Honduras realiza eleições sob pressão dos EUA e suspeita de fraude
Pesquisas revelam disputa acirrada entre candidata da esquerda Rixi Moncada (Libre) e os conservadores Nasry Asfura (Partido Nacional) e Salvador Nasralla (Partido Liberal)
Mais de 6,5 milhões de hondurenhos vão às urnas neste domingo (30/11) nas eleições gerais que vão definir quem ocupará a Presidência da República entre janeiro de 2026 e janeiro de 2030, além dos 128 deputados do Congresso Nacional (unicameral), os 20 representantes hondurenhos no Parlamento Centro-Americano (Parlacen) e os prefeitos de 298 municípios do país.
Estas eleições gerais, que irão reconfigurar o mapa político do país, que vem sendo marcado por ameaças de fraude e de interferência internacional, incluindo uma declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra a candidata governista Rixi Moncada, do partido Liberdade e Refundação (Libre, por sua sigla em espanhol, que faz trocadilho com versão da palavra “livre”).
A jornada eleitoral ocorre sob forte vigilância, tanto interna quanto internacional. O governo mobilizou 50 mil agentes de segurança para garantir o processo, enquanto organizações sociais alertam para a defesa do voto popular.
Vale lembrar, também, que Honduras é um dos poucos países da América Latina onde o processo acontece em turno único. Portanto, haverá uma definição na jornada deste domingo, mesmo que a candidatura mais votada não supere os 50% dos votos válidos.
Foi o que aconteceu, por exemplo, em 2013, quando o candidato Juan Orlando Hernández, do Partido Nacional, foi eleito com apenas 36,9% dos votos, contra 28,8% de Xiomara Castro, que ficou em segundo.
No último pleito, em 2021, Nasry Asfura, do Partido Nacional, obteve os mesmos 36,9%, mas acabou perdendo contra a mesma Xiomara Castro, do partido de esquerda Liberdade e Refundação (Libre, por sua sigla em espanhol, que faz trocadilho com versão da palavra “livre”), que é a atual presidenta do país.
Candidata de Xiomara
Como a lei hondurenha não permite a reeleição, Xiomara Castro não pode tentar um segundo mandato, que permitiria a ela igualar o feito por Cristina Kirchner na Argentina (em 2011), Michelle Bachelet no Chile (em 2013) e Dilma Rousseff no Brasil (em 2014).
No entanto, o Libre tentará uma façanha inédita na jornada deste domingo. A candidatura governista nestas eleições é encabeçada pela economista Rixi Moncada. Caso ela vença, será a primeira vez na história latino-americana que uma mulher presidente entregará o cargo a outra mulher.
A candiata participou do atual governo, primeiro como ministra da Economia, entre janeiro de 2022 e janeiro de 2024, e depois como ministra da Defesa, entre setembro de 2024 e maio de 2025. Ademais, ela também foi ministra do Trabalho durante o governo de Manuel Zelaya, entre janeiro de 2006 e janeiro de 2008.
Outro detalhe de sua biografia é que sua filha mais velha, Marcela Arias, é quem encabeça a missão permanente de Honduras na sede de Genebra (Suíça) da Organização das Nações Unidas (ONU), e já chegou a ser vice-presidenta do Conselho de Direitos Humanos da entidade, em 2024.
As pesquisas eleitorais mais recentes mostram resultados muito divergentes entre si, mas algumas delas colocam Moncada em primeiro lugar. Segundo a consultora TResearch, a governista aparece com 27,7% das intenções de voto, contra 22,4% de Salvador Nasralla e 17,5% de Nasry Asfura.
Candidato de Trump
Derrotado pela presidente Xiomara Castro em 2021, o empresário ultraconservador Nasry Asfura lidera novamente a candidatura do Partido Nacional, desta vez com um apoio vindo de fora: o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump declarou abertamente seu respaldo e ainda disse que Washington poderia reduzir o envio de ajuda financeira a Tegucigalpa caso ele não seja eleito.
No pronunciamento a favor de Asfura, Trump disse que o conservador “representa a luta contra o comunismo e contra o narcoterrorismo na América Central”, o que levantou uma contradição, já que o ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández (2014-2022) – aquele que venceu Xiomara em 2013 – está preso nos Estados Unidos desde 2022, justamente envolvimento com organizações narcotraficantes.

Hondurenhos vão às urnas neste domingo (30) escolher presidente, prefeitos e parlamentares
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Inclusive, o presidente dos Estados Unidos reagiu a essa contradição, mas talvez criando outra, já que anunciou, neste sábado (29/11), um indulto a Hernández, que está preso por vínculos com o narcotráfico que foram comprovados pelas instituições investigadoras e pela Justiça norte-americanas.
