Keiko Fujimori toma posse no Peru com protestos de justiça às vítimas da ditadura de seu pai
Discurso da nova mandatária traz foco na Segurança e promessa de ‘nova forma de governar’, com ‘método para implementar ordem e disciplina’
A líder ultraconservadora Keiko Fujimori assumiu a Presidência do Peru em cerimônia realizada nesta terça-feira (28/07), no Congresso Nacional do país andino, em Lima.
Filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000), ela chegou ao cargo após vencer as eleições presidenciais deste ano por uma margem muito apertada de votos – pouco mais de 49 mil votos sobre o progressista Roberto Sánchez –, mas que foi suficiente para dar a ela o direito de assumir um mandato de cinco anos, programado para terminar em 2031.
O discurso de posse foi interrompido logo em suas primeiras palavras por manifestantes que gritaram das tribunas do Congresso por “justiça às vítimas” da ditadura da ditadura liderada por seu pai. O episódio levou a mandatária recém empossada a atrasar sua declaração por alguns minutos, até que as forças de segurança retirassem os manifestantes do recinto.
Ao retomar o discurso, Keiko enfatizou que “recebemos um Estado enfraquecido pela corrupção, onde as instituições deixaram de servir aos cidadãos”.
“O Estado em que recebemos o governo é tão catastrófico que resultou em um cenário em que o Peru tem a maior desigualdade de renda de toda a América Latina. Este é o país que herdamos hoje: um país com potencial infinito, mas prejudicado pela desorganização, assolado pela insegurança e fragmentado pela desconfiança, o que causou uma ferida muito profunda no tecido social”, acrescentou a presidente.
A presidente declarou então que “vim oferecer método, disciplina, trabalho árduo e um caminho claro a seguir. A partir deste momento, começa a correr um relógio irreversível: temos exatamente 1.826 dias de mandato pela frente. Meu principal objetivo é sanar o enorme déficit social que afeta milhões de peruanos”.
“Vamos implementar uma nova forma de governar; o Estado estará novamente a serviço dos cidadãos, porque a burocracia não pode se tornar uma barreira entre os cidadãos e seus direitos”, prometeu Keiko.
A líder ultraconservadora afirmou que “no futuro imediato, meu governo estará focado em duas emergências nacionais: mitigar o fenômeno El Niño e fortalecer a segurança cidadã”.
“Durante os estados de emergência, as Forças Armadas assumirão temporariamente a liderança das operações de segurança e o controle da ordem interna, em estreita coordenação com a Polícia Nacional. Nossa prioridade será fortalecer integralmente nossa gloriosa Polícia Nacional do Peru. Restauraremos o respeito, os equipamentos e o apoio político que ela merece para cumprir firmemente sua missão de defender os peruanos que respeitam a lei”, enfatizou.
Segundo o diário La República, as forças de segurança do Peru colocaram em ação um forte aparata de segurança ao redor do Centro Histórico de Lima, onde estão os edifícios governamentais, para evitar a realização de protestos nos arredores do Congresso e do Palácio Pizarro, sede do Poder Executivo.
No entanto, foram registradas numerosas manifestações nas zonas próximas às barreiras policiais, de grupos antifujimoristas e de setores que contestam o resultado do segundo turno das eleições.
Estiveram presencialmente na cerimônia os presidentes da Argentina, Javier Milei; da Bolívia, Rodrigo Paz; do Chile, José António Kast; do Equador, Daniel Noboa; de Honduras, Nasry Asfura; do Panamá, José Raúl Mulino; do Paraguai, Santiago Peña; e do Uruguai, Yamandú Orsi; além do rei da Espanha, Felipe VI.
O Brasil foi representado no evento pelo ministro de Relações Exteriores, Mauro Vieira, que encabeçou a delegação enviada a Lima pelo Itamaraty.

A presidente do Peru, Keiko Fujimori, minutos depois de receber a faixa presidencial
Congresso do Peru
Volatilidade presidencial
Um dos desafios de Keiko Fujimori no poder será romper com a instabilidade política que aflige o Peru há uma década e que incide especialmente na Presidência da República, cargo pelo qual, nos últimos oito anos, passaram oito presidentes distintos.
A série começou com o ultraliberal Pedro Pablo Kuczynski eleito em 2016 e renunciou em março de 2018 para escapar de um processo de impeachment. Em seu lugar assumiu seu vice, o direitista moderado Martín Vizcarra, que se manteve no cargo até novembro de 2020, quando foi destituído em 2020.
Em seguida, o cargo passou às mãos do também direitista Manuel Merino, que durou apenas cinco dias no poder, e acabou caindo para dar lugar ao centrista Francisco Sagasti, que governou interinamente até o final do mandato, em julho de 2021.
Naquele julho de 2021, a Presidência do Peru passou a ser exercida pelo progressista Pedro Castillo eleito no mês anterior e derrubado em dezembro de 2022.
Sua vice, a liberal Dina Boluarte, durou mais tempo no cargo, até outubro de 2025, dando lugar ao conservador José Jerí, que também foi destituído, e substituído em fevereiro deste ano pelo esquerdista José María Balcázar, que encerra seu mandato tampão entregando a faixa presidencial à filha do ditador Fujimori.























