Fernando Frazão/Agencia Brasil

Como a direita construiu a vitória de Jair Bolsonaro

A vitória do PSL é uma vitória de um discurso construído com pesquisa, trabalho, análises e ajustes

Haroldo Ceravolo Sereza

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Essa foi uma eleição política e não econômica, como foram todas as outras da redemocratização.

Esse é o ponto de partida de qualquer análise. Quem entendeu os valores e discursos melhor venceu (Bolsonaro) ou sobreviveu (PT).

Achar que Ciro venceria é um erro: ao passar pro segundo turno, ele viraria imediatamente o candidato de Lula no WhatsApp e seria desconstruído em segundos, sem a força do PT para segurar o dique dos votos se rompendo.

Alckmin quis surfar no discurso antipetista de Bolsonaro e tudo o que fez foi alimentar sua onda.

Marina buscou um centro que não existe - na verdade, ele foi diminuindo desde 2010. E não foi por obra do PT, que também perdeu votos para a direita e, agora, para a ultradireita.

Essa vitória de Bolsonaro é a vitória da resiliência da direita, que, em 2003, começou a construir um discurso antipetista calcado no mesmo texto que derrubou João Goulart em 1964.

Posso desenvolver essas teses, mas prefiro contar uma historinha: em 2002, no centenário de Os Sertões, conheci Marco Antônio Villa na bucólica cidade de São José do Rio Pardo (SP). Conversei um tanto com ele, que não ficou o meu melhor amigo. Mas tínhamos uma amiga em comum e, assim, trocamos mais do que oi, prazer, tudo bem e tchau.

Numa das caminhadas entre um evento e outro no centro comunitário, Villa, salvo engano à época presidente do Instituto Teotônio Vilela, me contou que estava pesquisando a bagunça do governo Jango: "Aquilo não podia dar certo".

Por que Villa, cuja carreira estava associada à época de Canudos, passara a pesquisar a derrubada de Jango?

Não entendi à época - apenas fiquei com aquilo na cabeça.

Hoje, me parece claro que o PSDB encomendou a Villa, mais ou menos explicitamente, um estudo sobre como desestabilizar um governo trabalhista.

Bolsonaro é resultado desses 16 anos de luta intelectual e política contra o PT. A vitória do PSL é uma vitória de um discurso construído com pesquisa, trabalho, análises e ajustes.

Esse discurso saiu das mãos do PSDB há um ou dois anos, e caiu no colo de uma fração que foi mobilizada como último recurso contra o partido de Lula.

O futuro tem de ser construído sem ignorarmos que a direita pensa, planeja, executa, corrige-se e atua também como frente, com vários cavalos puxando a carruagem.

P.S.: Temer, ao lançar três cavalos na disputa (Alckmin, Meirelles e Bolsonaro), usou os dois primeiros para proteger o mais forte nesse momento. Não havia vacina contra isso no primeiro turno. Ainda que eu tenha defendido e acreditado que o PT deveria ter começado a desconstruir Bolsonaro antes do primeiro turno, provavelmente seria um trabalho em vão e talvez até levasse ele a ter mais votos.

Alckmin e Ciro tinham credibilidade, interesse e espaço para fazê-lo. Erraram ao mão ao atacar o PT prioritariamente, tentando pegar carona na onda de Bolsonaro. Ajudaram a criar o tsunami.

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