Além dos problemas pela proximidade com Hernández, Asfura tem seus próprios problemas: em 2020, ele foi acusado pelo Ministério Público por suposta apropriação de dinheiro público, no valor de 17,4 milhões de lempiras (R$ 3,5 milhões), e no ano seguinte teve seu nome vinculado no escândalo Pandora Papers, ligado a uma empresa offshore criada no Panamá.
O ultraconservador também tem uma pesquisa para chamar de sua, realizada pela consultora Métrica, na qual ele aparece com 36,4% das intenções, mas em empate técnico com Nasralla, que teria 34,3%, enquanto Moncada ficaria com 26,8%.
Candidato de Biden
Desde a chegada de Trump ao poder nos Estados Unidos, quando começou a se levantar o apoio da Casa Branca a Asfura, quem mais perdeu foi o candidato do Partido Liberal, o jornalista esportivo Salvador Nasralla, considerado o favorito de Washington durante o governo de Joe Biden (2021-2025).
Esta será a terceira vez que Nasralla disputa a presidência de Honduras. A primeira vez foi em 2013, como representante do conservador Partido Anticorrupção, e ele terminou em quarto lugar, com 13,4% dos votos válidos.
Em 2017, porém, ele foi o candidato do Libre, apoiado por Xiomara, e terminou em um segundo lugar marcado por diversas polêmicas.
A principal polêmica surgiu a partir das denúncias de fraude eleitoral. Naquela eleição, o vencedor foi Juan Orlando Hernández, que era o atual presidente e venceu com 42,9%, contra 41,4% de Nasralla.
À época, a Missão de Observadores da Organização dos Estados Americanos (OEA) afirmou que ter encontrado várias irregularidades durante o processo e apresentou um informe afirmando que os resultados oficiais entregues pelo Conselho Nacional Eleitoral de Honduras (CNE, por sua sigla em espanhol) não eram confiáveis.
A outra controvérsia daquele pleito foi o fato de que Juan Orlando Hernández conseguiu concorrer à reeleição graças a uma emenda constitucional que foi considerada ilegal pela Corte Suprema do país durante o seu segundo mandato, mas que não o retirou do cargo – ou seja, o tribunal considerou que a emenda não foi aprovada no Congresso de forma correta, e que portante o artigo que impede a reeleição no país continua vigente, e mesmo assim não revogou sua vitória eleitoral em 2017.
Em 2021, Nasralla também foi candidato pelo Partido Liberal, mas renunciou em meio à campanha e entregou seu apoio a Xiomara Castro.
Sobre o pleito deste ano, a pesquisa a favor de Nasralla é a da consultora ASJ, onde ele aparece com 26%, contra 20% de Asfura e 16% de Moncada.
Candidaturas sem apoio
Além de Moncada, Asfura e Nasralla, as eleições de Honduras possuem outras duas candidaturas menores que também participam da disputa.
Uma delas é a de Nelson Ávila, do Partido Inovação e Unidade Social Democrata (PINU-SD), considerada de centro-esquerda.
O outro candidato na disputa é Mario Rivera, do Partido Democrata Cristão, considerado como um representante da direita conservadora.
Além da Presidência e dos representantes do Congresso, o eleitorado hondurenho deverá escolher na jornada de hoje os 20 representantes do país no Parlamento Centro-Americano (Parlacen), que possui 120 cadeiras no total e no qual participam representantes de seis países (além de Honduras, fazem parte El Salvador, Guatemala, Nicarágua, Panamá, e República Dominicana).
Possibilidades de fraudes
As eleições em Honduras foram tensionadas por ameaças de fraudes neste domingo. Horas antes do início do pleito, o conselheiro eleitoral hondurenho Marlon Ochoa denunciou vulnerabilidades identificadas no sistema de Transmissão de Resultados Eleitorais Preliminares (TREP), aumentando a preocupação e a vigilância contra manipulações.
Em mensagem na plataforma X, ele afirmou que as vulnerabilidades identificadas durante a simulação fracassada de 9 de novembro persistem no TREP, salientando que 65% dos minutos do sistema de transmissão dos resultados não puderam ser encaminhados. Segundo Ochoa, entre ontem e hoje, três testes fracassados foram realizados e o atraso no desligamento do sistema causou a falha de vários testes.
Segundo uma auditoria, alertou Ochoa, antenas de satélite podem ser desativadas sem deixar nenhum rastro pelas empresas. Denuncias anteriores apontaram um plano para reduzir a intensidade do sinal de certas antenas, prejudicando o resultado eleitoral. O conselheiro eleitoral disse que as falhas na rede telefônica foram confirmadas, sem que as empresas responsáveis tenham dado explicação satisfatória até agora.
O Libre, partido da presidente Xiomara Castro e da candidata Rixo Moncada, já anunciou que realizará uma contagem paralela de votos e pediu reforço na vigilância dos delegados e observadores internacionais.
Com informações de TeleSur.























