Terça-feira, 23 de junho de 2026
APOIE
Menu

Pouco mais de 20 milhões de eleitores peruanos vão às urnas neste domingo (07/06) para decidir quem será o próximo presidente do país, para um mandato de cinco anos, mas que poderia durar menos, devido à instabilidade política do país que teve oito presidentes diferentes nos últimos oito anos.

As duas candidaturas na disputa deste segundo turno eleitoral representam propostas bastante distintas. De um lado, a conservadora Keiko Fujimori, filha do ditador Alberto Fujimori (1990-2000) e líder do partido Força Popular, vencedora do primeiro turno, com 2,8 milhões de voto (17,19%). Do outro, o progressista Roberto Sánchez, do movimento Juntos pelo Peru, segundo colocado no primeiro turno, com 2 milhões de votos (11,04%).

Tudo que a grande mídia não mostra, do seu jeito.

Ícone Newsletter

Newsletter

Notícias internacionais, com análise crítica e independente. Sem filtros.
Ícone WhatsApp

Canal do WhatsApp

O mundo em movimento direto no seu celular. Siga!
Ícone YouTube

OM no YouTube

Opinião, contexto e coragem jornalística. Tudo no nosso canal. Sintonize!

A apuração do primeiro turno durou mais mês, para definir a segundo vaga nesta instância definitória, entre Sánchez e o terceiro colocado, o extremista Rafael López Aliaga, que perdeu por uma diferença de pouco mais de 17 mil votos.

Essa situação pode se repetir neste segundo turno, já que as pesquisas mostram um cenário de alta polarização, com uma pequena vantagem para Keiko, dentro da margem de erro.

Mais lidas

A última medição do instituto Ipsos, publicada na última quarta-feira (03/06) mostrou a conservadora com 40,4% das intenções de voto, enquanto o progressista Sánchez aparece com 38,3%.

Além disso, as sondagens identificam diferenças regionais marcantes no país com respeito a preferências eleitorais. A mesma pesquisa Ipsos indica que Keiko tem grande vantagem em Lima e arredores, com mais de 52,2% contra 27,4% de Sánchez. No entanto, no interior do país, o progressista tem 53,9% das intenções, contra 24,4% da conservadora.

Tanto nos cenários nacionais quanto nos regionais, a quantidade de pessoas que defende voto em branco ou nulo supera a marca de 20%.

Vale lembrar que na eleição presidencial de 2021, Keiko Fujimori foi derrotada pelo também progressista Pedro Castillo por uma diferença de pouco mais de 44 mil votos, após um processo de apuração que demorou mais de 20 dias, similar ao que ocorreu no primeiro turno deste 2026.

Naquela ocasião, Keiko não aceitou o resultado das urnas e alegou que teria havido uma fraude, e algo assim poderia se repetir neste ano. Em entrevista ao diário La República, a filha do ditador Alberto Fujimori colocou em dúvida se aceitaria uma possível derrota para Sánchez, dizendo que “vamos primeiro ver os números, e daí tomar uma decisão”.

Oito presidentes e oito anos

Outro aspecto do cenário político peruano é a instabilidade verificada no próprio cargo presidencial que teve oito ocupantes diferentes nos últimos anos – dos quais seis foram derrubados ou renunciaram para fugir de processos.

A série de quedas presidenciais teve início com o liberal Pedro Pablo Kuczynski, que venceu as eleições de 2016 e renunciou ao cargo em março de 2018 para escapar de um impeachment. Em seu lugar assumiu o seu vice, o direitista moderado Martín Vizcarra, que também terminou sendo destituído em novembro de 2020.

O terceiro da lista foi também o mais breve: Manuel Merino durou apenas cinco dias no cargo, entre 10 e 15 de novembro de 2020, sendo substituído por Francisco Sagasti, que assumiu como interino e se manteve até o final daquele mandato, em julho de 2021.

Roberto Sánchez e Keiko Fujimori, após último debate presidencial antes do segundo turno
JNE

Eleito nas últimas presidenciais do país, em 2021, o progressista Pedro Castillo foi destituído em dezembro de 2022, após superar duas tentativas de impeachment em seus 16 meses no cargo.

A vice de Castillo, a liberal Dina Boluarte, entrou em seu lugar e se tornou a primeira mulher a governar o Peru, mas terminou sendo a quinta da lista de destituídos, em outubro de 2025 – foi também a que mais tempo permaneceu no cargo, durante dois anos e dez meses.

O conservador José Jerí foi indicado como presidente interino do Peru por ser o presidente do Congresso quando Boluarte foi derrubada. Ele se manteve no cargo por apenas quatro meses, e acabou sendo, em fevereiro passado, o último destituído – ao menos até agora.

Em março passado, assumiu o cargo interinamente o esquerdista José María Balcázar, que enfrenta atualmente um processo de impeachment, mesmo faltando poucos dias para o fim desse mandato tampão.

Tanta volatilidade no cargo em tanto tempo levou a uma mudança na lei eleitoral para que todas as candidaturas passassem a ter dois vices: Keiko Fujimori está acompanha por dois humens, Luis Galarreta e Miguel Torres; enquanto Roberto Sánchez formou sua chapa com duas mulheres, Analí Márquez e Brígida Curo.

A medida, porém, não garante que os três nomes na linha sucessória vão ser suficientes para lidar com a tendência de volatilidade presidencial, já que os dois últimos mandatos tiveram quatro diferentes ocupantes do cargo ao longo dos seus respectivos períodos.

No mandato iniciado por Kuczynski em 2016 também passaram pela Presidência Vizcarra, Merino e Sagasti. Já no mandato de Castillo, inaugurado em 2021, a Presidência foi ocupada, posteriormente, por Boluarte, Jerí e agora Balcázar.

MP contra Sánchez

A crise política e institucional no Peru passou a um novo patamar nesta semana, ao se manifestar às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, a partir da instalação de um processo judicial contra o candidato progressista Roberto Sánchez, pelo suposto recebimento de pouco mais de 57 mil dólares em propina, em suas campanhas ao Congresso nos anos de 2018 e 2022.

O Ministério Público peruano alega que os valores não teriam sido declarados ao Escritório Nacional de Processos Eleitorais (ONPE, por sua sigla em espanhol). A defesa do candidato chegou a apresentar suas alegações perante o tribunal, afirmando que a prestação de contas das campanhas foi entregue corretamente e que a denúncia faria parte de uma manipulação dos documentos feita por figuras ligadas ao fujimorismo.

Ao decidir instalar o processo, o Tribunal de Investigação Preparatória de Lima escolheu acatar o parecer do Ministério Público e descartar as alegações da defesa.

A medida não impede Sánchez de participar do segundo turno eleitoral. No entanto, caso ele seja eleito, e se a Justiça decidir por uma eventual condenação ou prisão preventiva no processso, isso poderia mudar o resultado do pleito neste segundo turno.