Quarta-feira, 12 de agosto de 2026
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Após 26 anos, o sobrenome Fujimori volta à Presidência do Peru, com a posse da ultraconservadora Keiko Fujimori nesta terça-feira (28/07).

Vencedora das eleições realizadas entre abril (primeiro turno) e junho segundo turno) deste ano, a filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000) se impôs por uma margem muito apertada de votos – pouco mais de 49 mil votos sobre o progressista Roberto Sánchez –, mas que foi suficiente para dar a ela o direito de assumir um mandato de cinco anos, programado para terminar em 2031.

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A socióloga e doutora em Geografia Rita Coitinho observa uma diferença entre o que poderá ser o governo de Keiko e a ditadura de seu pai. “Ela foi eleita por ser a mais viável dentro do rol de candidatos que representam a agenda neoliberal no Peru. Não exatamente por um apego ao fujimorismo, embora é claro que há um setor da população que parece apegar-se à agenda autoritária do ex-ditador, que também foi o introdutor do neoliberalismo no país”, avalia.

“Isso mostra que há uma resiliência dos projetos de corte neoliberal no Peru, a despeito de todos os efeitos negativos que isso trouxe para o país, desde Alberto Fujimori”, acrescenta Coitinho.

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A acadêmica também salienta que “a adesão ao neoliberalismo no Peru, embora tenha conseguido vencer as eleições, enfrenta uma resistência que vem ganhando força. Já elegeu um presidente – derrubado por uma armação com participação ativa do Legislativo, dominado por políticos vinculados às classes proprietárias do Peru – e conseguiu chegar novamente ao segundo turno, perdendo a eleição por uma quantidade ínfima de votos”.

Coitinho destaca que Keiko “abraça um projeto que funde neoliberalismo e militarismo, algo que remete aos anos da ditadura de Fujimori e explora a criminalidade e o sentimento de ‘vingança’ da população contra criminosos, com uma agenda punitivista”, complementa.

Já o economista e cientista político peruano Nilo Meza afirma que “a rigor, o fujimorismo continua muito presente na composição do Parlamento, especialmente desde 2016, quando passou a exercer uma pressão que, na prática, esmagou o presidencialismo em favor de um sistema parlamentar com poderes ilimitados e inescrupulosos”.

“O fujimorismo controla o Congresso peruano por meio de mecanismos mafiosos, com a participação dos elementos mais nocivos da extrema direita. O parlamentarismo de facto não só ostentou sua impunidade durante os últimos oito anos como também minou as instituições do país e resultou em oito presidentes nesse período, uma Corte Constitucional e todo o aparato do Poder Judiciário subservientes ao fujimorismo, revelando a precariedade terminal da democracia no Peru”, avalia Meza.

Volatilidade presidencial

Um dos desafios de Keiko Fujimori no poder será romper com a instabilidade política que aflige o Peru há uma década e que incide especialmente na Presidência da República, cargo pelo qual, nos últimos oito anos, passaram oito presidentes distintos: o ultraliberal Pedro Pablo Kuczynski, o direitista moderado Martín Vizcarra, o também direitista Manuel Merino, o centrista Francisco Sagasti, o progressista Pedro Castillo, a liberal Dina Boluarte, o conservador José Jerí e o esquerdista José María Balcázar, encerra seu mandato tampão entregando a faixa presidencial à filha do ditador Fujimori.

O economista Nilo Meza acredita que Keiko talvez seja capaz de frear a volatilidade no cargo presidencial, “que é um problema gerado justamente pelo fujimorismo”. Segundo ele, boa parte dos processos de destituição promovidos no período foram impulsionados pelos setores fujimoristas do Congresso peruano.

“O que deve surgir é uma espécie de estabilidade aplaudida pelos ultrarricos e pela máfia política que controla os escalões mais sutis e profundos do poder”, vaticina.

Por sua vez, a socióloga Rita Coitinho acredita que a instabilidade política durante o governo de Keiko “vai depender do Legislativo, ou melhor, da capacidade da presidente em manter alguma coesão com o Congresso, e isso será muito fácil”.

A doutora em Geografia acredita que a governabilidade no Peru estará em disputa, com “as forças de direita que, somadas, têm 30 cadeiras no Senado e 63 na Câmara dos Deputados, enquanto os partidos de esquerda juntos ocupam 30 assentos no Senado e 67 na Câmara”.

Keiko Fujimori assume mandato presidencial no Peru que deveria durar até 2031
Presidência do Peru

Relação com o Brasil

Os dois entrevistados por Opera Mundi concordam em que as relações entre Peru e Brasil não devem sofrer mudanças durante o governo da ultradireitista Keiko Fujimori, mesmo se o governo de centro-esquerda de Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito para um novo mandato de quatro anos no Palácio do Planalto.

Para Rita Coitinho, “as relações entre Brasil e Peru são historicamente amistosas e não acredito que ocorra um afastamento ou hostilidade. A não ser que a agenda intervencionista dos Estados Unidos venha a provocar um alinhamento de governos mais à direita, numa eventual reeleição de Lula, que busque deliberadamente isolar o Brasil. Mas não considero isso muito provável”.

“Os dois países têm muito em comum e ganhariam ao ampliar a cooperação, tanto nos temas onde já trabalham juntos, como o fórum de países amazônicos e questões de fronteiras, quanto no avanço de projetos que estão em marcha lenta, como o de integração das infraestruturas de transporte”, adiciona a acadêmica.

O economista Nilo Meza afirma que “o pragmatismo de Lula não terá problemas em manter boas relações com o governo de Keiko Fujimori”.

“Ambos os países, além da situação atual, têm muitos interesses em comum. Um deles é a Ferrovia Bioceânica, que não só conectará o Pacífico ao Atlântico, mas também será a ligação perfeita entre os mercados sul-americanos e os mercados asiáticos, especialmente a China. Um projeto que transcende a situação atual e Pequim sabe disso, talvez alguém no Peru também saiba”, pondera.

Meza adverte, porém, que “se o Brasil devolver o poder à família Bolsonaro nas próximas eleições, a relação será muito mais profunda e, entre outras coisas, terá como objetivo unir forças na tarefa de eliminar qualquer setor político que questione o neoliberalismo”.