Visita de delegação dos EUA no extremo sul da Argentina levanta suspeitas na oposição
Presença de congressistas foi informada 24 horas após desembarque em Ushuaia; região conta com investimentos chineses em dois projetos estratégicos
A chegada inesperada de um avião da Força Aérea norte-americana dos Estados Unidos a Ushuaia, no extremo sul da Argentina, neste domingo (25/01), levantou questionamentos sobre as intenções de Washington no extremo sul do país. Congressistas republicanos e democratas desembarcaram no país, segundo a Casa Branca, movidos pelo interesse no processamento de minerais críticos e pesquisas sobre saúde pública.
Reportagem do jornal Página 12 apurou que a agenda dos congressistas foi bem mais ampla. Segundo fontes, o interesse da visita recai sobre dois projetos estratégicos em andamento na província com financiamento chinês. Um deles é a Planta de Ureia, que pretende converter gás natural em ureia e metanol, além da possível construção de um novo porto. O outro é a nova usina termoelétrica de Ushuaia, voltada à modernização da matriz energética da ilha, considerada crucial para o desenvolvimento regional.
A chegada da delegação norte-americana foi informada pela Casa Rosada após 24 horas, alegando “visita de caráter institucional” para a “troca de visões sobre temas de interesse comum e fortalecimento do diálogo parlamentar bilateral”. Cerca de sete congressistas estavam a bordo da aeronave, entre eles o republicano Morgan Griffith. A agenda da delegação foi reservada, segundo a embaixada norte-americana e a Casa Rosada por “razões de segurança”.
Durante a visita à Terra do Fogo, eles não se encontraram com nenhuma autoridade local, o que gerou um pedido de informação da senadora Cristina López (Fuerza Patria), sobre o motivo oficial da visita, o seu caráter e o objetivo da delegação. Ela também questionou se o governo federal avalia ou já avaliou “conceder participação, ingerência ou controle a potências estrangeiras sobre infraestruturas estratégicas” da província. A preocupação se justifica frente às estreitas relações entre Javier Milei e Donald Trump, que já declarou abertamente o interesse dos Estados Unidos em anexar a Groenlândia por razões de “segurança nacional”.

Visita de delegação dos EUA no extremo sul da Argentina levanta suspeitas na oposição
Horacio Fernandez/ Wikimedia Commons
Intervenção no porto
A delegação realizou um passeio de catamarã ao longo da costa adjacente do porto de Ushuaia, que sofreu recente intervenção do governo Milei. Segundo o governo da Terra do Fogo, a decisão é motivada por intenções “geopolíticas e econômicas”. Em abril do ano passado, o presidente argentino recebeu a então chefe do Comando Sul dos Estados Unidos, Laura Richardson, na região, comprometendo-se publicamente com a instalação de uma base conjunta na cidade.
Até o início da semana, a identidade completa dos integrantes da delegação seguia desconhecida. Também veio à tona que os congressistas solicitaram uma reunião formal com o Centro Austral de Investigações Científicas (CADIC-CONICET), que foi recusada. A delegação teria visitado, segundo o site Agenda Malvidas, um local adjacente ao aterro sanitário, onde está planejada a usina termelétrica financiada pelos chineses. Eles também fizeram um passeio de catamarã ao longo do canal que margeia o porto.
Para setores da oposição argentina, não seria descabido imaginar interesse semelhante sobre Tierra del Fuego, que abriga o porto mais austral do mundo, constitui uma porta de entrada natural para a Antártica e concentra dois dos poucos passos bioceânicos do planeta.
























