O presidente argentino, Javier Milei, elevou neste fim de semana a tensão com o Reino Unido em torno das Ilhas Malvinas, ao anunciar medidas contra empresas envolvidas na exploração de petróleo no arquipélago, controlado pelos britânicos e reivindicado pela Argentina. O governo argentino abriu procedimentos para investigar e eventualmente punir 45 empresas e entidades relacionadas à exploração e produção de hidrocarbonetos na região.
Segundo comunicado divulgado pela Presidência argentina, a ofensiva inclui empresas que atuam diretamente nos projetos petrolíferos, além de fornecedores e outros envolvidos nas operações. A medida ocorre após Milei anunciar um projeto de lei para ampliar as sanções contra atividades que Buenos Aires considera ilegais nas águas das Malvinas. A agência AFP confirmou neste domingo a abertura dos procedimentos.
O principal alvo é o projeto Sea Lion, localizado a cerca de 220 quilômetros ao norte das ilhas. O campo é desenvolvido pela britânica Rockhopper Exploration e pela israelense Navitas Petroleum e tem reservas estimadas em 1,7 bilhão de barris de petróleo. Conforme a agência Investing, as empresas afirmam possuir licenças válidas para a exploração e dizem não esperar impacto significativo sobre o cronograma do projeto. A produção está prevista para começar em 2028.
Em pronunciamento nacional na quinta-feira (03/09), Milei classificou a exploração como uma ameaça aos interesses argentinos e afirmou que Buenos Aires utilizará instrumentos diplomáticos, econômicos, jurídicos e legais para defender sua reivindicação sobre as ilhas. O governo também anunciou uma proposta de criação de um Conselho de Segurança Nacional, além do reforço da infraestrutura naval e marítima na Terra do Fogo.
Milei tem dito à imprensa que “os ventos da mudança estão soprando a nosso favor”, frase reproduzida pelo The Guardian, e que “devemos agir rápido”, para Sky News. O presidente argentino tem apostado na onda de governos de extrema direita eleitos em países como Chile, Peru e Colômbia com o apoio indisfarçado da Casa Branca.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou recentemente que Washington poderia rever sua tradicional posição de neutralidade sobre a soberania das Malvinas. Para Milei, a declaração representa uma mudança potencialmente favorável à reivindicação argentina. A Reuters informou que Trump chegou a questionar se o Reino Unido teria hoje capacidade para defender militarmente as ilhas em caso de um novo conflito.

O governo britânico reafirmou que seu compromisso com as Malvinas é “absoluto e inabalável”, como mostra a Al Jazeera. O secretário de Defesa, Wes Streeting, afirmou que a declaração de Milei diz mais sobre a política interna argentina do que sobre o arquipélago. Londres também sustenta o direito de autodeterminação dos habitantes das ilhas, que em um referendo de 2013 votaram quase unanimemente pela permanência sob soberania britânica.
A disputa remonta ao século XIX e culminou na Guerra das Malvinas, em 1982, quando a Argentina ocupou o arquipélago e o Reino Unido enviou uma força militar para retomá-lo. O conflito terminou após cerca de dez semanas, com mais de 900 mortos. Agora, 44 anos depois, a descoberta de grandes reservas de petróleo acrescenta uma dimensão econômica a uma disputa que permanece como uma questão nacional na Argentina.