Horas após a instalação do governo de Keiko Fujimori, familiares de vítimas da repressão estatal no Peru, durante as décadas de 1980, 1990 e 2000, sob os governos de Alberto Fujimori, Dina Boluarte e José Jerí, reuniram-se em frente ao Palácio de Justiça em Lima para reivindicar a memória de seus entes queridos e expressar rejeição ao retorno do fujimorismo ao poder executivo.
Associações culturais, sociais e políticas realizaram um ato simbólico no Alameda Paseo de los Héroes, portando fotos das vítimas, velas e faixas. Eles denunciam que Alberto Fujimori, comandantes militares e policiais foram condenados por graves violações de direitos humanos, incluindo desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais, tortura e esterilizações forçadas.
Raúl Samillán, presidente da Associação de Parentes Vítimas dos Massacres dos Anos de 2022 e 2023, disse à teleSUR que a chegada de Keiko Fujimori representa um revés para a justiça no país e que eles não reconhecerão sua autoridade: “é muito lamentável que a Sra. Keiko Fujimori, fraudulenta e ilegitimamente, tenha assumido o poder”, afirmou.
“Nós, como sulistas e vítimas do governo da Sra. Dina Boluarte e da Sra. Keiko Fujimori, não vamos reconhecê-la. Não vamos permitir que essa senhora pise na terra onde, infelizmente, o sangue dos nossos filhos, de nossos entes queridos, ainda está sendo derramado”, declarou.

Peru: vítimas da repressão estatal protestam contra volta do fujimorismo
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Os organizadores sustentam que não pode haver reconciliação sem a revogação das chamadas leis pró-crime que, segundo eles, foram aprovadas pelo tribunal da Fuerza Popular, partido de Keiko Fujimori, dificultando o acesso à Justiça e protegendo os responsáveis por abusos cometidos pela Polícia Nacional e pelas Forças Armadas.
“A primeira coisa que essa Sra. Fujimori deveria fazer é, precisamente, revogar todas as leis pró-crime que foram legisladas e aprovadas pelo seu partido, Força Popular”, declarou Samillán.
Ele recordou que, durante os governos de Alberto Fujimori, Dina Boluarte e José Jeri, houve desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais e tortura, pelos quais a liderança de Fujimori foi internacionalmente condenada por graves violações de direitos humanos.
Samillán também se referiu à eleição da presidência do Senado, vencida no dia anterior pelo fujimorismo. Segundo ele, isso afeta seriamente o equilíbrio entre poderes no país, consolidando a impunidade: “infelizmente, ainda há traidores no país que se vendem por algumas moedas e vemos, precisamente, que o Senado entregou isso, em bandeja de prata, à Sra. Keiko Fujimori, o que vai nos impossibilitar de encontrar justiça”, alertou.
No entanto, Samillán expressou esperança de que a Câmara dos Deputados, onde existe uma coalizão de partidos democratas, possa promover leis que punam os responsáveis pelas violações.
As organizações anunciaram uma série de atividades no âmbito dos feriados nacionais para expressar sua rejeição a nova presidente. Após a vigília de ontem, neste 28 de julho, ocorrerá uma marcha nacional, com concentração principal em Lima às 10h, durante a mensagem de Keiko Fujimori à nação. O ato incluirá o aceno da bandeira como gesto simbólico de resistência. Nesta quarta-feira, 29 de julho, eles promoverão o desfile alternativo: “Do povo para o povo”.
“Amanhã será um dia importante em que todo o Peru, não só a capital, mas todas as regiões irão se mobiliar para dizer: “Sra. Keiko Fujimori, a senhora não nos representa. Você foi derrotada, precisamente, em dezesseis regiões do sul do país”, enfatizou Samillán.
Questionado sobre a invocação da reconciliação por Keiko Fujimori, o presidente da associação de vítimas foi categórico ao excluir qualquer possibilidade de diálogo desde que as demandas por justiça e memória não sejam atendidas: “Não haverá reconciliação enquanto o sangue de nossos filhos e entes queridos continuar sendo derramado e enquanto não forem revogados. precisamente, essas leis pró-crime aprovadas por seu partido político, que estão prejudicando as investigações”, disse ele.
Organizações de direitos humanos, associações de parentes e grupos sociais anunciaram que manterão a mobilização como um direito constitucional e internacional diante do que consideram um governo autoritário e ilegítimo, em defesa da memória histórica e da justiça para as milhares de vítimas da repressão estatal no país.