda-feira (13/07) um caderno que apresenta o diagnóstico das relações entre a Federação russa e as três sub-regiões: o Cone Sul, a América Andina e a América Central e o Caribe. Trata-se de uma pesquisa que investigou as lacunas históricas entre os países latino-americanos com Moscou, trazendo propostas para o estreitamento das relações nas esferas econômica, política e humano-social.
Na abertura do evento, sediado pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), a diretora-geral do Centro de Integração e Cooperação entre a Rússia e a América Latina no Brasil (CICRAL), Luiza Calvette, enfatizou que “uma região integrada negocia melhor”.
“Nossa região precisa ser vista pela comunidade internacional à altura que ela tem”, apontou a representante. “Qual é o lugar da América Latina em um mundo multipolar? É preciso de mais capacidade de negociação e diversificação de parcerias para que mais modelos de desenvolvimento possam existir”.
A Opera Mundi, o coordenador do caderno da CORAL, Leonardo Nascimento, detalhou que o estudo apresentado foi realizado com 12 países, partindo do pressuposto da necessidade do benefício mútuo entre os continentes, uma vez que sustenta que, em uma ordem multipolar, “é fundamental que cada nação tenha parceiros diversos”.
“A América Latina tem que quebrar um padrão histórico de relações de dependência. Então, o que se apresenta para nós agora é uma oportunidade histórica para podermos nos colocar de forma mais autônoma nessa nova ordem internacional que aparece”, explicou.
A pesquisa concluiu um padrão comum entre as regiões analisadas, que inclui o comércio concentrado, a baixa integração privada, a fragilidade de vínculos humano-sociais e a vulnerabilidade política. Portanto, são estes os desafios a serem levados em consideração.
Mas antes disso, o presidente do CICRAL, Esteban Períe, enfatizou a política da “diplomacia pública” como uma prioridade para que esses desafios possam ser atendidos de maneira efetiva, uma vez que a medida contribuiria para que os países mantenham as suas pontes de desenvolvimento sem depender de eventuais mudanças do Estado-nação.
Da mesma forma, o coordenador da pesquisa, Nascimento, indicou que a formação de uma plataforma de diplomacia pública é a “primeira iniciativa” de todas as propostas apresentadas no caderno. Ele explica que, na prática, o “CICRAL seria o ator promotor nesse novo processo”.
“Além disso, a gente tem um conjunto de medidas propostas para o fortalecimento da cooperação acadêmica. Nesse sentido, o papel do CICRAL é de mediador: é colocar de forma direcionada instituições brasileiras com instituições russas para que possamos desenvolver agendas de pesquisa comum e nos desenvolver de forma conjunta. Isso tende a aprofundar mais as relações acadêmicas do que só o intercâmbio de bolsas de estudo”, continuou.
Já a última medida proposta seria a construção de uma infraestrutura de dados própria, independente de fontes que partem da perspectiva ocidentalizada. Os pontos de fragilidade apresentados no caderno neste tópico incluem “fontes interrompidas, recusadas ou metodologicamente incomparáveis; falta de dados confiáveis e atualizados; dados produzidos pelo Norte Global; e ausência de um centro dedicado a sistematizar os dados de forma contínua e comparada”.
“Uma das lacunas que a gente identificou no caderno é que todas as fontes são ocidentais. E não existe dado neutro. Todo dado parte de um certo lugar. Então, é fundamental que nós tenhamos os nossos”, afirmou. Nascimento reiterou a necessidade da “construção de uma infraestrutura de dados que possa escolher as variáveis que mostrem a realidade das relações latino-americanas com a Rússia”.

A Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo sedia o 1º Fórum de Cooperação Estratégica entre Rússia e América Latina
Opera Mundi/Rocio Paik
Brasil como ‘ponte’ da Rússia
A Opera Mundi, o diretor executivo adjunto da Fundação de Apoio à Diplomacia Pública Alexander Gorchakov, Sergey Vadimovich, disse que o Brasil “serve como uma ponte entre a Rússia e outros países da América Latina” devido aos laços históricos mais antigos que ambos compartilham. Atribuiu a importância também ao fato de o Brasil desempenhar papéis essenciais nos processos de integração latino-americana, incluindo a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC).
“E hoje, graças à Presidência de Luiz Inácio Lula da Silva, que é um amigo próximo da Rússia e conhece muito bem o nosso país, acredito em nossas relações e em como elas estão se desenvolvendo hoje. Também a Dilma Rousseff sendo a presidente do Banco dos BRICS e grande amiga da Rússia durante seu mandato”, afirmou.
Diante das eleições presidenciais e de qualquer possibilidade de mudança do Executivo no Brasil, Vadimovich reiterou a necessidade da diplomacia pública para a manutenção das relações. “É por isso que estamos aqui, para que os processos políticos não impactem negativamente nossas relações entre as sociedades”, destacou.
“Por exemplo, na Argentina hoje, sob a Presidência de Milei, que é muito pró-Ocidente, quase não há contatos intergovernamentais. Vemos isso como um problema porque nosso governo quer desenvolver relações com todos os países do mundo, mas no momento não consegue devido a fatores subjacentes”, explicou. “Graças a diversas plataformas cívicas, podemos ver que precisamos realizar eventos como o de hoje, porque é muito importante manter diferentes contatos entre instituições, organizações e indivíduos que não sejam afetados pela situação política”.























