Quarta-feira, 13 de maio de 2026
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A Argentina recorreu aos Estados Unidos na semana passada para comprar US$ 808 milhões (R$ 4.248 bilhões) em Direitos Especiais de Saque (DES), um ativo do FMI. O único objetivo foi honrar um pagamento de juros ao Fundo Monetário Internacional (FMI) com vencimento neste domingo (01/02), que teria sido efetuado nas últimas horas, segundo fontes oficiais e pessoas com conhecimento direto do assunto que falaram ao jornal argentino LA NACION.

Os DES são ativos de reserva emitidos pelo FMI. Diferentemente do principal da dívida, os pagamentos de juros ao Fundo têm vencimentos inflexíveis – não podem ser renegociados ou adiados. Por isso, o governo argentino precisou adquirir esses direitos junto ao Tesouro norte-americano, em uma operação que envolve a troca por moeda estrangeira, para obter as divisas necessárias no prazo exato.

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Segundo fontes oficiais que explicaram ao LA NACION, não se tratou de uma nova ativação do swap cambial com o país, mas sim de uma compra rotineira de DES para cumprir um prazo de vencimento. Não foi especificado se a aquisição foi feita diretamente pelo Banco Central da Argentina (BCRA) ou pelo Tesouro, mas foi confirmado que o governo honrará seu compromisso. Uma das fontes destacou a dependência crônica que essa operação revela: “É a mesma operação usada desde 2018: o Tesouro precisa comprar SDRs [DES] para pagar o FMI, e o maior vendedor mundial é o ESF do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos”.

Esta não é a primeira vez que os Estados Unidos vendem moeda do FMI para a Argentina antes do vencimento de um pagamento de dívida. Em 10 de outubro do ano passado, o Departamento do Tesouro transferiu US$ 872 milhões (R$ 4.584 bilhões) antes de outro pagamento. A principal diferença é que aquela transação fazia parte de um acordo de swap cambial, enquanto a concluída na semana passada não.

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A transparência sobre esses mecanismos, porém, é mínima. Nem o BCRA nem o Tesouro dos EUA divulgaram os termos, juros ou custo real do swap de outubro, que foi integralmente cancelado em dezembro como parte do acordo de estabilização cambial de US$ 20 bilhões (R$ 105 bilhões). O secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, limitou-se a declarar publicamente que a transação “gerou ganhos para o povo norte-americano”. O cancelamento do swap também foi obscuro: o BCRA apenas indicou que foi realizado por meio de um empréstimo de outra organização internacional (o Banco de Compensações Internacionais foi amplamente mencionado no mercado), o que alimentou suspeitas de que ouro argentino tenha sido usado como garantia.

Javier Milei enfrenta pior crise desde que iniciou seu governo, em dezembro de 2023 Wikimedia Commons

A transação foi concluída antes de um prazo que não pode ser prorrogado e ocorre na véspera da segunda revisão do programa de US$ 20 bilhões, com foco central nas reservas e uma missão do Fundo prevista para fevereiro
Wikimedia Commons

O Fundo de Estabilização Cambial (ESF, na sigla em inglês) é um ativo administrado pelo Departamento do Tesouro dos EUA, criado na década de 1930 com o objetivo declarado de preservar a estabilidade financeira e cambial. Entre outras funções, o ESF intervém nos mercados de câmbio e negocia ativos internacionais, incluindo Direitos Especiais de Saque (DES) do FMI, tornando-se o principal provedor global desse instrumento para países em aperto.

O pagamento de domingo ocorre antes da segunda revisão do programa de US$ 20 bilhões com o FMI, assinado em abril de 2025. O governo espera que a avaliação técnica aconteça em algum momento de fevereiro, com a chegada de uma missão do FMI à Argentina, sendo que um desembolso de US$ 1 bilhão depende de sua aprovação. Nesse contexto, o ministro da Economia, Luis Caputo, realizou um encontro informal com a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva, durante o Fórum Econômico Mundial em Davos. Apesar do elogio público de Georgieva ao “progresso na acumulação de reservas”, os números do BCRA contam uma história diferente.

Para além desses sinais, a questão das reservas será um dos principais focos da revisão. Embora a Argentina tenha cumprido sua meta fiscal para 2025, ficou significativamente aquém de sua meta de acumulação líquida de reservas internacionais, que terminou 2025 bem abaixo do nível acordado. Segundo dados do BCRA, apurados pela metodologia do programa, as reservas líquidas fecharam 2025 em aproximadamente -US$ 14,1 bilhões, em comparação com a meta revisada de -US$ 1 bilhão, o que implica um desvio negativo de mais de US$ 13 bilhões em relação à meta. Essa falha ocorreu apesar de o FMI ter flexibilizado a meta em US$ 6,5 bilhões. Nesse contexto, o governo planeja solicitar uma isenção e prosseguir com uma reformulação das metas.

A recente melhoria da situação financeira, com o risco-país abaixo de 500 pontos base, reabriu o debate sobre um possível retorno ao mercado internacional de dívida. No entanto, o Ministério da Economia descartou essa opção por ora, por três motivos: para reduzir a dependência soberana de Wall Street e dar espaço ao setor privado; para evitar a validação de taxas que não refletem os fundamentos atuais; e para analisar outras alternativas de refinanciamento.

A dificuldade do Tesouro em acessar o refinanciamento da dívida externa também dificulta a recomposição das reservas. Como o próprio Banco Central reconheceu em um relatório recente, o aumento real das reservas dependerá da capacidade do Tesouro de refinanciar a dívida com vencimento no mercado, uma vez que, caso contrário, as compras de moeda estrangeira acabam sendo usadas para pagar dívidas. Essa dinâmica expõe o círculo vicioso da crise: o BCRA compra dólares no mercado com grande esforço, mas o Tesouro precisa usar essas mesmas divisas para pagar dívidas externas vencidas. O resultado é que o esforço de recomposição de reservas esbarra, continuamente, no peso da dívida e na dificuldade de refinanciá-la em condições soberanas.