Terça-feira, 13 de janeiro de 2026
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O ultradireitista José Antonio Kast, líder do Partido Republicano, venceu o segundo turno das eleições do Chile e está eleito presidente após derrotar a candidata comunista Jeannette Jara em uma das jornadas eleitorais mais decisivas desde o retorno à democracia no país.

Tanto os dados oficiais do Serviço Eleitoral (Servel) quanto a mídia local confirmaram desde cedo a tendência irreversível: com mais de 95% das urnas apuradas, Kast obteve 58,3% dos votos contra 41,7% de Jara.

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Trata-se de uma diferença de cerca de 20 pontos percentuais, uma magnitude que confirma uma ampla vitória da extrema direita chilena e marca uma profunda mudança no cenário político nacional, apenas quatro anos após a vitória de Gabriel Boric. Por outro lado, a direita consegue emular a vitória da rejeição ao processo constituinte que fracassou em 2021.

“A democracia falou alto e claro”, disse Jara ao afirmar que ligou para Kast para parabenizá-lo pela vitória e confirmar o resultado. “Àqueles que nos apoiaram e foram chamados por nossa candidatura, saibam que continuaremos trabalhando para promover uma vida melhor em nosso país. Juntos e firmes, como sempre estivemos”.

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Boric também parabenizou Kast pela vitória e falou que o aguarda para realizar uma “melhor transição possível”, afirmando que a responsabilidade “deve ser abordada com muito carinho”.

josé kast

Com eleição de Kast, Chile volta à direita
Reprodução / @joseantoniokast

Voto obrigatório e um eleitorado transformado

Esta foi a primeira eleição presidencial com voto obrigatório no Chile desde o fim da ditadura de Augusto Pinochet. Mais de 40.900 mesas foram habilitadas no país e no exterior, e praticamente todas elas foram instaladas normalmente. O novo sistema modificou de forma decisiva o perfil do eleitorado, incorporando milhões de pessoas que não haviam participado de processos presidenciais anteriores.

Nesse contexto, o discurso de segurança, ordem e imigração – eixos centrais da campanha de Kast – encontrou terreno fértil. Embora a economia chilena tenha apresentado indicadores relativamente estáveis durante o governo de Boric, a narrativa de que “o Chile está se desintegrando” conseguiu se instalar com força, amplificada pelas redes sociais, notícias falsas e campanhas de medo.

O cenário internacional também pesou: o aumento da migração e a preocupação com a criminalidade foram temas recorrentes nos debates televisivos e radiofônicos da semana anterior, favorecendo as candidaturas da direita.

Uma campanha marcada por polêmicas e desinformação

A reta final da campanha foi marcada por controvérsias que tensionaram o debate público. Entre elas, as declarações do deputado do Partido Republicano, Gonzalo Meza, que defendeu a possibilidade de comutar penas para condenados por crimes graves, incluindo abuso sexual contra menores, geraram ampla rejeição.

Kast optou inicialmente por minimizar o assunto, apontando que não se tratava de uma discussão relevante para o país, o que reacendeu questionamentos sobre o quadro ético de seu setor político.

A isso se somaram dados imprecisos fornecidos pelo próprio Kast durante os debates, como a afirmação de que no Chile morrem mais de uma milhão de pessoas por ano, número amplamente superior aos registros oficiais. Também ficaram evidentes contradições programáticas, como sua posição sobre a jornada de trabalho de 40 horas: enquanto seu programa propõe eliminá-la para pequenas e médias empresas, no debate ele afirmou que “seria necessário revisá-la”.

Combate à imigração à ‘desordem’

Em seu primeiro discurso como presidente eleito, Kast afirmou que “o Chile não pode se acostumar com o medo” e prometeu uma linha dura contra o crime, a imigração irregular e a “desordem”. Anunciou mudanças imediatas a partir do dia seguinte à eleição e uma aceleração do programa a partir de 11 de março de 2026, data em que assumirá formalmente o cargo.

O tema central de seu discurso foi a segurança como pré-requisito para a democracia, afirmando que “sem ordem, não há liberdade”. Ele elogiou as Forças Armadas e a Polícia, questionou os protestos sociais e argumentou que o país atravessa uma crise moral e de autoridade. Referindo-se ao seu rival, pediu “respeito e silêncio”, um gesto que contrastava fortemente com as comemorações de seus apoiadores nas ruas.

Na noite de sua vitória, comemorações com bandeiras chilenas e símbolos associados à ditadura ocorreram em vários pontos de Santiago, incluindo bandeiras com a imagem de Pinochet e o canto do terceiro verso do hino nacional, usado oficialmente durante o regime militar. Simultaneamente, protestos ocorreram no centro da cidade, com pequenos confrontos e forte presença policial.

La Moneda como símbolo de poder

Kast anunciou que se mudará para o Palácio de La Moneda, uma decisão carregada de simbolismo histórico e que remete ao governo de Carlos Ibáñez del Campo, uma das figuras autoritárias do Chile do Século 20. O gesto reforça a interpretação de sua presidência como uma reafirmação da ordem republicana baseada em uma concepção vertical do poder.

Sua chegada ao governo ocorre em um contexto parlamentar fragmentado, sem maioria, o que prenuncia tensões entre o amplo mandato eleitoral que reivindica e as limitações institucionais do Congresso. Ainda assim, Kast insistiu que possui um “mandato claro que não admite desculpas nem atrasos”.

A eleição de José Antonio Kast não apenas redefine o cenário político chileno, como também coloca a extrema direita no poder pela primeira vez por meios democráticos, fechando um ciclo iniciado após a revolta social e projetando um cenário de confronto entre ordem e direitos, segurança e democracia, autoridade e memória.