Polêmica sobre indultos pode afetar indecisos em reta final das eleições no Chile
Favorito nas pesquisas, ultraconservador Kast tem campanha abalada por partidários que passaram a defender anistia e diminuição de penas a criminosos da ditadura e até pedófilos
A poucos dias do segundo turno das eleições presidenciais no Chile, que acontecerão no próximo domingo (14/12), a campanha eleitoral entrou em uma fase emocional, onde o medo é um tema central e o ponto principal do discurso com o qual as candidaturas de Jeannette Jara, do Partido Comunista, e de José Antonio Kast, do ultraconservador Partido Republicano, tentam conquistar os votos dos indecisos.
Nesse contexto, a grande notícia dos últimos dias foi a repercussão das recentes declarações do deputado José Carlos Meza, porta-voz da campanha de Kast, que defendeu a decretação de indulto presidencial a condenados por violações aos direitos humanos cometidas durante o regime ditatorial de Augusto Pinochet (1973-1990), alegando defender “causas humanitárias”, já que se trataria de “pessoas de idade avançada e com doenças terminais”.
A declaração foi dada em uma entrevista ao canal CNN Chile e acompanhada da reivindicação do uso do mesmo instrumento para diminuição de penas a diferentes tipos de criminosos em idade avançada ou com doenças terminais, incluindo condenados por pedofilia e abuso infantil.
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A repercussão da proposta levou Kast a afastar Meza de sua campanha – embora ambos sejam do mesmo Partido Republicano, mas afetou seu discurso de “tolerância zero contra a delinquência”, utilizado insistentemente desde o primeiro turno das eleições.
Por sua parte, a candidata governista Jeannette Jara aproveitou a controvérsia para prometer que sua candidatura promoverá um aumento de penas para crimes de abuso infantil.
Disputa pelos indecisos
O episódio transformou a discussão e abriu espaço para uma questão crucial: como essas ações afetam a percepção dos eleitores indecisos, particularmente em bairros operários?
Segundo analistas chilenos, o eleitorado que votou no candidato liberal Franco Parisi (representante de centro e terceiro colocado no primeiro turno) opera segundo uma lógica diferente da do eleitor tradicional, mostrando-se como um voto que desconfia do sistema político, oscila entre a punição e a abstenção, e reage mais a sinais emocionais do que a propostas programáticas.
A Opera Mundi, o governador de Valparaíso, Rodrigo Mundaca, analisou o cenário e ressaltou que o eleitorado que aparece como indeciso nesta reta final de campanha, especialmente os que votaram em Parisi no primeiro turno, “representa um voto contra a elite, e que pode ser capturado por Jara, que é uma mulher com origem na classe trabalhadora, que fala diretamente com esses eleitores que se sentem excluídos pelo sistema”.

José Antonio Kast e Jeannett Jara, em foto oficial antes de debate presidencial do segundo turno
TVN Chile
Neutralidade
Vale destacar, no entanto, que o próprio Parisi não apoiará nenhum dos candidatos que disputam o segundo turno, alegando ter feito uma consulta interna em seu partido (o Partido da Gente, também conhecido pela sigla PDG), na qual 78% dos militantes teriam defendido votar em branco ou nulo no próximo domingo.
Embora o PDG tenha decidido não apoiar nenhum candidato, sua mensagem deixou um claro aviso: seu voto expressa um profundo descontentamento com ambas as alternativas. Para a campanha de Jara, o desafio é transformar essa rejeição ao sistema em apoio concreto nas urnas.
Para Kast, por outro lado, a questão primordial é evitar que o impacto do caso Meza corroa sua narrativa de “mão firme” contra a criminalidade, justamente um de seus trunfos para conquistar o eleitorado afeito a posições mais punitivistas e contrário a posturas garantistas.























