Justiça argentina detecta discrepâncias milionárias em bens de ex-porta-voz de Milei
Patrimônio de Manuel Adorni, ex-chefe de gabinete da Presidência, passou de R$ 86 mil para R$ 3,2 milhões, em menos de dois anos de administração pública
A Justiça da Argentina afirmou nesta sexta-feira (17/07) que o ex-chefe de gabinete da Presidência, Manuel Adorni, não conseguiu comprovar o aumento de seu patrimônio de 25 milhões para 944 milhões de pesos argentinos (cerca de R$ 86 mil para R$ 3,2 milhões), em menos de dois anos de administração pública.
O relatório foi elaborado pela Direção-Geral de Assessoria Econômica e Financeira em Investigações (DAFI), vinculada ao Ministério Público. Em suas 180 páginas, o órgão destaca a falta de documentação comprobatória do ex-funcionário, afirmando que “ele não apresentou documentação para fundamentar essa transação”.
Adorni, que se demitiu em 27 de junho, após quase oito meses como chefe de gabinete e porta-voz do presidente de extrema-direita Javier Milei, tentou justificar seu súbito aumento de riqueza com uma história que desmoronou completamente.
Ele alegou ter encontrado US$ 200 mil pertencentes a seu falecido pai, investido em Bitcoin e obtido um lucro de US$ 300 mil. No entanto, as plataformas Binance e Lemon Cash confirmaram à promotoria que o ex-funcionário jamais movimentou esses valores.
O pai de Adorni morreu endividado e enfrentando três processos judiciais por falta de pagamento de um empréstimo, uma hipoteca e despesas. Além disso, o dinheiro não consta nos autos do inventário, nem há quantias equivalentes que pertenceriam ao seu irmão e à sua mãe.

Justiça argentina detecta discrepâncias milionárias em bens do ex-porta-voz de Milei
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Gastos extravagantes
A investigação revela uma série de gastos extravagantes de Manuel Adorni, todos pagos em dinheiro vivo. Ele viajou para Nova York em classe executiva com a esposa por US$ 5 mil, voou para Punta del Este em um avião particular por US$ 9 mil , pagos por um amigo, passou férias em Aruba, hospedou-se por uma semana no Hotel Llao Llao em Bariloche e pagou a viagem da esposa a Madri com as amigas da escola.
No setor imobiliário, Adorni comprou um apartamento em Caballito por US$ 230 mil com um empréstimo sem juros de duas aposentadas e gastou US$ 65 mil em reformas. A joia da coroa foi a casa no condomínio fechado Indio Cuá: registrada por US$ 120 mil, mas o empreiteiro Matías Tabar testemunhou que o ex-funcionário pagou US$ 245 mil em dinheiro vivo por uma cascata, aquecimento para a piscina, 19 peças de mobiliário, uma churrasqueira e uma ilha de cozinha.
Opacidade extrema
O nível de opacidade atingiu extremos quando se tornou público que o ex-funcionário gastou 8 milhões de pesos em documentos preenchidos em nome de sua secretária e utilizou cartões de crédito de funcionários da Casa Rosada para que as despesas não constassem em seu nome.
Desde que assumiu o cargo público em dezembro de 2023, Adorni tinha um poder de compra que não correspondia à sua renda declarada: 3,5 milhões de pesos por mês (R$ 12 mil mensais).
Apesar do escândalo, Javier Milei e sua irmã, Karina Milei, Secretária-Geral da Presidência, resistiram à demissão de Adorni por mais de três meses. O presidente pagou um alto preço político por mantê-lo no cargo e continua a defendê-lo publicamente.
Caminho para a investigação
O procurador Gerardo Pollicita aproveitará o recesso judicial de inverno para solicitar formalmente que Adorni explique e apresente documentação comprovando a origem de seus fundos. Este é um passo preliminar antes de solicitar uma audiência preliminar por enriquecimento ilícito. Nesses casos, o ônus da prova recai sobre o acusado, que deve demonstrar sua inocência.
Caso as explicações não sejam convincentes, o juiz Ariel Lijo poderá intimá-lo a depor e, posteriormente, emitir uma acusação formal. Especialistas indicaram que o caso culminará em uma análise pericial definitiva por parte de contadores do Supremo Tribunal.
O advogado de Adorni, Matías Ledesma, não apresentou qualquer documentação comprobatória durante todo o processo . Espera-se que a defesa tente atrasar o andamento do processo. Entretanto, a DAFI já declarou: as inconsistências são enormes e nada faz sentido.
O ex-chefe de gabinete terá que retornar ao Tribunal Federal a partir de 3 de agosto para tentar justificar o que até agora parece injustificável.























