Quarta-feira, 2 de setembro de 2026
APOIE
Menu

“Não estamos abrindo mão da soberania venezuelana, mas sim abrindo a economia no melhor interesse para o seu povo”, disse a presidente interina do país sul-americano, Delcy Rodríguez, à revista norte-americana Time. A atual líder da Venezuela tomou posse internamente após o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da primeira-dama Cilia Flores em uma operação militar dos Estados Unidos em janeiro deste ano.

Desde a ascensão de Rodríguez à Presidência interina, a relação entre Caracas e Washington foi reestabelecida, mas, segundo a reportagem, em um acordo no qual o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, “supervisiona a estrutura que rege as receitas petrolíferas e as finanças públicas da Venezuela, administrando efetivamente um fundo conjunto que dá a Washington influência sobre tudo, desde a alocação das receitas de exportação do país até a reabertura do setor energético e o tratamento preferencial para empresas americanas”.

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

Ainda de acordo com a Time, Rubio e Rodríguez “estão em contato quase diário por telefone e mensagens de WhatsApp”, afirmando que “tudo isso tem um preço”, já que a presença de Rubio aponta um “profundo envolvimento nos assuntos de Estado venezuelanos”.

No entanto, a líder interina rejeita as críticas: “procuro garantir que a política interna de outro país não afete a Venezuela. Espero que a Venezuela não se torne um peão na agenda política de nenhum outro país”.

Mais lidas

Isso porque, segundo ela, sua coordenação está “agindo de boa fé” e confiando que as relações com o governo de Donald Trump “possam se desenvolver de boa fé”. “Minha estratégia atual e futura sempre foi garantir a paz e a tranquilidade no país — tranquilidade e bem-estar social e econômico”, disse.

Sequestro de Nicolás Maduro

Durante a entrevista à revista, a presidente interina narrou a sequência de eventos que a levaram ao poder. Ela recordou que, em 2 de janeiro, dia antes da operação militar norte-americana, se reuniu com Maduro para “discutir os planos econômicos da Venezuela e o bloqueio naval imposto pelos EUA desde dezembro”. Depois, segundo ela, foi para a Ilha de Margarita, um balneário caribenho na costa norte da Venezuela, onde seu irmão, Jorge Rodríguez, e sobrinhos passavam férias. Chegou por volta das 23h, apenas algumas horas antes do início dos frenéticos telefonemas.

“Passamos por um momento de grande angústia quando pensamos que tinham matado o presidente e a primeira-dama. Depois soubemos que o estavam levando para os Estados Unidos. Isso mudou completamente a situação”, disse Rodríguez.

A presidente interina venezuelana contou que uma das primeiras ligações que realizou foi para o xeque Tamim bin Hamad Al Thani, emir do Catar. “Agora a responsabilidade está sobre seus ombros ele me disse, falando que eu teria a responsabilidade de preservar a Venezuela”.

Segundo Rodríguez e autoridades estadunidenses, funcionários do Catar ajudaram a organizar uma teleconferência entre ela e Rubio na tarde de 3 de janeiro. “Maduro está vivo?”, perguntou ela. O secretário de Estado garantiu que sim e, para provar, autoridades norte-americanas enviaram fotos dele de macacão a bordo de um helicóptero a caminho de Nova York. Então, Rubio deu um ultimato: atender às exigências norte-americanas ou enfrentar a pressão militar contínua, e Rodríguez concordou.

Contou também que conversou com Trump pela primeira vez na manhã seguinte. “Discutimos como as relações diplomáticas entre a Venezuela e os Estados Unidos poderiam ser estabelecidas e quais áreas de interesse comum poderiam ser identificadas”.

O chefe da Casa Branca queria acesso às vastas reservas de petróleo da Venezuela, vendo-as como uma forma de aumentar a oferta global, reduzir os preços da energia e fortalecer a economia dos EUA antes das eleições de meio de mandato, diz a revista. “Mas ele delegou a logística a Rubio, filho de imigrantes cubanos, para quem derrubar regimes de esquerda na América Latina é uma prioridade de longa data. Como secretário de Estado, ele de repente teve a oportunidade de perseguir essa ambição”.

A reportagem aponta que diplomatas internacionais viam Rodríguez como uma “tecnocrata, e não como uma linha-dura ideológica”. “Ela foi escolhida sob coação, mas parecia entender a economia do país e estava profundamente envolvida no setor petrolífero há muito tempo. Essa é, obviamente, uma das maiores prioridades do governo — a recuperação da indústria petrolífera da Venezuela”.

Rodríguez defendia há tempos uma maior abertura econômica. A Time diz que ela também foi responsável por atrair investimentos estrangeiros e reconstruir as relações com empresas internacionais de energia. Segundo diversas autoridades consultadas pela TIME, Rubio concluiu que Rodríguez era uma realista com domínio sobre os mecanismos do governo e que estaria disposta a atender às demandas de Washington.

A presidente interina argumenta que a relação já trouxe benefícios para o país. Durante os anos de Maduro, a Chevron foi a única grande petrolífera norte-americana a manter uma presença significativa. Agora, ela pode ser acompanhada pela ExxonMobil, ConocoPhillips e Halliburton. “O mais importante é que as empresas dos Estados Unidos estão retornando e chegando”, disse Rodríguez.

Para a revista, essa mudança reflete a promessa de Trump: acesso renovado ao capital norte-americano e aos mercados globais. “A aposta é que a integração econômica possa induzir um alinhamento geopolítico após décadas de governo chavista. No entanto, ainda não está claro quanto desse influxo de capital chegou aos venezuelanos comuns”.

Sobre uma transição de poder na Venezuela, Rodríguez demonstrou pouca urgência. “A Venezuela realizará eleições quando estiver pronta. Existem grupos extremistas que incitaram a agressão militar contra a Venezuela, e o povo venezuelano — especialmente aqueles que vivenciaram o ataque em primeira mão — sente muito medo”, afirmou, referindo-se aos centros de poder rivais do país e ao risco persistente de violência política.

Ao ser questionada sobre quando chegará esse momento, respondeu: “sinto que esse momento chegará quando todos os atores políticos do país chegarem a um entendimento e pudermos dizer à nação que nós, como políticos, estamos prontos”. A presidente interina afirma que receberia de braços abertos observadores eleitorais internacionais, desde que respeitassem a soberania da Venezuela.

Rodríguez disse “não saber” se irá se candidatar à Presidência caso o país convoque eleições. Questionada se permitiria o retorno da oposicionista Maria Corina Machado ao país, a líder interina ponderou que é preciso “avançar para uma nova era política”.

“Minha resposta é que haverá um momento político em que a coexistência, a coexistência pacífica, serão possíveis”.