Mais de 1,5 milhão de argentinos vão às ruas em defesa da educação pública
Marcha Universitária reuniu estudantes, docentes e famílias contra cortes de Milei; manifestantes exigem cumprimento da Lei de Financiamento Universitário aprovada em 2015
Centenas de milhares de pessoas se manifestaram nesta terça-feira (12/05) em todas as províncias da Argentina como parte da Quarta Marcha Universitária Federal. O dia reuniu estudantes, professores, autoridades universitárias, funcionários não docentes, sindicatos, organizações e famílias que foram às ruas em defesa da educação pública e para exigir que o governo de Javier Milei cumpra a Lei 27.795 sobre o Financiamento das Universidades, aprovada em outubro de 2025 após a derrubada do veto presidencial.
Em todo o país, marchas denunciaram a política de desfinanciamento e desmantelamento implementada pelo Executivo Nacional, num contexto em que 70% dos salários de professores universitários e funcionários não docentes estão abaixo da linha da pobreza, registando uma perda salarial equivalente a oito salários desde o início do governo do ultradireitista.
Mais de 60 universidades em todo o país exigiram o cumprimento da lei e a destinação de verbas para garantir seu funcionamento. Segundo os organizadores, 1,5 milhão de pessoas se mobilizaram nesta terça-feira em diferentes partes do país.
Sob o lema “Pela educação, universidade pública e ciência nacional”, a mobilização em Buenos Aires foi organizada com o apoio da Federação Argentina de Universidades (FUA), da Frente Nacional de Sindicatos Universitários e do Conselho Interuniversitário Nacional (CIN), e teve seu epicentro na Praça de Maio, onde ocorreu o evento principal.
El Himno Nacional Argentino con la Plaza de Mayo estallada. Aguante la universidad pública. Milei dejá de AFANAR y entregá la plata para nuestros docentespic.twitter.com/kpIJV0lT6d
— Arrepentidos de Milei (@ArrepentidosLLA) May 12, 2026
Durante o dia também foram registradas mobilizações massivas em cidades como Córdoba, Rosário, Santa Fé, Mendoza, Neuquén, Salta, Jujuy, Mar del Plata, Corrientes e Resistencia, entre outras.
Segundo um relatório do Centro Ibero-Americano de Pesquisa em Ciência, Tecnologia e Inovação (CIICTI), o orçamento das universidades argentinas caiu este ano para 0,428% do Produto Interno Bruto (PIB), o nível mais baixo desde 1989. Esse número contrasta fortemente com os 0,526% do PIB registrados em 2025 e os 0,718% em 2023, antes da posse do atual governo.
Segundo o relatório da Ciicti, os fundos alocados pelo Ministério da Educação da Argentina para o desenvolvimento do ensino superior sofreram uma queda real de 21,8% em 2024, seguida por um declínio de 3,5% em 2025. As projeções indicam uma queda adicional de 16,9% para 2026, intensificando as preocupações no setor.
Uma das unidades acadêmicas que liderou o protesto nos últimos meses é a Faculdade de Ciências Exatas da Universidade de Buenos Aires (UBA), que perdeu um professor a cada dois dias desde dezembro de 2023.
Durante a mobilização, o reitor da instituição, Guillermo Durán, afirmou enfaticamente: “Milei tem que cumprir a lei e não está cumprindo. Resta agora expressar isso a ele nas ruas. Esta é a quarta vez que estudantes universitários vão às ruas para dizer isso a ele”.
“O objetivo do governo é eliminar as universidades públicas de qualidade. Quando dizemos: ‘eles querem fechar as universidades públicas’, e eles respondem: ‘vejam, não estamos fechando’, não, o que eles estão fazendo é sufocá-las, estrangulá-las para que se tornem de baixa qualidade e, então, uma vez que estejam de baixa qualidade, dirão: ‘agora não precisamos financiá-las porque são de baixa qualidade’. É perverso”, afirmou Durán.
Em Buenos Aires, os grupos organizadores denunciaram que a crise enfrentada pelas universidades “não é apenas orçamentária”. “O Poder Executivo, num ato sem precedentes de desprezo institucional, decidiu se insurgir contra os outros dois poderes: ignora a Lei de Financiamento das Universidades nº 27.795, aprovada e ratificada por ampla maioria no Congresso, e desconsidera as decisões judiciais que ordenam seu cumprimento imediato”, declararam membros da Confederação das Universidades Argentinas (FUA) durante a leitura do documento no evento principal na Praça de Maio.
“Não podemos permitir que os pilares de nossas universidades — trabalhadores, docentes, funcionários, pesquisadores e estudantes — sejam expulsos do sistema. Se não defendermos nossas universidades hoje, o futuro de prosperidade do país não passará de um sonho. É aqui e agora. As universidades públicas devem ser defendidas. Por mais e melhor educação pública e ciência”, concluíram.
O acesso ao ensino superior público na Argentina é gratuito para os estudantes desde 1949, e muitas das 57 universidades nacionais, financiadas pelo Estado, gozam de sólida reputação acadêmica. Essa tradição de gratuidade e excelência está ameaçada por cortes orçamentários, o que motivou a grande manifestação de hoje em defesa do modelo nacional de educação.
(*) com teleSUR
























