As lições do antifascismo dos anos 30

Dimensão mundial representada pelo perigo nazista mobilizou e articulou diferentes grupos de muitas tendências políticas em torno de um ideal comum: barrar a ascensão das ideias e práticas associadas ao atraso, ao racismo e à barbárie

Ângela Meirelles

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Entre a ascensão de Adolf Hitler ao poder em 1933 e o início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, milhares de pessoas no mundo se mobilizaram em torno da luta antifascista. A dimensão mundial representada pelo perigo nazista mobilizou e articulou diferentes grupos de muitas tendências políticas em torno de um ideal comum: barrar a ascensão das ideias e práticas associadas ao atraso, ao racismo e à barbárie.

Está claro que o antifascismo não se originou naquele momento; é uma consigna dos anos 20, da Itália sob Mussolini, tendo se espalhado pelo mundo na luta dos emigrados italianos, desterrados pela experiência fascista. Bem certo também que o antifascismo não terminou naquele momento. Fortaleceu-se em armas e motivações, combatendo a experiência bélica e expansionista das potências fascistas durante a guerra até 1945. Expandiu e ressignificou as frentes de atuação nas lutas contra as ditaduras dos anos 1950 a 1980. Renovou as práticas e a estética ao tomar as ruas no final dos séculos XX e XXI.

Os debates teóricos em torno do fascismo são candentes e ocupariam várias estantes de uma biblioteca; são teorias que acompanharam este fenômeno desde sua origem até a atualidade. Em síntese, as análises oscilam na interpretação da experiência como um “acidente histórico”, da qual o nazismo foi a maior expressão; a partir desta visão, regimes “menos radicais”, imaginando que fosse possível matizá-los em intensidade, não poderiam ser classificados como fascistas. Por outro lado, uma corrente analítica há certo tempo procura assegurar a universalidade da expressão do fascismo em tempos e espaços distintos; é o que defende Francisco Carlos Teixeira da Silva, professor da UFRJ. Neste emaranhado teórico, os estudos historiográficos procuram dar conta das especificidades das experiências históricas em suas singularidades, em suas articulações locais, em suas expressões e relações com as culturas nacionais.

No Brasil, assim como em outros países do Cone Sul, a luta antifascista no entre guerras esteve orientada para um combate em três frentes. Estas são as conclusões de minha tese de doutorado defendida no Departamento de História da USP, em 2013. Primeiro, a luta contra os governos autoritários, com maior ou menor aproximação às ideias fascistas, como foi o caso do muitas vezes oscilante Getúlio Vargas (ou Gabriel Terra, no Uruguai, Uriburu e Justo, na Argentina e Arturo Alessandri, no Chile). Uma segunda frente travava de confrontar os grupos fascistas que surgiram na região, como a Ação Integralista Brasileira (AIB), no Brasil, a Legião Cívica Argentina ou o Movimento Nacional-Socialista do Chile ou Movimiento Nacista (assim, com “c” mesmo, para se diferenciar do movimento alemão), por exemplo. Por último, a luta antifascista nestes países combatia a influência da Alemanha nazista nas comunidades de imigrantes alemães na região.

No Brasil dos anos 1930, a luta antifascista teve alguns momentos emblemáticos: o antifascismo da comunidade italiana, bem estudado por João Fábio Bertonha, da UEM, ganhou corpo com a criação da Frente Única Antifascista, a FUA, ativa entre 1933-1934 na cidade de São Paulo. A organização, pioneira na mobilização de intelectuais, militantes e operários de diferentes espectros políticos contra o fascismo, foi uma iniciativa da Liga Comunista (LC), uma dissidência trotskista do PCB e do Partido Socialista Brasileiro, de São Paulo, como mostrou a tese de Ricardo Figueiredo de Castro, também da UFRJ. A FUA publicou um jornal, O Homem Livre, onde circularam análises sobre o caráter fascista da AIB ao lado das consideradas memoráveis críticas de arte tecidas por Mario Pedrosa. A FUA foi também protagonista da guerra campal, conhecida como “Batalha da Praça da Sé”, na qual os antifascistas enfrentaram uma marcha integralista em outubro de 1934, com um saldo de mortos e feridos em ambos os lados.

Em um editorial d’O Homem Livre, de 25 de maio de 1933, a FUA denunciava o fascismo como um “retrocesso travestido de novidade”. Além disso, o jornal acusava o fascismo de estar “fazendo andar para trás a roda da história” [1] ao tentar retomar privilégios de classe.

 “Formas arcaicas de organização, anacronismos políticos, costumes há muito vencidos pela evolução, são retirados do museu da história e, cheirando a naftalina e já meio comidos pelas traças, são apresentados aos homens do século XX, quando não como autênticas novidades, ao menos como a panacéa, antiga, mas boa, que há de curar todos os males da nossa época.” (“Contra o fascismo”, O Homem Livre)

A Aliança Nacional Libertadora (ANL), articulada desde fins de 1934 e fundada no ano seguinte, foi também uma frente antifascista no Brasil. Seu caráter civil e democrático acabou obscurecido pelo particular desfecho da tentativa de ação revolucionária de novembro de 1935. Particular porque destoava, em princípio, das recentes orientações da Internacional Comunista que amenizara seu discurso para a construção das Frentes Populares, discurso este que se cristalizaria apenas após agosto de 1935, no VII Congresso da Internacional Comunista. A ideia da formação de frentes de diversos partidos, voltadas para o combate ao fascismo, teve expressão eleitoral vitoriosa no Chile, na França e na Espanha. Tais frentes previam, em contrapartida, a flexibilização de algumas orientações comunistas daquela época, passando a cogitar a realização de alianças dos partidos locais com as burguesias nacionais.

