#EleNão é o início da resposta aos filhotes chocados no 'Ovo da Serpente'

Meus sonhos não cabem nas urnas, mas precisam delas neste momento para que eles continuem a existir

Luka Franca

A vida cada vez mais corrida tem sido uma a máxima por aqui. Inclusive, tempo para escrever tem faltado. Mas vamos falar de política? Vamos falar do movimento de mulheres ocupando as ruas no país inteiro no dia 29 de setembro? 

A primeira coisa que eu quero destacar é que os tamanhos dos atos #EleNão são algo histórico no movimento de mulheres, creio que nem em momentos importantes como a luta pelo direito ao voto, movimento custo de vida ou a primavera feminista tivemos uma mobilização tão grande e plural quanto a que vivenciamos sábado no Brasil. Isto não é qualquer coisa. O outro dado importante é que o eixo que organizou os acontecimentos de sábado, fomos as ruas norteadas por uma pauta essencialmente política e não apenas econômica o que é de um feito extraordinário. Outra coisa importante é que se formos pensar todos os momentos em que a política tomou conta das ruas brasileiras nos últimos 40 anos, as mulheres ali estavam, mas o protagonismo destacado era dos homens. 

Se por um lado a manifestação das brasileiras contra o coiso conseguiu confrontar a antipolítica, apresentar manifesto político unitário dos motivos que nos motivava estar nas ruas. Não podemos ignorar o que foram as manifestações pró-inominável logo no dia seguinte. Ressalto isso porque, as vezes, ao olhar algumas análises e avaliações sobre o ocorrido me parece que se esquecer que há em nosso país lastro político para o projeto que o coiso vocaliza e esse é um projeto muito perigoso, não apenas para quem se reivindica de esquerda ou progressista, mas também pra quem é de direita. É um erro as análises ou narrativas que jogam no colo da mobilização das mulheres o crescimento do Bozonaro nas últimas pesquisas, é não olhar o cenário como um todo e, pra mim, é um pouco de recalque pelo fato das mulheres de forma diversa estarem apurando a grande política do país. Precisamos lembrar que no mesmo final de semana em várias missas e cultos existiu lugares em que se reforçou a pauta reacionária vocalizada pelo inominável e esse fato explica uma parte do crescimento do coiso. Isso e o apoio do bispo Edir Macedo anunciado na semana do dia 29.

É preciso lembrar que a disputa de consciência por parte do ultraconservadorismo tem sido feita constantemente já há bastante tempo, não é de agora os motes do estilo “minha bandeira não é vermelha” ou a ação de passar pano para revisionistas que apresentam leituras complicadas sobre o que foi o golpe de 64 e a Ditadura civil-militar. Não necessariamente a porcentagem da população que vota em Bozonaro é consolidadamente fascista, mas também não quer dizer que o crescimento de um projeto desse criar a amálgama dos descontentes com o regime não é muito perigoso para todos. 

A entrevista de Cássio Cunha Lima, senador do PSDB, para Folha de São Paulo demonstra isso. Achar que não se deve contrapor o coiso pois se perde votos da direita para ele só demonstra que o projeto da direita brasileira de voltar a centralidade do comando do país deu no fortalecimento de projeto fascista. Bozonaro ganhou relevância no cenário político durante o processo de construção do golpe contra Dilma, quando setores significantes da direita brasileira se juntaram com quem defendia a volta da Ditadura e intervenção militar. Essa é a primeira responsabilização a ser feita, não em cima das mulheres que estiveram corajosamente no dia 29 de setembro nas urnas.

A segunda coisa que precisamos falar de forma franca em nossos debates é que a dissociação da luta política da luta econômica, também, ajudou nesse avanço. Vejam bem, não digo que é o principal ponto para estarmos onde estamos, mas que ajudou. São patamares de responsabilização diferentes, mas que precisam ser falados. Não adiantou garantir crédito e recuar  em pontos importantes pra disputa da consciência do povo. Ou seja, do que valeu recuar no PNDH-3 em 2010 para setores que ajudaram a dar o golpe e que ajudaram a tornar Bozonaro uma referência política? Do que adiantou recuar no debate sobre orientação sexual nas escolas via Ministério da Educação para garantir a governabilidade com setores que hoje dão lastro político para um projeto político que irá calar a todo mundo? Cede r em pontos relativos a direitos humanos ajudou a estarmos onde estamos agora e isso não podemos ignorar.

Como escrevi mais acima: a responsabilidade de um é mais pesada do que de outro. Do meu ponto de vista, o maior responsável é de quem ajudou a organizar o processo político pelo qual o coiso foi forjado como referência política, ou seja, o golpe. Identificar isso é fundamental para podermos dar respostas de fôlego nas ruas e nas urnas. O que se iniciou no sábado é um marco histórico de uma luta política que precisará ser mais de longa duração do que o processo eleitoral. 

Estamos falando de escolher entre um governo onde poderemos sair às ruas para nos manifestar contra ou favor das coisas ou um governo em que nem poderemos debater o que pensamos de forma diversa e democrática. É a escolha entre poder falar e sermos calados. Nós nunca precisamos tanto falar de política de forma séria, olhando as movimentações da base social, mas também na superestrutura, levar em conta os movimentos que eclodem e não apenas os números das urnas e pesquisas. 

Não podemos ter medo de enfrentar o que significa uma possível eleição do coiso para todos os espectros políticos, também não podemos achar que passando o sufoco eleitoral nossa vida estará resolvida. Não estará! O ovo da serpente tá chocado e cabe a nós darmos a batalha contra os filhotes que saíram desse choco e a movimentação encabeçada pelas mulheres no dia 29 de setembro é parte importantíssima dessa resposta. É um nítido “daqui não passa!” e precisa ser assim reconhecida e não deve ser caracterizada como causa de um avanço eleitoral do inominável, mas como resistência e defesa do direito de todos nós de podermos falar e debater nossas ideias. Nós estamos tomando as rédeas do debate da grande política contra o ultraconservadorismo de forma contundente e politizada, não podemos perder essa localização para o enfrentamento político futuro.

Por fim, meus sonhos não cabem nas urnas, mas para que eles continuem a existir precisam delas neste momento.

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