Peña critica 'assimetrias' no acordo de livre comércio do Mercosul com União Europeia
Em abertura de cúpula, presidente paraguaio cobrou 'justiça' na distribuição de cotas de exportação, exigindo que tratado contemple particularidades de cada país: 'não temos mesmo mercado'
A 68ª cúpula de presidentes do Mercosul começou nesta terça-feira (30/06), em Assunção, com uma dura crítica do presidente paraguaio, Santiago Peña, às “assimetrias” geradas após a assinatura de um acordo de livre comércio com a União Europeia. Ao discursar, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que “na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica”.
“O campo não está nivelado para todos por igual, não temos o mesmo mercado, nem as mesmas indústrias, nem a mesma logística”, disse Peña ao abrir a sessão na sede da Conmebol em Luque, nos arredores da capital paraguaia.
Além do anfitrião, participam da cúpula os presidentes dos países-membros Luiz Inácio Lula da Silva (Brasil), Rodrigo Paz (Bolívia) e Yamandú Orsi (Uruguai), além dos associados José Antonio Kast (Chile) e Daniel Noboa (Equador).
O argentino Javier Milei, que inicialmente tinha confirmado sua participação, a cancelou em meio à convulsão política em casa devido à renúncia de seu agora ex-chefe de gabinete por um escândalo de suposto enriquecimento ilícito.
Em seu duro discurso de abertura, Peña exigiu “resultados concretos” para que o acordo com a União Europeia, assinado em janeiro e cuja ratificação pela UE segue pendente, corrija “as assimetrias”.
“Para que negociamos com a Europa se o acesso a novos mercados não há de servir para desenvolver o que ainda não está desenvolvido?”, reclamou.

68ª Cúpula do Mercosul no Paraguai
Foto: SantiPenap / X
“Gosto amargo”
Peña denunciou o “gosto amargo” que a implementação inicial do acordo com a UE deixou para seu país.
O presidente paraguaio fez alusão ao problema sensível da distribuição de cotas de exportação com preferências tarifárias no bloco regional para os produtos destinados à UE.
“É uma questão de justiça. Um Mercosul sem justiça é qualquer coisa menos um bloco fraterno”, queixou-se, quando alguns dos parceiros conseguiram se destacar nas primeiras etapas do novo pacto comercial.
A UE oferece cotas de importação com benefícios tarifários e é o Mercosul que deve resolver como distribui o volume entre seus membros.
“Se o Mercosul quer ser confiável para fora, primeiro deve ser por dentro”, afirmou Peña, o primeiro a discursar na cúpula do bloco.
“Queremos um Mercosul onde o mais forte pisoteia o mais fraco?”, questionou. “O Paraguai mantém sua posição sobre a distribuição das cotas. Isto não é um capricho, isto é justiça”, acrescentou.
Minuto de silêncio
Os chefes de Estado devem aprovar o início oficial dos diálogos para um acordo de livre comércio com o Japão e os detalhes técnicos do acordo com a União Europeia, assinado em janeiro passado na capital paraguaia e vigente desde maio.
A pedido de Lula, os mandatários presentes fizeram um minuto de silêncio em solidariedade à Venezuela após os terremotos da semana passada.
“Quero reiterar minha solidariedade ao povo e ao governo da Venezuela diante das perdas humanas e materiais incalculáveis”, disse o presidente brasileiro.
“Tragédias como essa convidam a uma reflexão sobre a importância da solidariedade e da cooperação regionais”, acrescentou.
Em seu discurso, Lula também ressaltou o papel do bloco em um cenário internacional conturbado. “Na atual conjuntura, o Mercosul é uma necessidade estratégica”, afirmou, defendendo ainda que a integração regional deve se sobrepor a diferenças políticas. “O projeto de integração sul-americano deve estar acima de ideologias”, disse.
