Da ANL participaram intelectuais, escritores, professores, advogados, estudantes e vários sindicatos, das mais diferentes orientações políticas: comunistas, socialistas, simpatizantes, liberais, humanistas. Suas ações durante a existência da organização (mesmo que em sua fase perseguida, após julho de 1935) definiam-se pela criação de jornais e revistas, pela publicação de manifestos, realização de palestras em sindicatos e agrupações populares, manifestações e contramanifestações. As publicações com maior incidência foram a revista Marcha (1935), de pequena tiragem e o jornal diário A Manhã (1935), sob a direção do comunista Pedro Mota Lima, também cassado em fins daquele ano.

Luis Carlos Prestes foi alçado à liderança da ANL após a sua criação; amado e odiado líder das marchas ocorridas nas décadas anteriores que levaram seu nome, a Coluna Prestes. Com grande simpatia entre os militares herdeiros do tenentismo e respeito de boa parte dos intelectuais e civis antifascistas, Prestes ainda aderira recentemente ao comunismo, o que vinculava seu carisma e articulação tanto aos ideais frentistas quanto às estratégias revolucionárias oriundas da Internacional Comunista. Muitos teóricos têm dedicado seus estudos a compreender as estratégias tomadas pela Frente Popular brasileira naquele momento; entre tantos, destaco os trabalhos de Paulo Sérgio Pinheiro, Marcos Del Roio e Marly de Almeida Gomes Vianna.

Após novembro de 1935, a ANL se dissipou em pequenas células comunistas, em intelectuais no exílio na Argentina e no Uruguai e em milhares de presos, alguns torturados e mortos. Os números alcançam a cifra de 6.000 encarcerados, entre militares, intelectuais, congressistas e até mesmo o prefeito do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto. A luta antifascista após a intensa repressão de 1935 travou-se nas sombras, nas entrelinhas das poucas revistas que ousaram declarar sua oposição ao governo de Getúlio Vargas e driblar a censura.

O golpe do Estado Novo, de fins de 1937 foi mais um agravante para a desarticulação da resistência ao fascismo no Brasil. Tal golpe foi articulado por um precedente das “fake news”, o Plano Cohen. Tratava-se da descoberta de um “plano” da Internacional Comunista, forjado pelo capitão integralista Olímpio Mourão Filho, que, divulgado na imprensa, serviu como justificativa para o golpe de Estado articulado por Vargas. O plano impediu a realização das próximas eleições, se aproveitando do clima anticomunista e antissemita disseminado naquele momento.

No entanto, sabe-se que entre 1937 e 1942, mesmo em silêncio ou agindo na clandestinidade, a luta antifascista permaneceu ativa. Quando finalmente Vargas posiciona-se ao lado dos Aliados na guerra em andamento, a resistência ao fascismo pode voltar a se tornar pública e intensa.

Nesta teia teórica e histórica do que foi o fascismo e, consequentemente, o antifascismo, é possível perceber que a ação coletiva organizada, composta por vozes diversas em torno do combate ao fascismo encontrou força naquele tempo. Nos dias atuais, de autoritarismo crescente, de práticas fascistas disseminadas no poder e entre a população, é necessário enxergarmos na história as tragédias e as farsas.

Para isso, recupero o artigo do jurista baiano Hermes Lima, no jornal aliancista A Manhã, de junho de 1935. Lima militou contra o fascismo nos anos 30 e contra a ditadura nos anos 70, foi ministro do STF cassado pelo AI-5. Seu texto sintetiza o sentido de urgência da resistência ao autoritarismo e ao fascismo ao mesmo tempo em que alerta para o perigo das cômodas ilusões de que se alcançará a justiça e o bem sem o artifício da luta.

“A atitude de muita gente quando o poder, mesmo corrupto e desmoralizado, começa a empregar medidas de força e compressão para defender-se é a de aguardar, sentada na poltrona do seu comodismo, que suba o pano para o final desagravador do drama que se está vivendo. [...]

Não acho isso nem bonito de tão falso que é. Justiça, virtude, bem, liberdade são qualidades que nosso esforço, nossa coragem e nossa luta podem juntar à organização social em que vivemos, de tal maneira que esperar que tais qualidades “aconteçam” como as plantas germinam e os frutos caem das árvores, não dá outro resultado senão fatigar a esperança, desiludi-la. [...]

Onde houver uma ameaça à liberdade, onde se manifestar uma restrição aos direitos civis e políticos, a única posição de luta é a ação. Quem ficar sentado à espera do dedo de Deus – corre o risco de apanhar sem saber por que e apesar das boas intenções. Não é com boas intenções que se constrói o mundo.” (Hermes Lima. A Ilusão Liberal, A Manhã, n. 49, 21/6/35, RJ.)


(*) Ângela Meirelles é  doutora pelo programa de História Social da Universidade de São Paulo e professora-visitante do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da mesma universidade. Publicou "Palavras como Balas: Imprensa e intelectuais antifascistas no Cone Sul (1933-1939)", pela editora Alameda.


[1] “As classes trabalhadoras e a democracia”. O Homem Livre, n.5, 24/6/33, pg.1.

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Conferência anti-integralista realizada no salão da União das Classes Laboriosas em 14 de novembro de 1933

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