Sábado, 15 de agosto de 2026
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O presidente argentino Javier Milei avança na organização de uma cúpula da direita que pretende reunir chefes de Estado e lideranças políticas regionais e internacionais alinhadas ao seu projeto ideológico de combate ao que chama de “socialismo do Século 21” e ao movimento identitário conhecido como “woke” – ou o que se conhece no Brasil como “lacração”.

Segundo apoiadores do presidente argentino, sua agenda aponta a tentar transformá-lo em uma espécie de fiador de uma aliança estratégica capaz de contrabalançar governos de esquerda e centro-esquerda na região e, ao mesmo tempo, reforçar o alinhamento do bloco com o governo dos Estados Unidos, sob a Presidência de Donald Trump.

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Essa análise se baseia em uma leitura que considera a América do Sul como um cenário em transformação, no qual líderes de direita e extrema direita avançam, especialmente após as vitórias eleitorais conquistadas no primeiro semestre deste ano.

O caso mais recente é o da Colômbia, onde o advogado Abelardo de la Espriella venceu o segundo turno presidencial em 21 de junho, por margem bastante apertada, contra Iván Cepeda, candidato apoiado pelo presidente de esquerda Gustavo Petro.

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De la Espriella, que recebeu o apoio explícito de Trump durante a campanha, foi imediatamente saudado nas redes sociais por Milei e pelo presidente do Chile, José Antonio Kast, além de outras lideranças conservadoras da região.

Alguns analistas consideram que, apesar da compatibilidade ideológica, faltaria a Milei densidade política para liderar esse movimento, apontam analistas. Para especialistas ouvidos por Opera Mundi, o desempenho de “pop star” cultivado por Milei está longe de garantir impactos eleitorais significativos em outros países.

O presidente argentino anunciou recentemente uma agenda para a América Latina, a mais intensa desde que assumiu o cargo, em dezembro de 2023. As viagens incluem Brasil, Peru e Colômbia – os dois últimos elegeram recentemente presidentes de extrema direita.

No caso brasileiro, Milei não esconde sua preferência pelo pré-candidato Flávio Bolsonaro, nem sua proximidade com o ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2023), condenado opelo Superior Tribunal Federal (STF) por liderar uma tentativa de golpe de Estado, em trama que se desenvolveu desde a derrota eleitoral em outubro de 2022 até os atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023.

‘Não tem qualidade de líder’

O cientista político argentino Lucas Romero, que estuda a ascensão do libertário argentino, foi taxativo ao avaliar as pretensões de liderança regional de Milei.

“Ele não tem qualidade de líder. Não tem qualidade estratégica como político, nem experiência em liderar. Isso é justamente o contrário do que seria necessário para exercer uma liderança regional, mesmo que contasse com uma equipe qualificada ao seu redor”, observa.

Segundo o especialista, o que sustenta a projeção internacional de Milei é menos um projeto de liderança institucional e mais a construção de uma marca pessoal.

“Ele busca promover sua imagem globalmente como referência das ideias libertárias e encontra espaço para isso por conta de sua excentricidade. Acaba sendo uma figura à qual outros líderes recorrem por sua capacidade de atrair a atenção de determinados segmentos do público”, acrescenta Romero.

De acordo com o cientista político Diego Reynoso, pesquisador do Conselho Nacional de Investigações Científicas e Técnicas da Argentina (Conicet, por sua sigla em espanhol), Milei tornou-se uma referência simbólica para setores da direita latino-americana, mas não necessariamente uma liderança regional.

“O que ele oferece é uma forma de interpelar os eleitores decepcionados com os sistemas políticos tradicionais de seus países”, ponderou.

Na avaliação de Reynoso, a principal influência de Milei está na chamada batalha cultural, agenda que o presidente argentino defende com convicção quase religiosa.

É justamente nesse terreno que se encontra sua maior afinidade com Donald Trump. Na área econômica, porém, as diferenças são relevantes. “Embora ambos defendem políticas pró-mercado, Milei é muito menos protecionista do que o presidente norte-americano”, ressalta Reynoso.

Na avaliação do acadêmico, a influência de Milei sobre candidaturas de direita na região ocorre de maneira mais pragmática do que estrutural. “Os candidatos que buscam se aproximar de sua imagem procuram transmitir legitimidade a determinados segmentos do eleitorado. A influência existe, mas não se traduz, ao menos até agora, em mecanismos mais complexos de coordenação econômica ou de incidência política direta”, analisa.

Ainda assim, o pesquisador considera inegável a consolidação de um bloco ideológico de direita na América Latina. “Estamos assistindo esse processo, ainda que formado por lideranças que compartilham sobretudo estratégias de comunicação e a batalha cultural. Ainda é cedo, no entanto, para afirmar se isso resultará em uma agenda comum de políticas públicas ou em formas mais profundas de integração”, resume Reynoso.

Vínculo ‘subsidiário’

Para Lucas Romero, o protagonismo de Milei na articulação da direita latino-americana está diretamente ligado ao alinhamento argentino com a Casa Branca.

“O vínculo com Trump é subsidiário. Milei oferece abertura total à agenda dos Estados Unidos na Argentina em troca de apoio diante das turbulências econômicas do país. Os Estados Unidos têm interesses estratégicos em recursos argentinos”, afirma o pesquisador, referindo-se às reservas de lítio (minérios), ao petróleo e gás da jazida de Vaca Muerta e ao controle marítimo e geopolítico para conter a China.

Fontes em Buenos Aires ouvidas pela reportagem confirmam que a intenção do governo argentino é atuar em sintonia com a política externa da administração Trump – algo que Milei já vem demonstrando desde o início do mandato, tanto em fóruns multilaterais quanto em decisões de política econômica e comercial.

Dentro do próprio partido de extrema direita A Liberdade Avança, militantes descrevem presidente argentino, fundador da legenda, como um “líder natural”, capaz de comandar esse bloco ideológico na América Latina. Fora do núcleo governista, entretanto, essa avaliação é bem menos consensual.

Milei pretende realizar turnê pela América do Sul nas próximas semanas
Casa Rosada

Interesses de Trump

Para Romero, a própria lógica da relação de Trump com a região dificulta a consolidação de qualquer liderança intermediária.

“Não é conveniente para Trump que exista um representante único deste bloco ideológico na América Latina. É importante para ele que a relação permaneça centralizada em sua própria figura. Não vejo condições objetivas para que alguém assuma essa liderança”, comenta.

Na leitura do especialista, nem mesmo o presidente salvadorenho Nayib Bukele – apesar do prestígio acumulado entre setores da direita internacional, por sua política de segurança e da proximidade pessoal com Milei – reuniria condições para ocupar esse papel.

“Javier Milei não tem atributos típicos de uma liderança regional. Falta-lhe experiência na condução de grandes estruturas políticas, capacidade de articulação estratégica e redes consolidadas de apoio. Sua trajetória é marcada muito mais pela construção de uma figura pública disruptiva do que pela formação de coalizões duradouras. Esse perfil está distante do que historicamente se observa em lideranças capazes de coordenar projetos políticos supranacionais”, argumenta Romero.

Sem definições

A cúpula da direita idealizada por Milei ainda não tem data definida, sede confirmada nem lista oficial de convidados divulgada publicamente.

O que parece mais claro, contudo, é que a ascensão de governos de direita na América Latina constitui um fenômeno concreto.

Já a ideia de que Milei possa se tornar o “líder natural” deste movimento permanece, por enquanto, mais associada ao discurso de seus aliados do que a uma avaliação compartilhada no campo político, pelo menos por enquanto.