Depois do fogo, a inércia das cinzas

O que mais é preciso para que a comunidade científica, professores, estudantes e trabalhadores da educação, da ciência e tecnologia de todo o país se mobilizem para defender a ciência, a educação pública e evitar que dramas maiores aconteçam?

Denis Castilho

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As chamas que “apagaram” anos de pesquisas, de ciência e cultura do Museu Nacional são uma face do sucateamento planejado que vem acometendo universidades, centros de memórias, de pesquisas e escolas por todo o país. Por trás do discurso de crise, há um projeto escancaradamente entreguista e que considera a Educação, a Ciência e a Tecnologia como gastos, não como investimentos. Esta premissa é uma insígnia golpista que incendeia direitos e mata pessoas diariamente.

Mas o fogo também traz lições. No final de 2016 houve mobilizações contra a implementação desses cortes em todo o país organizadas principalmente por grupos de estudantes. Ocorre que essas mobilizações encontraram o que costumo chamar de resistência invertida, uma vez que elas vieram justamente daqueles que seriam os mais afetados pelos cortes, mas que, ao invés de confrontarem o autoritarismo do governo, fizeram o inverso imponto objeções à luta dos estudantes. O resultado? Não é difícil recordar.

Contradições como essas ascendem perguntas incômodas. Por que a composição de um verdadeiro fronte por todo o país não ocorreu mesmo diante da certeza do que viria acontecer? Por que tantos professores, pesquisadores, trabalhadores da educação e não muito raro, sindicatos, naquela ocasião simplesmente ficaram de braços cruzados ou até mesmo criminalizaram aqueles que tentaram fazer alguma coisa? Faltou clarividência?

Não demorou e pouco tempo depois os cortes vieram. No caso do orçamento em Ciência e Tecnologia, de acordo com o Instituto de Estudos Socioeconômicos (Inesc, 2017), o corte alcançou a marca absurda de 76% (de 6,2 bilhões em 2015 para 1,5 bilhão em 2017). Chaleiras do governo defenderam esses cortes com justificativa amparada na crise econômica. Mas, enquanto isso, esqueceram de criticar medidas como a MP 795, votada na câmara em 2 de dezembro de 2017. Essa medida concede isenção de impostos a petrolíferas estrangeiras e fará o país deixar de arrecadar 1 trilhão à União nos próximos 25 anos. Além disso, não podemos esquecer que o governo concedeu isenção de 1,3 bilhão às empresas que despejam agrotóxicos país afora. Tudo na contramão.

Mesmo diante de políticas tão absurdas e disparatadas, por que a anestesia tem sido maior que a resistência entre aqueles que tanto lamentam? Será que o luto pelo museu e as lágrimas de quem coerentemente pranteia a perda serão convertidas em luta e defesa do que resta? Se a inércia continuar predominando, não é difícil prever outras tragédias. Algumas delas trarão danos imensuráveis, a exemplo da educação pública que sofre fortes ataques por meio de reformas autoritárias como a do Ensino Médio.

O que mais é preciso para que a comunidade científica, professores, estudantes e trabalhadores da educação, da ciência e tecnologia de todo o país se mobilizem para defender a ciência, a educação pública e evitar que dramas maiores aconteçam?

Produção do conhecimento e garantia de uma ciência pujante às gerações futuras não se fazem apenas aguardando auditoria ou esperando a boa vontade de uma mesa de negociações. Não é assim que se negocia com parasitas. O caminho é outro, mas demanda protagonismo, união, diálogo, construção coletiva de ações e clarividência de quem são os verdadeiros inimigos. Ou compreendemos as lições das chamas ou esmoreceremos na inércia das cinzas.

 

*Denis Castilho é doutor em Geografia e professor da Universidade Federal de Goiás

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